Yoshi and the Mysterious Book – Análise – Vale a Pena – Review

Confira neste texto o nosso review de Yoshi and the Mysterious Book, com um código de review cedido pela Nintendo Brasil.

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Enquanto Mario e seu irmão Luigi, Donkey Kong e Link fizeram parte da minha vida desde a infância em algum momento, seja através de desenhos animados, livros ou videogames, Yoshi sempre ocupou uma posição curiosa dentro do meu relacionamento com os personagens da Nintendo. Apesar de aparecer constantemente em inúmeras aventuras do Reino Cogumelo e ser facilmente um dos personagens mais carismáticos já criados pela empresa japonesa, ele nunca foi alguém que eu acompanhei de forma tão próxima quanto os demais protagonistas. Eu conhecia o personagem, gostava dele, entendia sua importância para a franquia Mario, mas jamais havia mergulhado de cabeça em uma aventura solo do pequeno dinossauro verde.

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Curiosamente, isso mudou completamente depois que me tornei pai. De alguma forma, Yoshi chamou a atenção do meu filho de uma maneira que Mario, Luigi e diversos outros personagens da Nintendo não conseguiram. Aos poucos, ele passou a ocupar um espaço especial dentro das brincadeiras, desenhos, conversas e, é claro, dos jogos que explorávamos juntos. Foi justamente por conta disso que acabei conhecendo Yoshi’s Crafted World, uma experiência que me surpreendeu de forma extremamente positiva e que rapidamente se tornou um dos jogos favoritos do meu filho.

Na época, Crafted World me conquistou não apenas pelo visual absolutamente encantador, mas também pela forma como utilizava sua direção artística para enriquecer constantemente a jogabilidade. Todo o cenário parecia construído com objetos reciclados, utilizando caixas, copos, papelão, embalagens e diversos outros elementos do cotidiano para formar ambientes criativos e surpreendentes. O próprio Yoshi possuía uma textura que remetia a feltro, reforçando ainda mais a sensação de estar explorando um mundo artesanal construído manualmente. As fases eram repletas de segredos, colecionáveis e diferentes perspectivas, incentivando a exploração constante e recompensando a curiosidade do jogador de maneira extremamente eficiente.

A história também cumpria muito bem seu papel. Embora não fosse profunda ou complexa, ela era suficientemente envolvente para prender a atenção das crianças. Ver Kamek e Bebê Bowser roubando a pedra preciosa de uma joia capaz de realizar desejos absurdos era um ponto de partida simples, mas funcional. A busca de Yoshi e seus amigos pela recuperação daquele artefato criava um objetivo claro e constante durante toda a aventura, algo que meu filho acompanhava com enorme interesse enquanto tentava descobrir o que aconteceria em seguida.

Depois dessa experiência tão positiva, naturalmente minhas expectativas para Yoshi and the Mysterious Book eram elevadas. Eu esperava encontrar novamente uma aventura criativa, acessível para crianças e que conseguisse capturar aquele mesmo senso de descoberta constante que tornou Crafted World tão memorável. Infelizmente, o que eu menos esperava acabou sendo justamente o que aconteceu.

Imagem: @otaldomarcosh

Yoshi and the Mysterious Book possui identidade própria e muito carisma

Se existe algo que não pode ser negado sobre Yoshi and the Mysterious Book, é o fato de que ele possui uma identidade extremamente forte. Desde os primeiros minutos fica evidente que os desenvolvedores queriam construir algo visualmente distinto dos jogos anteriores da franquia, criando uma aventura cuja principal característica fosse justamente a exploração de um livro vivo. Toda a experiência gira em torno dessa ideia, desde sua narrativa até a construção dos cenários, dos personagens e das mecânicas de gameplay.

A aventura começa quando Bowser Jr encontra um livro misterioso no topo de uma pilha de livros. Movido pela curiosidade, ele decide investigá-lo mais de perto, mas acaba sendo transportado para dentro das páginas daquele estranho objeto. O acidente chama a atenção dos Yoshi’s, que chegam ao local para entender o que aconteceu. Ao abrirem o livro, eles descobrem algo ainda mais estranho: ele está vivo.

