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Aquaman – Crítica

Desde a sua criação em meados dos anos 40, Aquaman sempre foi um herói complicado de se trabalhar. Não por causa da complexidade da sua história, mas sim pelas diversas interpretações e tons dados ao personagem ao longo desses anos. Ele inicialmente foi concebido como um herói secundário, mas com o tempo acabou ganhando mais destaque e chegou a ser um dos membros mais importante da Liga da Justiça. No entanto, a versão mais conhecida do herói foi popularizada nas animações dos anos 2000, onde o Aquaman possuía um tom bem mais cômico, protagonizando cenas hilárias dele falando com peixes ou surfando em golfinhos.

Trazer isso para o cinema por si só já era um desafio, ainda mais no atual momento do universo da DC, onde a visão e o tom proposto inicialmente por Zack Snyder começava a ser cada vez menos perceptivo. Liga da Justiça é o primeiro exemplo disso, mas que ainda sofre por ser uma “cama de retalhos”, uma mistura de visões que acaba não tendo identidade própria. Já em Aquaman, a Warner/DC entrega total liberdade criativa a James Wan, que usa os elementos mais consagrados do Rei de Atlântida para criar uma aventura leve e divertida.

Aquaman (Jason Momoa) não se propõe a contar uma história complexa cheia de ramificações ou multifacetada, o roteiro é simples e direto. Arthur Curry é filho da Rainha Atlanna (Nicole Kidman) com o humano Thomas Curry (Temuera Morrison), sendo um ser hibrido gerado da união entre os reinos da Terra e do Mar. No entanto, mesmo tentando evitar a sua herança nobre, Arthur precisa deter o seu irmão mais novo, Orm (Patrick Wilson), que deseja travar uma guerra contra os humanos para reergue o império de Atlântida.

É basicamente a clássica e pura Jornada do Herói, mesmo pulando algumas partes ainda temos o chamado à aventura, a recusa, o encontro com aliados, a provação, a recompensa e o caminho de volta. Mas isso não necessariamente é um problema, já que como o próprio termo popularizado por Joseph Campbell, é a jornada do HERÓI, então nada mais justo que usá-la para contar a história de um herói.

Tendo isso como base, James Wan consegue fazer de um roteiro simples uma aventura incrível que não perde o fôlego (trocadilho infame). Grande parte desse mérito são derivadas das escolhas de contar um filme de origem de uma maneira um pouco diferente. Quando somos apresentados ao Aquaman ele é um herói quase pronto com todas as noções dos seus poderes e até já realizando atos heroicos, as lacunas do seu passado são transmitidas em flashbacks muito bem encaixados.

Partindo para a jornada em si, Aquaman tem dois principais problemas, o excesso de vilões e a relação entre Arthur Curry e Mera (Amber Heard). O primeiro é causado porque o Arraia Negra simplesmente é carente de desenvolvimento, a caracterização do personagem é perfeita, a atuação de Yahya Abdul-Mateen II é incrível, mas falta tempo para o vilão ser devidamente construído. Mesmo que sua motivação seja puramente a vingança e ele tenha uma função bem prática no roteiro, o Arraia Negra é um vilão bem mais complexo, que não merece ser tratado apenas como um personagem secundário.

O segundo problema que atrapalha bem mais é consequência da falta de química entre Jason Momoa e Amber Heard. Embora Momoa tenha carisma suficiente para sustentar o seu protagonismo, ele não consegue desenvolver uma relação convincente com a Heard, as piadas na maioria das vezes são fora de ritmo e os diálogos sãos truncados. Mesmo aos trancos e barrancos, no final até é possível comprar essa relação.

Tirado esses dois elefantes da sala, podemos voltar a falar dos pontos em que Aquaman acerta, sendo talvez o maior deles a sua identidade visual. Diferente dos seus irmãos mais sombrios e realistas, Aquaman não tem vergonha de apostar nas cores, principalmente na caracterização de Atlântida, dos seus habitantes e das variadas espécies de animas. Tudo é muito diferente, único e brilhante, desde as diferentes armaduras dos soldados de cada um dos reinos até as estruturas de Atlântida que mesclam um visual quase alienígena. Todo o mundo subaquático construído é deslumbrante, e guarda as devidas proporções pode ser facilmente comparado a Pandora construída por James Cameron em Avatar.

Ao aceitar esse visual que pode até ser tido como cafona, Aquaman permite se divertir e levar o público junto sem perder o tom épico. Então, o ato dele falar com peixes que é tomado como piada na animação, aqui também é engraçado, mas tem importância crucial na história. O mesmo pode ser dito da sua armadura, que não tem vergonha de ser idêntica ao clássico uniforme original e mesmo assim consegue transmitir a imponência de um rei.

Outro ponto que merece ser enfatizado é que a ação de Aquaman é algo nunca antes visto no universo da DC nos cinemas. Mesmo James Wan não sendo muito conhecido pelos seus filmes de ação, o diretor consegue entregar combates frenéticos dos mais variados tipos. Desde planos-sequência espetaculares, que vão de encontro aos frequentes cortes em filmes de heróis até combate épicos de proporções monumentais com criaturas gigantescas. Tudo isso é coroado com um movimento de câmera sempre presente, nós oferecendo diferentes ângulos de uma mesma sequência de cenas e acompanhando fisicamente as movimentações das lutas.

Vale aqui o destaque para a sequência de ação envolvendo o Arraia Negra, o Aquaman e Mera, que tem de longe um dos melhores momentos do filme, onde Mera mostra todo o seu poder de hidrocinese.

Deixando de lado o sombrio e realista, Aquaman é a prova que os heróis da DC não precisam ser transportados para o cinema com um mesmo tom. Ao conseguir captar a essência do personagem, James Wan consegue criar um universo esplendoroso, em uma aventura capaz de rir de si mesma, transformando elementos tidos como cômicos ou bizarros em partes fundamentais da história. Pode ser cedo demais para falar que essa é uma das melhores representações do Aquaman em todas as mídias, mas podemos concordar que pelo menos já é uma das mais marcantes.

Aquaman não é a salvação da DC, até porque é precipitado falar que a DC precisava de salvação, mas sem dúvida é o início de uma nova fase, bem mais ótimaista e sem medo de abraçar aquilo que os personagens realmente são.

Resumo para os preguiçosos

Em uma aventura leve e divertida, Aquaman abraça o seu lado cômico e deixa um pouco de lado o sombrio e realista. Com um roteiro simples, mas a direção impecável de James Wan, o novo filme da DC não tem vergonha de apostar em caracterizações inventivas para os seus mais diversos elementos, criando uma verdadeira Atlântida esplendorosa cheia e cor.Coroando tudo isso, ainda temos lutas frenéticas que mesclam planos-sequência espetaculares e combate épicos de proporções monumentais.

Nota final

80
Saiba mais sobre os nossos métodos de avaliação lendo o nosso Guia de Reviews.

Prós

  • Roteiro simples que serve perfeitamente para a proposta da história
  • Visual e caracterização espetaculares
  • Aceitar e abraçar o lado mais cômico do personagem
  • Planos-sequência espetaculares

Contras

  • Carência de desenvolvimento do Arraia Negra
  • Falta de química entre Arthur e Mera
João Victor Albuquerque

Formado em Sistemas de Informação, que no final da faculdade resolveu se meter nesse mundo do jornalismo. Apaixonado por joguinhos, filmes e sempre atrasado com as séries. O segundo Blizzardboy do Critical Hits.

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