Heaven’s Hope – Review

Talorel era apenas um anjo comum até perder uma aposta, cair do céu, e acabar preso em um vilarejo inglês em pleno século 19. Com a ajuda de seus dois amigos (também anjos) e dos excêntricos habitantes do local, ele deve encontrar uma maneira de recuperar sua auréola e voltar para o céu, mas, antes, acaba se envolvendo em uma trama maluca que mistura amizade, confiança, exorcismo, e até a Inquisição.

Parece o plot de algum filme maluco da Sessão da Tarde, mas, na verdade, esta é a história de Heaven’s Hope, um adventure point and click lançado pelo estúdio alemão Mosaic’s Mask, que está disponível na Steam por R$ 39,99.

Heaven’s Hope segue a cartilha dos clássicos point and click, que viveram seu auge na década de 90 com a LucasArts, e que, hoje em dia, foram “modernizados” pela Telltale. A experiência é ancorada na história, mas com quebra-cabeças que complementam a jogabilidade e ajudam na progressão da narrativa.

O problema é que, apesar de ter sido lançado em 2016, Heaven’s Hope parece ser mais datado do que jogos como Full Throttle e Monkey Island. Os cenários ilustrados a mão, que eram para ser uma das principais atrações do game, ficaram muito esquisitos junto dos personagens em 3D. Eles não são feios, mas parecem estar meio borrados, sem foco, causando um incômodo e uma sensação estranha de que algo errado não está certo.

A animação dos personagens também não ajuda. Ela é limitada, e parece que possui menos quadros do que deveria. Algumas destas animações, como a do rato que Talorel salva e vira seu ajudante na aventura, dá um efeito de zoom na tela, aumentando ainda mais aquela “sensação esquisita” já mencionada. Em outros casos, as animações são muito mais longas do que deveriam, e não há uma maneira de cancelá-las ou pulá-las, o que atrapalha o ritmo do game.

Se no visual Heaven’s Hope deixa a desejar, ele compensa (um pouco) na dublagem. Ela é divertida, bem feita, e eu achei que às vozes ficaram adequadas às personagens. Talorel tem um jeito de falar mais infantil, pausado, colocando ênfase em cada palavra, o que tem muito a ver com a sua personalidade ingênua e bonachona, enquanto que seu amigo Azael tem uma voz mais forte, anasalada, que também combina com sua personalidade irônica e “ácida” (para um anjo).

A diversidade das personagens é bem interessante (para uma vila inglesa do século 19): há um ex-soldado beato irlandês, uma vendedora de tecidos chinesa com um sotaque carregado, um clássico “cientista maluco”, e até uma freira mal humorada, que restaura a Inquisição na vila e se torna a principal antagonista do game. Nenhum dos personagens, além de Talorel, é muito explorado na história, mas isso não chega a ser um problema: cada um tem sua função e utilidade bem definidas na campanha. O texto não é um dos mais brilhantes, e algumas reviravoltas podem ser facilmente antecipadas, mas as inúmeras e divertidas referências vão desde Monty Python até passagens da Bíblia.

As mecânicas básicas do jogo são fáceis de aprender, mesmo por alguém que não seja tão acostumado com jogos do tipo. Basta colocar o mouse sobre algum item para aparecem as opções de ação. Mas não existe um tutorial para saber de funções que se tornam essenciais durante a campanha, como apertar a barra de espaço para identificar quais áreas e objetos do cenário possuem interação. Eu só fui descobrir isso por “acidente”, já tendo passado de mais da metade do game.

A dificuldade dos puzzles varia bastante: enquanto a maioria é extremamente simples, alguns são confusos e injustamente difíceis. A resolução deles depende, basicamente, de coletar itens para serem utilizados diretamente ou combinados entre si antes, mas muitas destas combinações não são tão lógicas e diretas, o que acaba exigindo um cansativo método de tentativa e erro – ou, em casos extremos, pode te obrigar a buscar pela resolução na internet.

O jogo até oferece um sistema de ajuda na forma de conselhos dos dois anjos amigos de Talorel, mas, na maioria das vezes, estes conselhos são genéricos e não ajudam em nada – por exemplo, ao estar preso em uma sala com um quebra-cabeças, Azael simplesmente responde: “Você tem que encontrar um jeito de sair da sala”.

Outro ponto que deixa a desejar em Heaven’s Hope é a jogabilidade. O modo como ela é implementada no cenário 3D em uma visão 2D acaba ficando confusa e não muito precisa. Há momentos em que uma simples tarefa de mover o personagem sem pisar nas plataformas que ativa uma armadilha acaba sendo um martírio de tão frustrante, e nem sempre o game oferece a opção de pular estas situações.

No geral, mesmo com todos os problemas, Heaven’s Hope ainda é um jogo razoável. Muitos deles podem ser relevados pela progressão divertida e interessante da história, mas certamente podem atrapalhar bastante quem não é tão fã de jogos de clicar e apontar. Mesmo assim, ainda é uma boa pedida para quem deseja experimentar um game com temática religiosa, mas bem humorada e sem criar polêmicas forçadas. No entanto, eu recomendaria caso esteja em uma boa promoção ou faça parte de um bundle; pelo preço cheio, há opções melhores.

Resumo para os preguiçosos

Heaven’s Hope é um adventure point-and-click que até bebe da fonte de clássicos como Full Throttle e Monkey Island, mas não consegue manter uma boa consistência de jogabilidade e uma qualidade gráfica básica para os jogos atuais. Apesar da história ser divertida, misturando referências bíblicas e cultura pop, o jogo peca em coisas básicas, como uma jogabilidade pouco polida, quebra-cabeças que, quando não são muito simples, são difíceis demais, e um final decepcionante, que força uma possível sequência que parece estar longe de ser anunciada. Ainda assim, vale a pena para os curiosos, caso esteja com uma boa promoção ou faça parte de um bundle.

Nota final

50
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Prós

  • História interessante
  • Referências divertidas
  • Boa dublagem

Contras

  • Puzzles muito simples ou injustos demais
  • Cenários pintados à mão não combinam com a arte dos personagens
  • Jogabilidade pouco polida
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