Esse livro se apresenta como Professor Nabucodonosor Igma, embora ele prefira ser chamado apenas de Professor N. Igma. O personagem rapidamente demonstra possuir uma personalidade bastante divertida e carismática, servindo como guia para o jogador durante boa parte da aventura. Segundo ele, existe algo de errado acontecendo dentro de suas páginas, e por isso solicita a ajuda dos Yoshi’s para investigar o problema.

A partir desse momento, o jogo apresenta aquilo que se torna seu principal diferencial. Diferentemente de outras aventuras da franquia, o foco aqui não está em plataformas complexas, em combate ou mesmo em uma narrativa tradicional. O centro da experiência está na exploração, observação e descoberta das criaturas que habitam as páginas do misterioso livro.

Visualmente, tudo funciona muito bem. Os cenários parecem ilustrações desenhadas à mão, transmitindo a sensação de que realmente estamos explorando páginas vivas de um livro infantil. Existe um charme muito grande em praticamente todos os ambientes apresentados, e a direção artística consegue sustentar essa proposta do início ao fim da jornada.

Imagem: @otaldomarcosh

A principal mecânica de gameplay gira em torno da descoberta

Ao acessar o sumário do livro, o jogador encontra os diferentes capítulos da aventura. Cada capítulo funciona como um habitat específico, contendo criaturas próprias e uma série de descobertas a serem realizadas. Inicialmente, o jogador não sabe absolutamente nada sobre essas espécies. Não conhece seus comportamentos, suas habilidades, suas reações ou qualquer característica relevante. E é justamente essa ausência de informação que move toda a experiência.

A missão principal consiste em descobrir tudo o que for possível sobre essas criaturas. Para isso, é necessário observá-las atentamente e experimentar diferentes formas de interação. Você pode tentar carregá-las, engoli-las, pular sobre elas, arremessá-las ou simplesmente observar como elas reagem ao ambiente. Cada ação gera novas informações, ampliando gradualmente o conhecimento sobre aquela espécie.

Algumas dessas criaturas também funcionam como ferramentas temporárias para exploração. Uma delas lembra um sapo capaz de produzir bolhas, permitindo alcançar locais elevados. Outra assume a forma de um guarda-chuva, permitindo planar por longas distâncias. Existe ainda uma criatura semelhante a uma banana que pode ser utilizada como um bumerangue para atingir inimigos ou ativar mecanismos espalhados pelos cenários.

A criatividade presente nesse sistema é genuinamente impressionante. Existem inúmeras espécies, cada uma apresentando características únicas e possibilidades próprias de interação. Frequentemente uma descoberta realizada em determinado habitat ajuda a compreender melhor criaturas encontradas anteriormente, criando uma sensação interessante de progressão baseada em conhecimento.

É impossível não admirar o esforço da equipe de desenvolvimento na criação desse ecossistema. Existe uma enorme quantidade de ideias interessantes espalhadas por toda a aventura. O problema é que criatividade e boas ideias, por si só, não são suficientes para sustentar uma experiência de aproximadamente vinte horas.

Imagem: @otaldomarcosh

Como esse jogo é destrinchado por uma criança?

Esse talvez tenha sido o aspecto mais interessante de toda a minha experiência com Yoshi and the Mysterious Book. Meu filho atualmente possui quatro anos e, apesar da pouca idade, já explorou comigo inúmeros jogos. Entre eles estão diversos títulos da franquia LEGO, Super Mario Odyssey, Super Mario 3D World, Luigi’s Mansion 3, Donkey Kong Bananza e até mesmo alguns jogos mais complexos, como Street Fighter V.

Um dos seus jogos favoritos atualmente é Wobbly Life, um sandbox focado em exploração, experimentação e criatividade. Por conta disso, eu imaginava que Yoshi and the Mysterious Book teria boas chances de conquistá-lo. Afinal, existe uma semelhança muito clara entre os dois títulos. Ambos incentivam a curiosidade, a descoberta e a experimentação constante.

Mas a reação foi completamente diferente do que eu esperava.

Enquanto em Crafted World ele ficava genuinamente empolgado para descobrir novos cenários, desbloquear trajes, encontrar segredos e acompanhar a narrativa, em Mysterious Book ele frequentemente demonstrava confusão sobre o que deveria fazer. Em diversos momentos ele simplesmente me perguntava qual era o objetivo, qual criatura precisava interagir ou como deveria avançar.

