Mortal Kombat (2021) – Crítica

Eu tinha apagado completamente da memória que um filme novo baseado na franquia de jogos Mortal Kombat estava em produção. Até, claro, quando o trailer saiu e explodiu a cabeça de todo mundo. A maldição de filmes ruins de videogame estava cada vez mais fraca e o promissor trailer parecia demonstrar que ela seria eliminada de vez.

Infelizmente, não foi o que aconteceu.

ATENÇÃO: REVIEW COM VÁRIOS SPOILERS(MAS NÃO TODOS)!

Esse é um review longo, que aborda o filme de maneira integral. Se você quiser o tl:dr, pule para o final.

Não há dúvidas que esse é o filme mais bem produzido entre os três. E ele é claramente muito melhor de assistir do que a aberração cinematográfica que foi Mortal Kombat: Aniquilação (1997).

Mas muito pior do que ser um filme ruim, Mortal Kombat (2021) promete ser um filme bom… E até entrega várias coisas legais, tanto para fãs da franquia quanto para fãs de bons filmes, mas, no final das contas, ele é apenas uma nova decepção.

O trailer é cativante por um motivo: ele tem todas as melhores partes do filme. Nesse sentido, o trailer é até que bem honesto.

Mas praticamente tudo que não apareceu no trailer é digno de filme do Power Rangers. E nem é do novo que estou falando. E, por causa disso, é possível sair do filme com uma sensação de ter sido tapeado.

As ideias que o filme tem para a grandiosa (e deliciosamente absurda) mitologia de Mortal Kombat são, em sua maioria, ótimas. Mas a execução chega a ser triste de tão ruim em alguns pontos.

O filme começa com a cena liberada que conta sobre a origem de Scorpion (Hiroyuki Sanada) e sua batalha contra Sub-Zero (Joe Taslim) séculos atrás. Como estava no trailer, esse momento é absolutamente excelente.

E o início de um padrão: tudo que envolve os rivais é praticamente perfeito. A história, as lutas, os figurinos, as ideias… Tudo que envolve os ninjas amarelo e azul é excelente.

Mas o filme não é sobre eles, afinal. É sobre um novo personagem, criado exclusivamente para o filme.

Cole Young (Lewis Tan) é um lutador de MMA que chegou a derrotar grandes campeões, mas cujo estilo de luta agressivo e violento se tornou uma fraqueza nos últimos anos.

Após perder uma de suas lutas, ele é abordado por Jax Briggs (Mehcad Brooks), que comenta sobre uma “tatuagem” que Cole tem no peito — um dragão no símbolo do jogo.

Então aprendemos que é uma marca de nascença de Cole, o que mais tarde descobrimos ser único do protagonista.

Essa marca é, na verdade, um símbolo dos escolhidos para lutar no torneio Mortal Kombat. Ela passa de uma pessoa para outra, quando o primeiro ela morre em Kombate e Jax também tem.

Mas Cole tem essa marca desde que nasceu. Isso é por que ele é descendente de um Kombatente que morreu pelas mãos de outro Kombatente… Então a marca passou para ele, ao invés do assassino ficar com duas marcas, ou algo do gênero.

Inicialmente, Cole não dá nenhuma atenção para Jax, mas quando Sub-Zero aparece do nada na cidade para atacá-lo, colocando em risco também sua família, ele não tem opção senão se envolver na história.

Jax fica para trás para enfrentar Sub-Zero, enquanto Cole foge para se encontrar com Sonya Blade.

As cenas de Jax vs Sub-Zero estão no trailer. E envolvem, claro, o ninja azul. Assim sendo, seguem o padrão de cenas excelentes e que vão te deixar ainda mais empolgado para o filme.

Cole finalmente encontra-se com Sonya, que explica um pouco da história do Torneio Mortal Kombat — o pouco que ela sabe — e também se encontra com o melhor personagem do filme, Kano(Josh Lawson).

