O Arquivo X manteve uma contradição sobre Scully por 218 episódios que quase ninguém percebeu

O Arquivo X construiu sua identidade a partir do contraste entre Fox Mulder, disposto a acreditar em qualquer fenômeno, e Dana Scully, uma médica e agente do FBI guiada pelo método científico. O problema é que, ao longo de 218 episódios, a série continuou tratando Scully como uma cética mesmo depois de ela testemunhar provas suficientes para mudar de posição.

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Desde o episódio piloto, a dinâmica fazia sentido. Scully foi designada para acompanhar Mulder e analisar seus casos com objetividade, além de tentar encontrar explicações racionais para os acontecimentos investigados nos Arquivos X. Mulder, por outro lado, era apresentado como um agente desacreditado, obcecado por alienígenas, conspirações governamentais e pelo desaparecimento de sua irmã.

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Nas primeiras temporadas, a série conseguiu preservar esse equilíbrio usando alguns artifícios. Muitas vezes, Scully chegava tarde demais para presenciar o fenômeno paranormal ou estava em outro cômodo quando algo inexplicável acontecia. Em outras ocasiões, as criaturas e eventos investigados ainda podiam ser associados a mutações, doenças ou fenômenos naturais incomuns. Assim, ela conseguia questionar os relatos de Mulder sem ignorar completamente as evidências.

Essa estratégia, porém, ficou cada vez mais difícil de sustentar. Scully presenciou fenômenos ligados ao vodu em “Fresh Bones”, viu objetos voando em “Syzygy” e participou diretamente de investigações envolvendo a conspiração governamental em episódios como “Gethsemane” e “The End”. A mitologia da série também confirmou a existência de alienígenas, fantasmas, poderes telecinéticos, vampiros e outras manifestações sobrenaturais.

A partir da terceira temporada, já era difícil acreditar que Scully ainda pudesse rejeitar integralmente as teorias de Mulder. O desaparecimento dele no fim da sétima temporada tornou essa contradição ainda mais evidente: depois de tantos acontecimentos, uma cientista comprometida com as evidências deveria aceitar que pelo menos parte do inexplicável era real.

A série manteve o impasse porque a relação entre os protagonistas era o centro de seu apelo. Transformar Scully em uma crente alteraria a fórmula responsável por boa parte do drama e do humor da produção. Como escolha narrativa, a decisão é compreensível; como desenvolvimento de personagem, continua sendo uma das maiores inconsistências de O Arquivo X.

Eric Arraché
Eric Arrachéhttps://criticalhits.com.br
Eric Arraché Gonçalves é o Fundador e Editor do Critical Hits. Desde pequeno sempre quis trabalhar numa revista sobre videogames. Conforme o tempo foi passando, resolveu atualizar esse sonho para um website e, após vencer alguns medos interiores, finalmente correu atrás do sonho.