Em Gears of War: E-Day, você acompanha os eventos do Emergence Day, o momento em que os Locust surgem do subsolo e a humanidade descobre, da pior forma possível, que não estava preparada para a guerra que viria. É um ponto da cronologia que os fãs queriam ver desde o primeiro jogo, já que ele sempre foi tratado como um evento distante, mencionado em diálogos e em registros espalhados pelos cenários. Ver tudo acontecer na tela, com a tecnologia de hoje, é um atrativo enorme para quem acompanha a série há anos.
A campanha também explora os dilemas morais daquele período, como a decisão de usar o Hammer of Dawn para destruir cidades inteiras na tentativa de conter a ameaça Locust. É uma ideia interessante, que mostra um lado mais desesperado e sombrio da guerra, e o jogo faz questão de lembrar o jogador de que as escolhas feitas ali tiveram um custo altíssimo para a humanidade.
A primeira coisa que preciso dizer é que o jogo entrega a essência de Gears of War, e isso é muito bom. A gameplay básica é extremamente satisfatória, com aquele combate baseado em cobertura, armas pesadas e a sensação de peso em cada tiro que a série sempre teve. Quem sentiu falta do Gears “clássico” vai se sentir em casa logo nos primeiros minutos, e eu me diverti bastante com o combate do início ao fim, mesmo quando o jogo não estava reinventando nada.

Boa parte disso é mérito do Marcus Fenix. A presença dele eleva a qualidade do jogo e supera com folga os protagonistas dos títulos anteriores, como JD Fenix e Kait. A voz do personagem dá um tom mais sério e imersivo à narrativa, e é muito bom ver a série voltando a ter um protagonista com carisma de verdade, daqueles que você acompanha com prazer mesmo quando o roteiro não ajuda. A diferença para os últimos jogos é evidente.
A The Coalition também mexeu na mobilidade do jogo, permitindo pulos e escaladas que não existiam nos Gears anteriores. Isso deixa a movimentação mais fluida e abre novas possibilidades durante os tiroteios, e é uma mudança que funciona bem sem descaracterizar a fórmula. Só que ela tem um efeito colateral: o primeiro chefe do jogo ficou consideravelmente mais fácil de vencer, já que o jogador tem muito mais liberdade para fugir dos ataques e se reposicionar. Eu joguei no modo normal, e a dificuldade raramente chegou a ser um problema, então quem busca um desafio maior provavelmente vai precisar subir o nível logo de cara.

Os clássicos inimigos da franquia também dão as caras, como os Boomers, que continuam divertidos de enfrentar e lembram o quanto o design de inimigos de Gears sempre foi eficiente. O ponto que me frustrou um pouco foi a inteligência artificial, principalmente com um tipo específico de inimigo que derruba o jogador e faz você depender o tempo todo da ajuda dos companheiros para levantar. Em alguns momentos, isso quebra o ritmo do combate, e a sensação é de que o jogo poderia ter equilibrado melhor essa mecânica.
Agora vamos ao ponto que mais me incomodou e que acaba sendo o principal ponto negativo do jogo: a história. A narrativa de Gears of War: E-Day é muito um “tá tudo ruim, e vai piorar”, repetido do começo ao fim, sem nenhum personagem de fato tendo algum arco. Os personagens simplesmente andam de lá para cá matando inimigos, enquanto o jogo tenta convencer você de que tudo aquilo é dramático e pesado. Só que drama sem evolução de personagens não funciona: o carisma do Marcus ajuda, mas carisma não é a mesma coisa que arco narrativo, e apesar de alguns personagens mudarem um pouco entre o começo e o fim do jogo, não dá pra chamar exatamente de arcos narrativos o que acontece em Eday.

A premissa do Emergence Day tinha tudo para render uma história marcante, com perdas reais, decisões difíceis e personagens sendo transformados pelo que viram. Em vez disso, o jogo se contenta em mostrar que a situação é terrível e depois mostrar que ela ficou ainda pior, sem que isso mude muito quem está do outro lado da tela. Os dilemas morais, como o uso do Hammer of Dawn, aparecem como contexto, mas raramente pesam de verdade sobre as pessoas envolvidas.
Para quem não liga para história em jogos de tiro, isso não vai ser um grande problema, e eu entendo perfeitamente quem pensa assim. Mas é uma pena que a The Coalition ainda não tenha dominado esse ponto em seus jogos de Gears of War. O gameplay e o resto ela conseguiu se tornar mestre, mas ainda deve demais no quesito história, e é frustrante ver um estúdio tão competente em tudo o que envolve jogar tropeçar justamente no que daria ao jogo um peso maior.