Josh Lawson deve ter se divertido muito interpretando um lendário traficante líder de uma organização criminosa mundial que se comunica apenas através de referências à cultura pop.

Ele não para de falar por um segundo, mas quase todas as piadas encaixam e os diálogos parecem ter sido escritos num bom dia dos roteiristas de Deadpool.

Não só Kano é uma das melhores partes do filme, ele carrega quase sozinho as piores partes… Ironicamente, ele tem a pior conclusão de personagem do filme. Uma injustiça sem tamanho.

Eis que o trio é atacado por um reptiliano (que eu espero não ser o único Reptile da franquia), que é morto por Kano. O combate entre eles está no trailer e é também bom, mas o filme começa a dar os primeiros sinais de que vai começar a desandar.

E desandar ele começa, quando finalmente somos introduzidos ao restante dos personagens. Cole, Sonya e Kano procuram o templo de Raiden no deserto, sendo encontrados por Liu Kang(Ludi Lin).

O personagem de Liu Kang vai certamente dividir opiniões, entre os fãs, visto que é um dos que mais sofreu modificações.

O Liu Kang do filme é interpretado mais como um monge dedicado ao Lorde Raiden do que sua forma mais independente dos jogos e dos filmes dos anos 90.

Sendo um órfão acolhido pelo templo da Lótus Branca, ele demonstra ser um devoto fervoroso e que deseja se provar, uma vez que ele não se considera tão importante como Kung Lao, descendente do Grande Kung Lao e último vencedor de Earthrrealm de Mortal Kombat.

Eu gostei mais da ideia do que da execução, que tirou todo o protagonismo do personagem durante o filme, mas deu uma personalidade muito distinta e coerente. Os fãs mais puristas não vão gostar.

A ideia nova para Liu Kang é a última coisa boa do filme por um bom tempo. Somos finalmente apresentados ao Lorde Raiden (Tadanobu Asano)… Cuja atuação me fez sentir saudades de Christopher Lambert no papel.

Para ser honesto, o problema do personagem de Raiden pareceu ser mais da direção de Simon McQuoid e do roteiro de Greg Russo e Dave Callaham.

Digo isso porque quase tudo que vem depois dessa primeira metade do filme é ladeira abaixo. O roteiro, os diálogos e as cenas, que até então tinham um ritmo interessante e até bom demais para ser verdade, caem drasticamente de qualidade.

Lorde Raiden explica para os novatos que o Torneio Mortal Kombat é a única coisa impedindo que Outworld invada e anexe Earthrrealm.

Porém o Torneio parece ter o mesmo zelo com regras que o Campeonato Carioca, já que os lutadores de Outworld, comandados por Shang Tsung (Chin Han) estão caçando os escolhidos da Terra antes mesmo do torneio começar, como vimos Sub-Zero com Cole no começo da película.

Nesse momento descobrimos que Outworld precisa vencer 10 torneios seguidos para poder invadir a Terra sem a intervenção dos Deuses Anciões (dos quais Lorde Raiden é um, sendo também protetor da Terra). E que esse próximo Torneio é justamente o décimo e último que os vilões precisam vencer.

Os novatos com a marca do dragão teriam apenas um mês para treinar para o Torneio.

Um outro novo conceito original do filme é apresentado: arcana. Os lutadores com a marca do dragão podem “despertar” um poder oculto que se manifesta de maneira diferente para cada um.

É a razão por trás dos poderes de fogo de Liu Kang e dos portais que Kung Lao consegue abrir. E, para ser honesto, é mais um conceito interessante e que justifica algumas coisas fantásticas da série.

Mas, de novo, o filme peca violentamente na execução.

Porque os poderes ganhos pelo despertar da energia arcana não se limitam a manipulação de coisas naturais… Kano, por exemplo, ao ser provado ao extremo por Kung Lao e Liu Kang, desenvolve o olho biônico que dispara lasers.

Pior. Essa é a mesma “justificativa” para os braços cibernéticos de Jax! De alguma forma, a energia arcana do lutador Mortal Kombat criou um implante robótico para recuperar os braços que foram destruídos por Sub-Zero.

