Não dá pra negar que a última década tem sido de grande importância para a indústria de games. Jogos em geral estão se tornando cada vez mais populares e o ato de jogar vídeo game já não é mais tido como coisa de criança como antigamente.

Com todas essas mudanças é natural que a forma de se pensar – e desenvolver jogos, mude também. Mas será que a indústria sabe o que nós queremos? As vezes sim, as vezes não. A Bethesda por exemplo parece ter tomado chá de buzina e não sabe mais pra que lado ir, já que todo lançamento da empresa divide completamente sua base de fãs, tal qual Moíses no Mar Vermelho. Uns se contentam com que tem sido lançado por ai, enquanto outro exaltam “os bons e velhos tempos” da desenvolvedora.

Mas e se os jogos de antigamente fossem lançados hoje em dia? Bem, foi exatamente isso que o pessoal da Obsidian tentou fazer lançado Outer Worlds, um game que, em poucas palvras, pode ser definido como: Fallout, só que com navinhas.

A Obsidian foi fundada em 2003, a partir das cinzas da Black Isle Studios, responsável por – quem diria: Fallout, Fallout 2 e Fallout: New Vegas. Sendo assim, não é de se estranhar que os alicerces da franquia estejam tão presentes em Outer Worlds, tanto pra bem, quanto pra mal.

Outer Worlds tenta apresentar um jogo com premissa simples e já conhecida, de maneira nova e contundente, misturando novos e antigos conceitos de jogos de RPG. Cabe ao jogador nesse caso, decidir se aprova ou não o resultado final.

O enredo do jogo é simples e familiar: você faz parte da tripulação de uma nave colonizadora que se perdeu por muitos anos no espaço. Após décadas de hibernação não programada, seu personagem é resgatado por um aliado de sanidade questionável, e a partir dai cabe à você… fazer as coisas do jeito que bem entender.

Isso não quer dizer que o jogo não te apresente objetivos – ele tem mais quests do que eu esperava, mas ao mesmo tempo lhe apresenta um senso de liberdade já não mais tão comum nos dias de hoje.

A liberdade a qual eu me refiro, não diz respeito a sair pelo mapa sem ter o que fazer, mas sim a forma como você decide abordar os desafios que lhe são propostos, tendo como base o tipo de personagem que você criou.

Ah, e a hibernação prolongada lhe deu a habilidade de desacelerar o tempo. Bem parecido com um certo V.A.T.S que já vimos por ai. Outras similaridades que o jogador poderá perceber logo no início da aventura são a grande quantidade de diálogos, a influência das suas habilidades em alguns aspectos da jogabilidade e claro, a presença de personagens marcantes e quests interessantes, porém sem sentido.

Espantosamente, o processo de criação de personagens é mais simples do que se esperava. Com um sistema de personalização bastante mediocre, Outer Worlds pode soar como um disparate para aqueles que dedicam boas e longas horas na criação meticulosa de seus protagonistas. No entanto, isso não é de todo ruim, já que o jogador quase não vê seu próprio personagem ao longo de todo game.

Já no que diz respeito as habilidades e a progressão de personagem, temos algumas novidades. Talvez a mais importante delas seja a separação das habilidades em categorias e a forma como a definição de algumas aptidões definirão a progressão do seu personagem. Sendo assim, as características do seu personagem não são totalmente dependentes das suas escolhas, mas uma consequência delas.

Existem diferenças significativas em outros aspectos do jogo também, como no mapa, por exemplo. Ao invés de um grande mundo aberto para exploração, Outer Worlds divide-se em – advinha! – “mundos”. Cada planeta, estação espacial, lua e etc., apresenta uma região única (e não tão grande), mas ainda assim cada mapa possui elementos únicos que atiçam a fome de exploração de quem aprecia esse tipo de gameplay.

Mas ainda que a exploração tenha sido privilegiada com alguns pontos específicos no mapa, é difícil não questionar o sentido de perder tempo indo pelo caminho mais longo. Os mapas menores e coesos atendem às necessidades do jogo e das quests, mas ainda assim é difícil não deixar de pensar que não existem grandes surpresas a sua espera ou recompensas incomuns aguardando para serem encontradas em caminhos pouco utilizados.

Os equipamentos possuem um sistema de aprimoramento estranhamente parecido com Fallout 4, mas diferente ao mesmo tempo. Pra melhorar uma arma ou armadura, o jogador precisa ir até uma bancada e utilizar materiais específicos ou dinheiro pra “subir o nível do item”. A parte boa dessa história toda é que se você gostar do seu equipamento inicial é possível terminar o jogo com ele, mas não espere por algo muito elaborado ou sistema de crafting.

Por fim temos o combate, que é satisfatório, mas nada demais. Por mais estranho que seja falar isso de um jogo FPS, Outer Worlds apresenta um sitema de combate surpreendetemente simples – e com simples, não quero dizer ruim. Apesar de se interessante sair trocando tiros por ai, a IA do jogo parece meio perdida em alguns momentos, tornando o embate enfadonho e monótono. Novamente reitero que não considero-o ruim, só não tão aprimorado como eu esperava tendo como base alguns jogos do gênero da última década.

Mas a parte boa dessa simplicidade é a possibilidade de alternar entre seus estilos de combate com facilidade. O corpo a corpo é realmente interessante para um jogo que se passa no espaço, e as armas também são muito legais. Me senti plenamente realizado ao agredir meus inimigos com um bastão plasmático, realmente uma sensação única.

Minha principal crítica é a “esquizofrenia” dos sistemas de furtividade. Logo no início da campanha Outer Worlds mostra como é possível se esconder dos inimigos utilizando gramas altas e cantos – o que me fez pensar imediatamente que meu estilo preferido de jogo seria privilegiado. Ledo engano.

Manter-se escondido na esperança de causar mais dano aos inimigos é uma verdadeira decepção. Por mais que um tiro de surpresa cause mais dano, dificilmente ele acaba com a vida de um inimigo de primeira e pra pior tudo ainda chama atenção de todo mundo – mesmo com silenciadores, em alguns casos. Dessa forma uma abordagem furtiva se torna pouco vantajosa, a não ser que você invista pesado nesses atributos logo no início do jogo e use o sistema de desaceleração para ter maiores vantagens.

No fim das contas Outer Worlds é um bom jogo, mas não me surpreendeu tanto quanto esperava. Confesso que me deixei levar pelo hype e já o tinha como candidato para Jogo do Ano, mas acabei tendo uma experiência no máximo satisfatória.

Pra um jogo de RPG, Outer Worlds é mais do que bom. Decisões com peso e relevância – além dos diálogos bem estruturados e personagens coesos, fazem você sentir como se tivesse o poder de decisão sobre o destino de todo mundo. Mas a falta de “graça” na exploração e no combate me fizeram perder o interesse rapidamente, justamente por passar a impressão de algo “batido” e não muito inovador.

Por isso fica difícil dizer até que ponto insistir naquilo que já é conhecido vale a pena. Para alguns, a experiência nostálgica dos bons tempos de Fallout aliada à novidades interessantes no gameplay fazem de The Outer World um título quase que obrigatório. Já para este que vos escreve, o veredito final sobre o game é que ele diverte, tem seu valor, mas não é tudo aquilo que imaginava.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC comprada pelo analisador.

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