O problema não era falta de interesse. Ele tentava experimentar coisas diferentes. Tentava interagir com os animais. Testava algumas possibilidades. Mas frequentemente ficava sem ideias. O jogo exige que o jogador utilize sua criatividade para descobrir novas interações, porém nem sempre oferece direcionamento suficiente para estimular esse processo.

Isso acaba criando uma barreira especialmente complicada para crianças menores. Muitas vezes elas não possuem repertório suficiente para imaginar todas as possibilidades de interação que o jogo espera. Como consequência, o ritmo desacelera e a experiência passa a depender muito mais de tentativa e erro do que de descobertas naturais.

Imagem: @otaldomarcosh

A ausência do modo cooperativo é uma das decisões mais estranhas do jogo

Outro aspecto que me chamou bastante atenção foi a ausência completa de um modo cooperativo. Yoshi and the Mysterious Book não oferece multiplayer local, não oferece multiplayer online e sequer permite que dois jogadores participem simultaneamente da aventura.

A justificativa apresentada pelo jogo é que as páginas do livro seriam frágeis demais para suportar mais de um Yoshi explorando ao mesmo tempo. Honestamente, essa explicação não me convenceu nem por um segundo. Principalmente porque o próprio universo apresentado contradiz essa lógica diversas vezes, mostrando Bowser Jr, Kamek e inúmeras outras criaturas habitando aquelas mesmas páginas sem qualquer problema aparente.

A ausência do cooperativo pesa ainda mais quando analisamos o perfil do público-alvo. Trata-se de um jogo extremamente voltado para famílias, crianças e jogadores casuais. São justamente os tipos de experiência que mais se beneficiam da presença de um segundo jogador. Muitos dos momentos mais divertidos que vivi com jogos da Nintendo vieram justamente da possibilidade de compartilhar a aventura com outra pessoa.

Por isso, retirar completamente essa funcionalidade parece uma oportunidade desperdiçada. É fácil imaginar como o processo de descoberta das criaturas poderia funcionar de forma ainda mais interessante com dois jogadores trabalhando juntos para desvendar os mistérios de cada habitat.

Imagem: @otaldomarcosh

O problema de Yoshi and the Mysterious Book não são as ideias, mas a execução

Conforme avançava pelos capítulos do livro, uma sensação se tornava cada vez mais evidente. Yoshi and the Mysterious Book possui excelentes ideias. Na verdade, algumas das melhores ideias que a franquia já apresentou em anos. O conceito do livro vivo é excelente. O sistema de catalogação das criaturas é criativo. Os habitats possuem personalidade própria. As espécies são interessantes e frequentemente surpreendentes.

O problema é que o jogo parece incapaz de extrair todo o potencial dessas ideias.

Muitas vezes ele apresenta conceitos extremamente interessantes, mas não os desenvolve o suficiente. Em outras ocasiões, insiste excessivamente em determinadas mecânicas, fazendo com que elas percam parte do impacto inicial. O resultado é uma aventura que constantemente demonstra potencial para se tornar algo especial, mas raramente consegue atingir esse nível.

Essa sensação se torna ainda mais evidente quando comparada diretamente com Crafted World. Enquanto o jogo anterior conseguia transformar praticamente cada fase em uma nova surpresa, Mysterious Book frequentemente parece repetir sua própria estrutura. As descobertas continuam acontecendo, mas deixam de causar o mesmo impacto emocional depois de algumas horas.

A repetição surge mais cedo do que deveria e permanece presente durante boa parte da experiência.

yoshi and the mysterious book é divertido mas não cativa tanto
Imagem: @otaldomarcosh

Vale a pena jogar Yoshi and the Mysterious Book?

Yoshi and the Mysterious Book não é um jogo ruim. Muito pelo contrário. Trata-se de uma aventura competente, visualmente encantadora e recheada de boas ideias. O conceito do Professor N. Igma é excelente. Os habitats são bonitos. As criaturas possuem muito carisma. Existe uma enorme quantidade de criatividade espalhada por praticamente todos os aspectos da produção.

Entretanto, criatividade por si só não é suficiente para transformar uma boa ideia em uma experiência memorável. O jogo simplesmente não consegue manter seu nível de novidade por tempo suficiente. Após algumas horas, o ciclo de observar criaturas, experimentar interações, descobrir novas informações e avançar para o próximo habitat começa a demonstrar sinais claros de desgaste.

