O TikTok Live já detém 27% do mercado global de horas assistidas em livestreaming, contra 16,3% da Twitch, inversão que resume uma mudança estrutural no setor: as plataformas tradicionais perderam a capacidade de reter criadores e espectadores ao mesmo tempo. O mercado global de livestreaming, avaliado em US$ 87,55 bilhões em 2023, está projetado para atingir US$ 345,13 bilhões até 2030, crescimento anual médio de 23%, segundo dados compilados por especialistas do setor. Por trás desse crescimento está uma causa identificável: o volume de conteúdo sintético gerado por inteligência artificial tornou o ambiente digital menos confiável, e o ao vivo emergiu como o formato que a IA não consegue falsificar.
Deepfakes (vídeos ou imagens falsas geradas por IA), anúncios com rostos sintéticos e textos produzidos por algoritmos sem supervisão humana empurraram espectadores em direção oposta, para transmissões ao vivo que oferecem reação em tempo real, imprevisibilidade genuína e uma presença que não pode ser fabricada depois do fato. Pesquisa da empresa americana Clutch aponta que 97% dos consumidores afirmam que a autenticidade influencia suas decisões de compra, dado que explica por que marcas e plataformas estão migrando investimentos para o formato ao vivo. É nesse contexto que a KICK ganhou terreno no Brasil e no mundo: uma plataforma que chegou ao mercado com um modelo econômico diferente e uma proposta de experiência centrada em quem assiste, não em quem anuncia.
O modelo de repasse da KICK é o mais generoso da indústria: 95% da receita de assinaturas vai para o criador, contra os 50% praticados pela Twitch. Esse diferencial atraiu nomes globais como xQc (Félix Lengyel), um dos streamers mais assistidos do planeta, que descreveu a plataforma como um ambiente onde o criador é priorizado em vez dos anunciantes, e Adin Ross, que destacou a transparência das diretrizes e o suporte real como fatores decisivos na migração. No Brasil, o movimento mais emblemático foi a chegada de Alexandre Borba, o Gaules, maior criador de conteúdo de Counter-Strike do país e um dos mais assistidos do mundo. Após transmitir a FISSURE Playground com custos pagos pela plataforma, Gaules descreveu o que encontrou: “Fazia muito tempo que eu não me sentia em casa como me senti nesses dias aqui na Kick. Me deu muita interação com vocês. Consegui ler as mensagens do chat. O sistema funcionou de vocês não tomarem ad.” Para quem quer entender como transformar esse ambiente em fonte de renda, o guia completo sobre como ganhar dinheiro com streaming em 2026 detalha os requisitos do programa de parceiros da KICK e as principais estratégias de monetização disponíveis hoje.
A ausência de anúncios intrusivos é o ponto que Gaules retoma em diferentes momentos ao falar da plataforma. “Tivemos muitas plataformas que surgiram no mercado durante esses anos e quando me chamavam eu sempre falava que não faria sentido trocar por fazer bem para mim e não para quem assiste. Aqui eu sinto que, pela primeira vez em muito tempo, é bom para mim e para quem tá assistindo”, afirmou.
Essa percepção não é exclusiva do Brasil. O YouTube, plataforma com receita publicitária de US$ 36,1 bilhões em 2024, anunciou em 2026 uma mudança de política que pausa anúncios durante picos de engajamento em livestreams. A decisão foi descrita pelo CEO Neal Mohan como proteção da experiência do espectador: “Proteger a economia criadora é fundamental para tudo o que fazemos e é bom para os negócios, não apenas em engajamento, mas em dar a espectadores e anunciantes a confiança de que podem contar conosco para entregar conteúdo de qualidade”, escreveu em carta publicada no blog oficial da plataforma.
A movimentação do YouTube confirma o que a KICK já pratica: interrupções publicitárias nos momentos de maior engajamento custam audiência, e audiência perdida custa mais do que impressões publicitárias ganhas. Ashray Urs, analista da empresa de dados Streamlabs, descreve a vantagem estrutural do formato ao vivo nesse contexto: “Para streamers, autenticidade é estrutural. O conteúdo ao vivo oferece momentos que não podem ser falsificados, com reações genuínas e chats interativos que constroem comunidade em tempo real.” Tal argumento é reforçado pelos números: a live finale do MrBeast, competição entre 50 streamers populares, atingiu 1,1 milhão de espectadores simultâneos, número ainda distante do recorde individual de Ibai Llanos na Velada del Año, que superou 3 milhões de aparelhos conectados simultaneamente, um dos maiores picos já registrados por um streamer individual na história da plataforma, mas suficiente para ilustrar a escala que o formato ao vivo pode alcançar quando o conteúdo é genuíno.
No Brasil, Gaules levou esse argumento além da tela. Em abril de 2026, transmitiu ao vivo o Ultra Deathmatch, campeonato de Counter-Strike organizado pelo KaBuM! e pela Intel na loja física da Galeria Magalu, na Avenida Paulista, com exibição simultânea em diversos canais. O evento, assim, conectou a comunidade digital e a presença física num mesmo espaço, formato que o próprio KaBuM! descreveu como “extensão da experiência digital para o ambiente físico”. Em 2025, Gaules havia transmitido a final da Kings League com mais de 400 mil pessoas assistindo simultaneamente, número que posiciona o Brasil entre os maiores mercados de livestreaming do mundo: 25 milhões de espectadores ativos e US$ 223 milhões em receita anual, segundo dados da Newzoo.
O comportamento das marcas acompanha esse deslocamento. O IAB (Interactive Advertising Bureau, associação global do setor de publicidade digital) registrou que o investimento em criadores cresce quatro vezes mais rápido do que em outros formatos de mídia. “Parceiros de longo prazo e alto envolvimento criativo estão se tornando o padrão: onde criadores antes disputavam a atenção das marcas, agora são eles que têm a alavancagem criativa”, analisa Urs. A OpenAI, empresa líder em inteligência artificial, comprou recentemente a TBPN, operação descrita como movimento estratégico para conectar-se com audiências por meio de vozes em que elas já confiam, sinal de que mesmo o setor que alimenta a crise do conteúdo sintético reconhece o valor dos criadores com comunidades reais.
O paradoxo do momento é esse: a mesma IA que inunda as plataformas de conteúdo fabricado também empurra espectadores para o formato que ela não consegue replicar. Num ambiente onde é mais difícil distinguir o que é real e o que foi gerado por algoritmo, a câmera ligada, o chat aberto e a reação que não pode ser editada depois do fato viraram o ativo mais escasso do entretenimento digital.