Outro ponto que me incomodou bastante foi o excesso de colecionáveis. A todo momento o jogo te bombardeia com itens espalhados pelos cenários que, na prática, não servem para muita coisa, e o pior é o som de aviso que toca quando você está perto de um deles. Esse alerta continua tocando mesmo durante o tiroteio, e isso sinceramente não faz o menor sentido, porque desconcentra num momento em que você precisa estar focado em cobertura, posicionamento e munição. Eu entendo que os colecionáveis contribuem com a história do E-Day e com a construção do mundo de Gears, e para quem gosta de mergulhar nesses detalhes eles têm seu valor. Mas a The Coalition pesou demais a mão nesse ponto, e a sensação é de que o jogo está o tempo todo te interrompendo para lembrar que tem mais alguma coisa para pegar.
Além disso, temos a parte de “bairro aberto” em dois capítulos do jogo. Para ser sincero, ela me deu uma bela cansada durante o capítulo 2, e boa parte disso foi culpa minha, porque eu resolvi fazer tudo o que via pela frente. Mesmo assim, devo ter feito só uns 75% das missões que estavam disponíveis lá, o que mostra o tamanho do conteúdo que o jogo joga na sua mão nesses trechos. É um formato que quebra o ritmo da campanha linear, que é justamente o ponto forte da série, e que acaba se tornando cansativo para quem tenta completar tudo. Se você não é do tipo que precisa limpar o mapa, vale seguir mais direto para a história e deixar as missões secundárias para quem realmente quiser.

Fora a campanha em si, ainda temos o modo multiplayer de Gears of War: E-Day, que adiciona uma boa longevidade ao jogo e mais do melhor de Gears para quem quer continuar jogando. Apesar do multiplayer competitivo não ser exatamente a minha praia, o modo horda é muito mais o que eu gosto e ele está 100% divertido aqui.
Graficamente falando, Gears of War: E-Day é um dos mais belos jogos dessa geração tranquilamente. A The Coalition mandou muito bem nos modelos, nas animações, expressões faciais, cenários e tudo mais. O jogo é realmente muito bonito e rodou bem no meu PC, um Ryzen 7 5800X com 32GB de Ram e uma RTX 5070 no Windows 10. Eu também testei o jogo no Rog Ally X, onde eu tive que deixar tudo no baixo e usar o FSR 4. Dessa forma, o jogo ficou bem feio, mas 100% jogável e se eu travasse o framerate do jogo a 30 FPS, ele não ficava a 100% do uso da GPU a todo momento, apesar de haver alguns engasgos. Por fim, a trilha sonora do jogo é muito boa e a dublagem continua excelente como sempre.
Mas e aí, Gears of War: E-Day vale a pena?
Gears of War: E-Day é um jogaço que entrega exatamente o que a gente espera de um Gears: gameplay satisfatório, tiroteios pesados, mobilidade melhorada e o carisma do Marcus Fenix de volta. A história decepciona por não ter arco nenhum para os personagens e por ser basicamente uma sequência de “está tudo ruim e vai piorar”, mas se você não liga para isso, é um jogo imperdível para qualquer fã de tiro em terceira pessoa e uma grande vitória para o Xbox.
Resumo para Preguiçosos
Gears of War: E-Day é um jogaço que entrega a essência da franquia: gameplay satisfatória, tiroteios pesados, mobilidade melhorada e o carisma de Marcus Fenix de volta ao centro da ação. A The Coalition mexeu bem na movimentação com pulos e escaladas, o combate continua divertido do começo ao fim e o jogo chega como o tipo de exclusivo de que o Xbox precisava para fortalecer sua lineup em 2026.
O grande problema é a história, que se resume a um “tá tudo ruim, e vai piorar” sem nenhum personagem tendo arco de verdade. Somam-se a isso o excesso de colecionáveis, com aquele som de aviso tocando até durante o tiroteio, e as partes de “bairro aberto” que cansam e quebram o ritmo da campanha. Para quem não liga para narrativa, é um jogo imperdível; para quem esperava uma história à altura do Emergence Day, a The Coalition ainda deve.
Prós
- Essência clássica de Gears of War preservada
- Gameplay básica extremamente satisfatória, com combate pesado e baseado em cobertura
- Marcus Fenix carismático, com dublagem que dá um tom mais sério e imersivo
- Mobilidade aprimorada, com pulos e escaladas inéditos na série
Contras
- História fraca, sem arco para nenhum personagem
- Excesso de colecionáveis, com som de aviso que desconcentra durante os tiroteios
- Seções de “bairro aberto” cansativas, que quebram o ritmo da campanha
- Primeiro chefe fácil demais por causa da mobilidade aprimorada
- IA frustrante em um tipo de inimigo que derruba o jogador e exige ajuda constante dos companheiros