O maior problema é que a aventura dura cerca de vinte horas. E sinceramente, não acredito que sua estrutura consiga sustentar esse tempo inteiro sem perder parte do encanto. Existe conteúdo, existe variedade visual e existem novas criaturas surgindo constantemente, mas a sensação geral é de que a experiência alcança seu ápice relativamente cedo.

Considerando que tanto Yoshi and the Mysterious Book quanto Yoshi’s Crafted World custam o mesmo valor na eShop, minha recomendação é bastante clara. Eu escolheria Crafted World sem qualquer hesitação. Não existe nada em Mysterious Book que consiga me convencer do contrário. Isso não significa que o novo jogo seja ruim, mas sim que ele possui um concorrente direto extremamente superior disponível pelo mesmo preço.

Yoshi and the Mysterious Book não é uma experiência indispensável para proprietários do Nintendo Switch 2. Ainda assim, está longe de ser um fracasso. Se você gosta de exploração, criatividade e propostas mais experimentais, certamente encontrará momentos agradáveis durante sua jornada. Porém, para mim, ele nunca consegue alcançar o mesmo nível de encanto, variedade e capacidade de surpreender que Crafted World demonstrou anos atrás.

E talvez essa seja justamente a maior decepção. Porque em diversos momentos fica evidente que existia potencial para algo muito maior.

gameplay no yoshi and the mysterious book
Imagem: @otaldomarcosh

Veredito

Yoshi and the Mysterious Book apresenta uma das propostas mais criativas já vistas em um jogo protagonizado pelo dinossauro verde da Nintendo. Explorar um livro vivo, descobrir espécies desconhecidas e transformar a curiosidade em mecânica principal são conceitos extremamente interessantes e que demonstram uma identidade própria muito forte.

Infelizmente, a execução não consegue acompanhar completamente a qualidade dessas ideias. A repetição aparece cedo, a ausência do cooperativo limita significativamente a experiência e o loop principal de gameplay perde parte do impacto antes do encerramento da aventura.

Ainda assim, trata-se de um jogo competente, carismático e visualmente encantador, especialmente para jogadores que apreciam experiências focadas em exploração e descoberta.

Mas se a escolha for entre Yoshi and the Mysterious Book e Yoshi’s Crafted World, a recomendação continua sendo extremamente simples: Crafted World permanece como a melhor aventura protagonizada pelo personagem.

Resumo para Preguiçosos

Yoshi and the Mysterious Book é um jogo extremamente criativo e cheio de personalidade. A ideia de explorar as páginas de um livro vivo, descobrindo criaturas desconhecidas e aprendendo como elas interagem com o ambiente, é genuinamente interessante e demonstra que a Nintendo ainda sabe criar conceitos únicos para seus personagens mais carismáticos. Visualmente o jogo é encantador, com cenários que parecem ilustrações desenhadas à mão, criaturas divertidas e habitats repletos de charme. O problema é que toda essa criatividade acaba sustentando um loop de gameplay que se torna repetitivo mais rápido do que deveria, fazendo com que a aventura perca parte do seu brilho conforme as horas passam.

Além disso, a ausência de um modo cooperativo pesa bastante em uma experiência claramente voltada para famílias e crianças. Mesmo sendo um bom jogo, ele nunca consegue alcançar o mesmo nível de variedade, surpresa e capacidade de engajamento de Yoshi’s Crafted World, que continua sendo a melhor recomendação para quem procura uma aventura do personagem. Se você gosta de exploração e propostas mais experimentais, encontrará diversão aqui, mas considerando que ambos custam o mesmo valor, Crafted World continua sendo a escolha mais fácil de recomendar.

Prós

  • Identidade visual extremamente criativa
  • Grande variedade de criaturas e interações
  • Conceito central muito original
  • Legendado em Português do Brasil

Contras

  • Loop de gameplay repetitivo
  • Ausência de modo cooperativo
  • Não consegue alcançar o nível de Crafted World
Marcos Schulle
Marcos Schulle
Fundador do Save State / Redator do Critical Hits. Adoro jogos de mundo aberto com elementos de RPG. Meu Bluesky: @otaldomarcosh.savestate.com.br