Durante o treinamento, Shang Tsung e seus asseclas tentam invadir o templo de Raiden para acabar com o torneio antes dele começar. Raiden inicialmente consegue impedir que isso aconteça ao criar uma barreira de energia, mas Kano traí a equipe e fica do lado do mal após ser convencido por Kabal em uma conversa de 5 minutos.

A porca torce o rabo, com os inexperientes lutadores da Terra tendo que enfrentar os poderosos lutadores de Outworld, que incluíam, para a minha surpresa, Reiko e Nitara.

Somente o mais fanático por Mortal Kombat reconheceram esses personagens pelo nome, já que eles apareceram em apenas dois dos trocentos jogos da série, com participações minúsculas.

Enquanto o figurino e efeitos visuais dos outros personagens são no mínimo aceitáveis, Nitara e Reiko parecem ser tirados do filme das Tartaruga Ninja dos anos 90 e ambos não tem mais do que duas falas no filme.

Isso porque são apenas buchas de canhão, estando lá apenas para receber os fatalities obrigatórios para o filme +18… Que apesar de muito bem feitos tecnicamente (em especial o que Nitara sofre, eu até me surpreendi com a violência surpresa), não tem absolutamente nenhum impacto na história.

E é nesse momento que o filme, que já estava bem abaixo do começo e do hype do trailer, sai de medíocre para decepção. Todas as cenas a partir desse momento parecem ter sido filmadas em dois dias, sem tempo para repetições para takes melhores. Algumas cenas chegam a perder o sentido, tamanha má execução na direção das cenas.

Goro é invocado por Shang-Tsung e sai para caçar Cole, que havia saído da bolha de proteção de Raiden por não conseguir despertar sua arcana a tempo.

Esse Goro, muito melhor que o Goro do filme de 95, tem uma rápida luta contra o protagonista e o vence com muita facilidade… Mas ao ameaçar a família de Cole, Goro acaba fazendo com que ele desperte seu poder especial: literalmente uma armadura de roteiro.

“Plot Armor” é o nome de um clichê de histórias, onde um personagem escapa ileso de situações claramente impossíveis apenas por ser um personagem importante.

O poder especial de Cole é criar uma armadura que absorver a energia dos golpes que ele recebe e que podem ser convertidas em energia cinética ou na criação de armas especiais que saem da armadura.

Com esse poder, ele rapidamente destrói Goro no x1 e é recebido de volta por Raiden para auxiliar no combate contra as forças de Shang-Tsung.

O filme passa a resolver os conflitos de forma desnecessariamente apressada, tirando o que restava da tensão dos eventos ao ponto de tirar quase todo o proveito das cenas. Em poucos minutos, Kung Lao tem a alma absorvida por Shang-Tsung, Raiden teleporta os lutadores da Terra um lugar entre os reinos para criar um plano, o plano dá praticamente todo certo e entramos nos últimos minutos de filme.

Quase no mesmo tempo que você levou para ler essa descrição.

Eis que apenas dois conflitos acabam restando: Sonya vs Kano e Cole vs Sub-Zero.

Sonya vs Kano é resolvido de maneira tão… Tão patética que é um desserviço. Tanto para o melhor personagem do filme, Kano, quanto para os efeitos visuais de lutas anteriores do filme, que pelo menos tiveram o cuidado de serem gore e lembrarem os momentos mais violentos dos jogos.

Já Cole vs Sub-Zero é uma brisa revigorante no final do filme, tão boa que salvaria o filme todo… Se já não tivéssemos visto as melhores partes no trailer.

Scorpion aparece pela primeira vez como o espírito vingador, conta com uma das melhores frases ditas na história do cinema mundial(sem nenhuma ironia) e tem uma luta incrível contra Sub-Zero.

E… o filme praticamente acaba.

