Em virtude do brilhante trocadilho no título, sou obrigada a dizer que Dark Scrolls é um jogo que, no geral, não tem nada a ver com a saga Dark Souls. Existe uma aproximação no conceito de Scrolls, já que a mecânica de auto-scrolling é infame no mundo de plataformas 2D tal qual os mapas de Dark Souls são para jogadores de primeira viagem, mas não passa disso. Todavia, esse jogo de palavras inicial revela como Dark Scrolls é um jogo que se inspira em muitas boas fontes, porém não falha em ter sua própria identidade. Sendo assim, vamos desvendá-la.
O filho roguelite de Super Ghouls’n Ghosts

Assim que vi a arte e a progressão de fases do Dark Scrolls, imediatamente me veio à mente um dos clássicos da Capcom, o Super Ghouls’n Ghosts. Em resumo, é um jogo clássico de plataforma 2D bastante popular pela sua dificuldade elevada. Porém, a equipe de Dark Scrolls fez um ótimo trabalho ao fugir dessa pegada punitiva e criar seu próprio estilo.
A estrutura à Ghouls é visível na superfície do mapa, mas basta tentar nadar que as águas não são ondas fortes e turbulentas, pelo contrário, tal qual um oceano, elas seguem seu próprio ritmo em uma inconsistência consistente, uma bonita forma de dizer que a fase é procedural, porém há padrões fixos de geração que se completam à medida que o auto-scrolling faz o seu trabalho.
É uma escolha bem roguelite em seu conceito e que funciona bem para que Dark Scrolls nunca caia na combinação de repetitivo, lento e previsível que costumam ser níveis puramente auto-scrolling. Esse era o meu maior medo com o jogo e felizmente posso dizer com convicção que as fases dele não enjoam.
Um time de variedade e carisma

Outro forte elogio que posso fazer é com relação ao elenco disponível. Apesar de alguns personagens serem muito mais fáceis de usar, como o Brutus, é bacana como sempre todos tem movimentação e ataques diferentes para jogar. Se por um lado o jogador pode se acomodar com um estilo de gameplay que ache mais fácil de dominar, por outro há uma vasta gama de estratégias viáveis que oferecem uma experiência real de gameplay única para cada run, pois mesmo já conhecendo o que pode ter na fase, há a necessidade de adaptar as estratégias de como lidar com as adversidades em sintonia com as possibilidades que o seu personagem tem e as lacunas do seu moveset. Por fim, é muito bacana que o desbloqueio de personagens flui naturalmente ao decorrer da campanha, sempre estimulando o uso de personagens diferentes e valorizando quem presta atenção nos curtos diálogos e cenários.
Você pode ficar forte até demais

Uma das grandes qualidades que o jogo tem, infelizmente, também é um dos seus maiores problemas. Sendo coerente com a sua proposta, Dark Scrolls realmente quer que você jogue do seu jeito e explore as mecânicas do jeito que for melhor para você em qualquer situação que vier pela frente. Isso permite soluções muito criativas e únicas, como aproveitar uma habilidade de quebrar paredes para acessar um caminho que custa muitas moedas sem gastar nenhuma delas.
A sensação após um momento assim é de satisfação e recompensa por se envolver com o jogo. Porém, essas interações podem vir a ser extremamente apelonas, especialmente quando se trata dos frames de invencibilidade que vários personagens conseguem usar de forma abusiva, e o atributo das fadas, que gera cura ao longo do tempo.
O resultado é que, na prática, os outros atributos são desnecessários. Variar, nesse caso, é uma tática que acaba sendo “errada”, pois apesar do jogo nunca ter determinado que se use apenas uma estratégia, ela é tão mais eficiente que qualquer outra opção acaba ofuscada. Ter um estímulo mais forte para o jogador desbloquear mais atributos e limitar o acesso a vasta quantia de fadas pode melhorar o balanceamento do jogo, porém, da forma como está agora, ter mais atributos é tudo que você deve evitar, pois algumas fadas bastam.
Um caos de diversão

Outro elemento que contribui para Dark Scrolls ser divertido e viciante é a explosão de efeitos na tela. A dinâmica do bullet hell, mesmo jogando solo, é caótica no seu sentido mais literal, sendo possível entupir a tela de projéteis em segundos e perder de vista seu personagem no meio da bagunça. Infelizmente, não pude testar o jogo em co-op durante a análise, porém é perceptível o potencial de zona que várias pessoas jogando ao mesmo tempo é capaz de criar. Penso que, para a proposta do jogo, é coerente e, para jogar sozinho, confirmo que é intuitivo e fácil de se adaptar a confusão.
Dark Scrolls Vale a Pena?
Dark Scrolls tem a carinha de jogo que você compra, joga e fica se perguntando por que as pessoas não estão falando dele. Ele faz jus às ótimas experiências das quais tomou inspiração e cria sua própria identidade de modo que é impossível jogá-lo e não se divertir. Recomendados Dark Scrolls para os fãs de jogos de plataforma, de roguelites e para quem acha que a melhor diversão possível em amigos é aquela que a bagunça é a regra da vez.
Análise feita com uma chave para PC cedida pela publisher.
Resumo para Preguiçosos
Dark Scrolls é um jogo indie de plataforma 2D com mecânica de auto-scrolling, roguelite e bullet hell. As fases são procedurais e lembram Super Ghouls’n Ghosts, mesmo não sendo um jogo difícil. Apesar de criativas e variadas opções de gameplay, o sistema de atributos pode ser extremamente apelão e ofuscar boa parte das opções disponíveis para ele. O jogo vale a pena para quem curte roguelite e merece a atenção de quem teve interesse por ele.
Prós
- Fases divertidas e engajantes que não enjoam
- Personagens carismáticos com variedade real de gameplay
- Valoriza e recompensa criatividade do jogador
- Boas inspirações sem perda de originalidade
- Ótima oportunidade de co-op
Contras
- Os frames de invencibilidade de alguns personagens são fortes demais
- Pouco incentivo para engajar com os sistemas de roguelite dos atributos

