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The Batman – Crítica

Batman sempre bebeu do horror, enquanto suas aventuras mantinham a pegada noir. Tais elementos, nunca oferecidos antes nos cinemas, apresentaram-se como possibilidades reais nos trailers, o que me fez acreditar que receberíamos o filme que sempre esperei. The Batman não enganou seu público. 

O longa de Matt Reeves é robusto, intimidador e genialmente pessoal, mostrando uma jornada muito íntima de Bruce/Batman. Em um gênero já batido, The Batman chega para mostrar que é possível fazer de maneira diferente. Apontando novos caminhos, o filme explora outras possibilidades no gênero de heróis, aproveitando-se de diferentes gêneros e subgêneros para entregar a história mais madura e satisfatória do personagem.

20 minutos de puro ouro e horror

Matt Reeves faz questão de estabelecer sua visão desde o início. The Batman conta com entre 15 a 20 minutos iniciais que são os melhores da história do personagem nas telonas. Abraçando o fato de já sabermos a origem do encapuzado, o diretor opta por ignorar uma narrativa que conte o começo da jornada, mas escolhe estabelecer sua versão de maneira sublime.

Em uma Gotham intimidadora e visceral, com tomadas que expõem um lado cru e muito próprio da cidade, o Batman de Robert Pattinson se apresenta ao público, em seu segundo ano nas noites. Uma animal noturno, como se auto intitula, Batman carrega consigo os horrores da noite e o medo que o acompanha nas HQs, com isso ficando evidenciado na face de criminosos que temem a escuridão sabendo o que pode vir dela.

É criada grande expectativa para a primeira aparição do morcego, trajado, uma vez que os olhares dos criminosos não o revelam nas sombras, ainda que apenas imaginar sua presença ali faça com que desistam de seus atos criminosos. Enquanto o bat-sinal, soberano e absoluto, ilumina o céu de uma noite chuvosa, o personagem segue em seu discurso de preparação para a jornada que seguirá após isso. Enfim, quando o justiceiro de Gotham se revela, há muita violência e brutalidade culminando a introdução da mais nova versão do personagem. 

Esse não é um filme de heróis nos moldes mais comuns. Esse não é o Batman que você viu anteriormente. Há algo muito mais sinistro aqui, muito mais cativante também. O medo é mesmo sua ferramenta, e o horror, inclusive interno, o acompanha de mãos dadas.

A pocilga que chamamos de cidade e o maior detetive do mundo

Com muito foco em concreto banhado pela chuva, vidraças e ruas escuras nessa selva chamada de Gotham City, Matt Reeves apresenta a versão mais íntima e crua do “lar do morcego”. Gótica, mas também atual, contando inclusive com boas doses de neon, Gotham é um reflexo do que há nas suas entranhas, nas suas ruas, becos e boates. Ao mesmo tempo em que se mostra grandiosa, capaz de entregar beleza, sendo um lugar que pode encontrar esperança na cruzada de seu protetor silencioso, Gotham também deixa exposto algo muito rústico que transmite certa sensação de abandono, algo justo para uma cidade corrompida de dentro para fora.

Com grande foco na escuridão, o diretor utiliza a cidade como personagem importante do filme. Gotham e Batman se encaixam, como nunca antes nos cinemas, enquanto a imponência um tanto perversa e desconfortante da cidade é um dos pilares para manter viva a constante sensação de horror em cada cena desse thriller de ação.

É também Gotham, ao se apresentar visualmente tão cruel e injusta, que prepara terreno para que os fãs encontrem uma trama em que todos os personagens tem seus lados mais sombrios e sujos, ainda que uns muito mais do que outros. A pocilga que Gotham se tornou, que é aquilo que o Charada deseja mostrar, é o palco ideal para que figuras como Carmine Falcone, Pinguim, políticos corruptos e policiais corrompidos desfilem livremente, enquanto tentam esconder, ou não, sua podridão. Em um ambiente onde há muito mais por baixo dos panos, com problemas profundos escondidos da sociedade, Reeves utiliza muito bem a galeria de vilões do herói para oferecer um filme de detetive muito maduro.

A máfia de Gotham é um grande acerto

Se aproveitando, de maneira também sublime, da pegada mafiosa de Gotham, o diretor encontra nesse quesito uma das bases de seu enredo. Se Batman é um detetive, ele precisa estar em um caso que deixe evidente suas habilidades. Felizmente, aqui o morcego mostra essa sua face pela primeira vez no cinema. Sim, ele conta com equipamentos, uma das marcas registradas, que ajudam muito em sua busca por respostas, mas o Batman de Robert Pattinson também demonstra sua incrível facilidade em desvendar mistérios apenas com seu raciocínio, ainda que por vezes dúvidas e falhas o tornem extremamente humanizado. Aqui temos o maior detetive do mundo, com Reeves permitindo se deixar levar por alguns exageros para oferecer ao público esse lado do personagem.

