Iniciada pela Nihon Falcon há mais de 20 anos, a série The Legend of Heroes é daquelas que recompensam muito quem investe nela, mas afastam quem não está disposto a dedicar centenas de horas em sua longa história. Isso é explicado pelo fato de que ela, até o momento, tem 16 capítulos disponíveis — e todos eles são interconectados.
Assim, quem decidir encarar Trails Beyond the Horizon vai se deparar com uma narrativa que não somente começou há tempos, como tem todo um elenco com relações muito antigas entre si. E, apesar de trazer alguns resumos e explicações, o título deixa a sensação de que você é alguém de “fora do rolê” caso decida começar a série a partir dele.
Mas será que todo esse peso prejudica o RPG, ou é algo com que é possível lidar com certa facilidade? Tentamos responder essa e outras perguntas importantes sobre o capítulo mais recente da franquia em nosso review de sua versão lançada para o PlayStation 5.
The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon é a culminação de 20 anos de história

Situado logo após os eventos de Trails Through Daybreak 1 e 2, o novo RPG da série nos leva para a República de Calvard, que acaba de alcançar um avanço tecnológico revolucionário. Em um mundo repleto de robôs gigantes, androides e demônios, o local está se preparando para ser o primeiro a enviar um humano para o espaço.
Esse grande avanço chama a atenção de todo o mundo, especialmente dos países vizinhos e grupos criminosos que buscam se beneficiar da situação. No universo de The Legend of Heroes, a diplomacia internacional é marcada pelas incertezas, invasões e revoluções e, justamente por isso, qualquer grande avanço tecnológico é visto como um perigo em potencial.
Nesse contexto, assumimos o papel de Van Arkride, o protagonista de Trails Through Daybreak e sua sequência. Como uma espécie de mercenário e caçador de recompensas, ele vê um aumento de demanda por seus negócios graças à grande atenção que Calvard vem recebendo.
Ele também está relacionado aos acontecimentos gerais graças a uma grande profecia que prenuncia o fim do mundo. Assim, além de ter que lidar com vários acontecimentos políticos, atividades criminosas e interesses corporativos, o protagonista também tem que encarar segredos do passado e os resquícios da entidade demoníaca que vivia em seu interior.

Para tornar Trails Beyond the Horizon ainda mais denso, a Nihon Falcon apresenta a história sob os pontos de vista de Rean Schwarzer e Kevin Graham, outros velhos conhecidos da série. Cada um tem sua narrativa própria, sendo que as três culminam em um grande encontro final bastante recompensador para quem está atualizado na franquia.
Essa estrutura faz com que o RPG se mostre uma experiência bastante densa e repleta de easter eggs e referências ao passado. E, justamente por isso, ele pode ficar um tanto cansativo e perder um pouco de ritmo. A parte inicial é a mais problemática, com as primeiras horas sendo dedicadas a representar personagens e a lembrar conexões anteriores.
Mais para frente, é um pouco decepcionante chegar a um ponto importante da trama, somente para ter que retroceder um pouco e jogar com os outros dois protagonistas. No entanto, esses tropeços são compensados por uma narrativa interessante e que realmente respeita o que veio no passado — algo complicado para uma série com um elenco tão grandioso, e justamente por isso o estúdio merece elogios. Em compensação, faltou uma tradução para o português, que permitiria um público mais amplo acompanhar a narrativa
O auge do gameplay da série

Assim como o remake do primeiro Trails in the Sky, Trails Beyond the Horizon aposta em um sistema de combates misto. Ao mesmo tempo que é possível encarar a maior parte da aventura usando um sistema em tempo real, também há como transformar encontros em batalhas por turnos, que oferecem características mais estratégicas.
Essa mistura funciona muito bem, especialmente pelo fato de que é possível ‘mesclar’ as opções. Algo comum, por exemplo, é usar os sistemas em tempo real para se livrar de mobs mais fracos e deixar um inimigo mais forte atordoado, antes de terminar o trabalho usando o sistema mais tático.
Ajuda muito o fato de que, independentemente de qual for sua preferência, o RPG tem várias mecânicas que vão se abrindo em ritmo constante. Entre transformações dinâmicas de personagens, recursos para desacelerar o tempo e ataques conjuntos entre heróis, o game não cai na repetição em nenhum momento.
O único defeito é resultado de uma tradição da série, que nem sempre lida bem com sua evolução de dificuldade. Na prática, isso faz com que muitas das criaturas normais sejam relativamente fáceis, enquanto os chefes são exageradamente resistentes. Assim, muitas batalhas contra eles não se tornam difíceis, mas sim exercícios de paciência conforme você diminui suas barras de vida em dezenas de turnos.
The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon vale a pena?

Mesmo sendo imperfeito em vários pontos, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon cumpre bem sua missão de ser ao mesmo tempo uma conclusão e um novo início da série. Quem a acompanha há mais de 20 anos vai ficar muito feliz com o desenvolvimento de seus personagens, bem como com as escolhas narrativas e reviravoltas preparadas pela Nihon Falcon.
Ao mesmo tempo, esse é um game que definitivamente não é para novatos, e quem decidir começar a série por ele vai se sentir como um estranho em meio a uma grande festa onde todas as demais pessoas se conhecem bem. Caso você se encaixe nesse perfil, vale mais a pena dar uma chance para o remake de Trails in the Sky para depois disso buscar pelos capítulos mais antigos da franquia.
Resumo para Preguiçosos
The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon é o ponto culminante da série, que traz uma narrativa densa de acontecimentos e personagens importantes. O investimento para aproveitar o jogo ao máximo é grande, mas compensa os tropeços em seu ritmo e a falta de uma tradução para o português brasileiro.
Prós
- Uma grande conclusão para histórias há anos em desenvolvimento
- O retorno de alguns dos personagens mais carismáticos da série
- Um dos sistemas de gameplays mais dinâmicos, divertidos e complexos dos RPGs
Contras
- Falta uma tradução para português brasileiro
- Chefes que são verdadeiras ‘esponjas de dano’
- O ritmo da narrativa sofre com a alternância entre protagonistas