Apesar de se chamar Mortal Kombat, o filme é apenas um prólogo do torneio, terminando com Cole recolhendo suas coisas na academia para ir para Holywood atrás de um outro escolhido (Johnny Cage).

Com boas ideias (quase todas vistas no trailer e no vídeo que soltaram dos 7 minutos iniciais) mas muito mal executado no segundo e terceiro ato, Mortal Kombat promete muito e entrega pouco.

As lutas são divertidas, apesar de serem um pouco lentas — vou elogiar o fato de não serem as lutas dos filmes modernos, cheias de cortes para cada movimento. São todas absolutamente legíveis e em nenhum momento você se perde. E alguns fatalities fazem jus aos jogos mais recentes da franquia, algo muito bom e que eu não tinha muitas esperanças de que aconteceria.

Noventa e nove por cento do conteúdo que envolve Scorpion e Sub-Zero é excelente. Assim como as cenas de Kano, que é a parte mais divertida do filme.

O restante parece que foi feito de maneira apressada e, muitas vezes, por diretores diferentes.

Apesar de ser muito melhor tecnicamente que o filme “original” , a versão Mortal Kombat 2021 não chega a ter a mesma grandeza — talvez por não abordar o Torneio Mortal Kombat, afinal.

O filme parece mais um ótimo trabalho feito por fãs do que uma produção hollywoodiana. Alguns momentos e cenas incríveis estão no meio de um filme medíocre e feito nas coxas, o que pode fazer com que você saia dele com um gosto ruim na boca. Um exemplo é o próprio protagonista, Cole Young. O ator tenta, a ideia de sua origem é interessante, mas a execução e o desenvolvimento personagem são desconjuntados e acabam sendo genéricos. Apesar de ter potencial, ele fica completamente desinteressante por tomar decisões que não fazem nenhum sentido, mas servem para passar o roteiro para a próxima parte.

Com pouco mais de 1h30 de duração ele é uma diversão rápida e honesta para os fãs da franquia, já que é recheado de fan service, mas não passa de medíocre para quem quer mais do que isso.

Não chega a ser perda de tempo assistir… Mas para quem esperava uma Flawless Victory, ele é uma decepção.

 

Mortal Kombat saiu nos cinemas no dia 18 de Abril e pode ser assistido, também, na HBO MAX.

Resumo para os preguiçosos

Com boas ideias mas muito mal executado no segundo e terceiro ato, Mortal Kombat promete muito e entrega pouco.

As lutas são (quase todas) divertidas e noventa e nove por cento do conteúdo que envolve Scorpion e Sub-Zero é excelente. O restante parece que foi feito de maneira apressada e, muitas vezes, até por diretores diferentes.

Os atores até tentam seu melhor. Hiroyuki Sanada está absolutamente impressionante como Scorpion, mas a direção é fraca demais para manter o nível.

Apesar de ser muito melhor tecnicamente que o filme “original” , a versão Mortal Kombat 2021 não chega a ter a mesma grandeza. É um filme que você vai esquecer na semana que vem.

Não chega a ser perda de tempo assistir… Mas para quem esperava uma Flawless Victory, ele é definitivamente uma decepção.

Nota final

60
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Prós

  • Algumas lutas bem divertidas;
  • Ideias originais interessantes;
  • Scorpion e Sub-Zero magníficos;
  • Hiroyuki Sanada esplendoroso como Scorpion;
  • I have risen from Hell to kill you“;
  • O Kano-Deadpool poderia ser uma catástrofe, mas deu certo;
  • Violência e fatalites que fazem jus a franquia;
  • Primeiro ato excelente;
  • Acaba rápido

 

Contras

  • Nem todas as lutas são boas;
  • As ideias são quase todas mal executadas;
  • Alguns personagens deram saudades dos filmes dos anos 90;
  • É apenas um prólogo ao torneio de verdade;
  • Novo personagem é desinteressante;
  • O fim que deram para Kano é patético;
  • Muito ruim do meio para frente;
  • Demora muito para “começar” antes de acabar rápido.
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