Enquanto descobre verdades há muito escondidas e desvenda todos os caminhos da podridão de Gotham, Batman protagoniza um filme investigativo que contém muito de grandes longas como Seven e Zodíaco, confirmando assim as inspirações citadas pelo diretor. Entre essa e outras características, The Batman estabelece que é possível fazer cinema de maneira diferenciada no gênero de heróis. Com cenas em que Batman e Gordon formam uma dupla de muita dinâmica, o filme tem muito da pegada policial, aproveitando-se da inteligência do herói para entregar cenas com diálogos bem escritos durante a solução de enigmas e problemas impostos pelo grande vilão, que é estupendo.

Reeves sabe usar o que tem

Reeves brilha também ao saber exatamente como utilizar o que tem em mãos. Se Gotham aqui é um personagem que fala muito sobre o enredo e a mitologia do morcego, os outros nomes da trama não se afastam de receber tal importância. O que vemos em The Batman é a melhor utilização de todos esses personagens no cinema. Não apenas o vigilante de Gotham aparece em sua versão definitiva, mas todos em sua volta também.

Ainda que certos personagens tenham menos tempo de tela do que o esperado, e outros mais, todos contam com no mínimo um momento que seja de extrema importância para a trama de forma geral ou para o desenvolvimento de Batman/Bruce. Esses momentos variam entre diálogos complexos, ações de extrema importância ou até mesmo poucas palavras, e também silêncio, com tudo formando um grande conjunto de situações que entregam o melhor desenvolvimento de Bruce Wayne nas telonas. Falando em excelente desenvolvimento do herói, aqui temos a versão definitiva do morcego, com um excelente Robert Pattinson entregando muitas camadas para o personagem.

Batman é realmente um cavaleiro das trevas, um cruzado que tem a busca por justiça como sua única ambição. Como Batman, Pattinson entrega um herói silencioso, imponente e muito recluso, mas que, com olhares sutis para aqueles em sua volta, demonstra de alguma maneira que deseja perceber suas reações, assim estabelecendo uma sensação real de interação. Já como Bruce o ator oferece a versão mais fragilizada do personagem, na questão psicológica, pois o que vemos é um homem que claramente passa por uma luta interminável contra seus próprios demônios e medos internos.

O mito e sua humanidade

Além disso, o Batman nunca parece uma figura igual aos que estão à sua volta. A forma como o herói é apresentado em tela, a estrutura de suas cenas e a maneira como a câmera o entrega o transformam em um mito entre homens comuns. O morcego é algo mais sinistro e imponente do que qualquer um poderia ser. A mensagem é direta. Uma figura estranha que não se mistura com o mundo em sua volta, e talvez por isso nunca se corrompa.

Porém, apesar da aparência e postura aterrorizante, Batman/Bruce nunca foi tão humano. Comete falhas, erra e deixa suas dores expostas, ainda que por trás de uma tentativa de proteger-se com a armadura de poucas palavras. Com um Batman definitivo, Reeves ainda sabe desenvolver a relação do herói com os outros personagens, principalmente com Selina Kyle. O encapuzado e a gata compartilham preocupação mútua, que se torna mais forte a cada instante após uma ligação satisfatória em termos de enredo. É um relacionamento maduro, assim como tudo no filme, que deixa exposta a barreira criada pela realidade de cada um, o que permite cenas tocantes e profundas.

Com tantos personagens, principalmente vilões, era possível temer uma trama um tanto perdida, com potencial desperdiçado. Porém, a genialidade do diretor lhe permite tirar o máximo da mitologia e dos inimigos do morcego, enquanto tudo é cativantemente compatível com a visão que é oferecida nesse filme. Um nome liga ao outro, os muitos caminhos levam a um único destino: o final impactante. Carmine Falcone rouba a cena em atuação magistral de John Turturro, Colin Farrel é um Pinguim com jeitão de mafioso italiano fanfarrão – mas extremamente perigoso – e o Charada é a principal peça desse quebra-cabeças.

