A gamescom latam quer deixar de ser apenas uma grande feira de games no Brasil e se tornar uma plataforma permanente de negócios para a indústria internacional. Após registrar crescimento em suas três primeiras edições, o evento agora busca atrair publishers com mais antecedência, ampliar negociações e fortalecer a presença de desenvolvedores latino-americanos no mercado global.
A edição de 2026 recebeu mais de 154 mil visitantes, um aumento de 17,5% em relação ao ano anterior. Também reuniu 175 expositores de 23 países, mais de 700 estúdios e 1.100 empresas na área de negócios, representando 59 países. Para Ana de Wit, diretora executiva da gamescom latam, esses números mostram que o evento já alcançou escala, mas ainda precisa transformar audiência em influência comercial.
O objetivo é fazer com que a América Latina seja considerada nos calendários globais de marketing e lançamento das principais empresas de games. Isso envolve oferecer demonstrações antecipadas, anúncios e experiências capazes de competir pela atenção que normalmente se concentra em eventos dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia.
Publishers já negociam com mais antecedência
De acordo com Ana de Wit, a organização percebeu um aumento no interesse antecipado de publishers para a próxima edição. Algumas negociações para gamescom latam 2027 já avançaram e existem acordos assinados que ainda não podem ser divulgados por causa de compromissos de confidencialidade.
A movimentação não garante que a próxima edição terá grandes anúncios mundiais, mas indica uma mudança importante. A feira não precisa mais depender apenas do esforço dos organizadores para convencer as empresas a participar; algumas companhias já começaram a procurar o evento com antecedência.
O Countdown, programa de trailers exibido no primeiro dia, faz parte dessa estratégia. A atração passou a contar com três idiomas e vem sendo trabalhada como uma vitrine internacional para os jogos apresentados em São Paulo. Embora ainda esteja distante da escala da Opening Night Live da gamescom alemã, o formato ajuda a ampliar a repercussão do evento brasileiro.
PlayStation e Xbox continuam em negociação
A presença de grandes fabricantes de consoles é outro ponto importante para a expansão da gamescom latam. A Nintendo já participou de diferentes edições, enquanto PlayStation e Xbox ainda não tiveram uma presença de porte semelhante.
Ana confirmou que existem conversas com essas empresas, mas explicou que a participação depende de vários fatores, principalmente do calendário global de lançamentos e das prioridades de investimento de cada companhia. Até o momento, não há confirmação de que PlayStation ou Xbox estarão na edição de 2027.

A possibilidade de atrair essas marcas seria relevante não apenas pelo tamanho de seus públicos. A presença de fabricantes de consoles também ajudaria a aproximar consumidores, parceiros comerciais, criadores de conteúdo e outros profissionais da indústria.
Phantom Blade Zero virou exemplo do potencial brasileiro
Phantom Blade Zero foi um dos casos que ajudaram a demonstrar o valor de uma participação internacional no evento. O jogo da S-GAME ofereceu ao público brasileiro uma demonstração antecipada e ainda teve seu estande premiado durante a edição de 2026.
O reconhecimento teve impacto para a desenvolvedora e reforçou a ideia de que a gamescom latam pode servir para mais do que apresentar um produto. Uma publisher também pode usar a feira para construir relacionamento com a comunidade, gerar repercussão e conquistar espaço em um mercado distante de sua sede.
Expectativa de US$ 180 milhões ainda não mede contratos fechados
A área B2B é central para a ambição de longo prazo da gamescom latam. Em 2026, a organização divulgou uma expectativa de US$ 180 milhões em novos negócios associados ao evento, além de mais de 13 mil reuniões entre empresas, investidores, desenvolvedores e publishers.
Esse valor representa uma projeção de movimentação comercial, e não uma soma comprovadamente convertida em contratos. A própria organização reconhece que ainda não consegue medir publicamente quantos acordos foram efetivamente concluídos a partir dessas reuniões.
O motivo está no uso frequente de acordos de confidencialidade e no tempo necessário para que negociações de publicação, licenciamento, distribuição ou investimento sejam finalizadas. Ainda assim, já existem exemplos de negócios iniciados na feira, incluindo oportunidades ligadas a publicidade, produtos licenciados, tecnologia e conteúdo. Um caso citado envolve o licenciamento da franquia Time Crisis com a Casa do Videogame.

Uma plataforma ativa durante todo o ano
A principal mudança de posicionamento está na tentativa de fazer com que a marca continue relevante depois do encerramento da feira. A proposta é manter contato com publishers, divulgar projetos e conectar empresas ao ecossistema internacional da gamescom durante todo o ano.
Essa integração com operações da Alemanha e da Ásia pode diferenciar o evento de outras feiras brasileiras, que disputam principalmente a presença do público e das marcas durante alguns dias. A gamescom latam pretende usar sua rede global para transformar São Paulo em um ponto de conexão entre a indústria latino-americana e o mercado internacional.
Crescimento precisa preservar os desenvolvedores independentes
A expansão também traz o desafio de manter a identidade construída pelo BIG Festival, que se aproxima de 15 anos de história e ajudou a dar visibilidade aos desenvolvedores independentes. Com uma estrutura maior e mais empresas de grande porte, parte do público passou a questionar se os jogos independentes ainda recebem o mesmo destaque.
Ana reconhece que o tamanho do evento altera a circulação dos visitantes. Para compensar isso, a organização distribui jogos independentes por diferentes áreas, aproxima esses projetos de produções de maior orçamento e amplia sua presença em atividades com criadores de conteúdo.

A edição de 2027 acontecerá entre 22 e 25 de abril, no Distrito Anhembi, em São Paulo. O evento terá uma edição comemorativa de dez anos do Prêmio eSports Brasil, enquanto outras atrações e participações ainda estão em negociação.
O próximo passo da gamescom latam será provar que seus números podem gerar influência duradoura. A feira já conquistou público e escala; agora, precisa converter reuniões em contratos, atrair lançamentos relevantes e ampliar as oportunidades para estúdios da região. Se conseguir equilibrar essa ambição comercial com o apoio à cena independente, a transformação em plataforma global deixará de ser apenas um discurso e passará a ser seu principal diferencial.

