Os preços de memória RAM e armazenamento estão prestes a escapar de vez do alcance de quem monta PC, e os números do primeiro trimestre de 2026 explicam por quê: fabricantes taiwanesas de memória registraram lucros históricos impulsionados pela demanda de inteligência artificial, e o segundo trimestre promete ser ainda mais agressivo para o consumidor.
Segundo balanços divulgados pelo jornal taiwanês Commercial Times, a ADATA fechou o primeiro trimestre com lucro líquido de NT$ 9,53 bilhões, alta de mais de 17 vezes em relação ao mesmo período de 2025. A receita chegou a NT$ 26,1 bilhões (cerca de US$ 800 milhões), com crescimento de 163,4% na comparação anual e margem bruta de 55,69%. O lucro por ação atingiu NT$ 30,05, o maior da história dos 25 anos da companhia.
A ADATA não é caso isolado. Macronix, Apacer, Team Group e Nanya Technology também registraram trimestres recordes ou próximos disso. A Nanya, em particular, foi selecionada pela NVIDIA para fornecer memória LPDDR5X para a plataforma Vera Rubin. Já a Macronix ocupou a fatia de DRAM de baixo custo deixada pela Samsung, que migrou sua capacidade fabril para produtos de maior margem, como HBM e DRAM para servidores.
Por que os preços de RAM e armazenamento não vão cair tão cedo

A pressão sobre a oferta tem origem direta na corrida pela inteligência artificial generativa. Provedores de nuvem dos Estados Unidos estão fechando contratos de longo prazo para travar capacidade futura, especialmente em módulos de alta densidade usados em servidores de inferência. Essa fila preferencial empurra para o fim da prateleira os pedidos voltados a PCs, notebooks e celulares.
A consultoria TrendForce projeta alta de 58% a 63% em DRAM convencional no segundo trimestre de 2026 e de 70% a 75% em NAND Flash. A escassez, segundo a consultoria, deve persistir até pelo menos o fim de 2027, com expansão relevante de capacidade fabril prevista apenas para 2028.
O cenário ainda tem um agravante: a Samsung enfrenta uma paralisação de 18 dias em sua linha de produção, com estimativa de corte de até 4% da produção mundial de DRAM e NAND. Para se proteger do risco, a ADATA anunciou que está acumulando estoque de wafer NAND, com meta de chegar a NT$ 50 bilhões em junho.
No Brasil, o efeito já é visível. Módulos de DDR5 de 16 GB estão acima de R$ 900 nas grandes varejistas. Fabricantes de notebooks como Dell e Lenovo sinalizam reajustes de até 15%, e a IDC projeta alta de 4% a 8% no preço médio dos computadores ao longo de 2026.
A lógica do mercado atual é brutal: a ADATA não está vendendo mais memória, está vendendo a mesma memória por valores muito maiores. Cada data center de inteligência artificial inaugurado drena estoque global e torna mais difícil justificar o desvio de produção para o varejo. Quem precisa montar ou atualizar um PC em 2026 está, na prática, disputando o mesmo chip de silício com Google, OpenAI e AWS, e essa é uma briga que o consumidor comum não tem como vencer no curto prazo.