O vilão dita o ritmo

Se nos 20 minutos iniciais de The Batman Matt Reeves já deixa evidente que entende do personagem e possui uma visão definida para o mesmo, tal sensação se torna cada vez mais forte na medida em que o filme se aproxima do final. Batman tem um código, ele sempre teve, e tal código é adaptado da maneira mais eficiente e emocionante que já vimos. Entre medos e traumas, o herói tenta descobrir o que é, mas se mantém como a luz que pode salvar Gotham da escuridão.

Em uma releitura do Charada, Reeves define o vilão dos enigmas como o grande pilar de sua trama. É ele quem dita o ritmo do filme, é ele quem guia o Batman nesse jogo de gato e rato. Deixando de lado as cores verdes chamativas e tornando-se um serial killer, muito atual por sinal, o Charada é representado aqui de maneira tão profunda quanto o herói. Se sua loucura pode parecer apenas pura insanidade para expor o que há de pior em Gotham, Reeves sabe revelar aos poucos os caminhos que tornaram o personagem uma figura tão perturbada.

Se Gotham é cruel, o Charada é ainda mais. O diretor não foge de expor ideias políticas e sua visão geral sobre muitos assuntos, assim como não tenta escapar de alguns clichês e nem sequer evita oferecer ao vilão uma justificativa que, muito lá no fundo, tem certo senso de “justiça”, afinal, se o mundo é tão terrível alguém deve fazer algo, não é?

O herói que amamos

Com um extremamente inspirado Paul Dano, a transformação de Charada em uma figura sinistra é certeira. Seu rosto demora para ser revelado, suas primeiras aparições servem como um aviso de sua descontrolada, porém cautelosa, determinação para concretizar o plano de sua vida. Tudo é culminado quando vemos o lado “humano” do personagem, em uma cena que não apenas revela suas verdades internas, mas também muitas do herói. Em um momento quase poético, Reeves expõe o contraste entre o cruzado heroico e o monstro que o desafiou. 

Mas, se o Charada possui motivações, que não justificam seus atos, Reeves faz questão de deixar evidente sua ideia de que o vigilante de Gotham é algo muito maior do que o cinema havia nos mostrado. Em uma jornada de duras verdades descobertas e amadurecimento do herói, o diretor entrega o cavaleiro de Gotham em toda sua essência. Da escuridão à luz. Nos braços de medos, dores e horror, surge esperança em sua forma mais intimidadora. Sempre há espaço para justiça, ainda que ela possa parecer aterrorizante.

The Batman carrega a mensagem de que o morcego é o herói que Gotham precisa, de maneira mais profunda do que Nolan fez, sem sequer precisar de alguém realmente utilizando a frase em uma cena de impacto. Mostrando que é possível apresentar novos caminhos para o cinema de heróis, o filme é um sopro de criatividade e inovação. The Batman também conta com muita ação, extremamente visceral por sinal, e sequências de tirar o fôlego que são dignas de aplausos, mas entre tais momentos o diretor deixa o grande destaque por conta do desenvolvimento da trama e personagens. Existem problemas, muito pequenos na verdade, como uma repetição exagerada de cenários, mas isso não é o suficiente para que o filme perca sua grandiosidade ou nota. Uma obra prima de Matt Reeves.

 

Resumo para os preguiçosos

The Batman é cinema. O filme mostra que existem outros caminhos para o gênero de heróis, misturando elementos variados e entregando uma jornada robusta. Com ótima utilização de todos os personagens que aparecem por aqui, Matt Reeves dá aula de direção em diversos aspectos.

Bebendo do horror e utilizando uma Gotham visceral como um de seus grandes pilares, o diretor apresenta a versão mais humanizada do herói. Um brilhante Robert Pattinson oferece diferentes camadas para Bruce, enquanto é acompanhado de maneira sublime por seus colegas de elenco.

O Charada de Paul Dano, em uma releitura do personagem, dita o ritmo desse thriller de ação que também tem muito de horror. Deixando concreta sua visão do cavaleiro das trevas, Matt Reeves entrega a essência do personagem ao fazer cinema da melhor qualidade. Pequenos problemas existem, mas não são o suficiente para tirar a grandiosidade máxima do longa.

 

Nota final

100
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Prós

  • Mostra que é possível fazer cinema de heróis de outras maneiras
  • Entrega a versão definitiva de Batman/Bruce
  • Excelente utilização de personagens
  • Gotham funciona perfeitamente como um dos grandes pilares da trama
  • Se aproveita muito bem de variados gêneros e subgêneros
  • Enredo robusto e muito bem fechado

Contras

  • Repetição um pouco exagerada de ambientes
  • Alguns personagens poderiam ter mais tempo de tela
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