Dreams – Review

Quanto custa sonhar? Alguns diriam que não custa nada, mas especialistas afirmam que ter bons sonhos – ou pelo menos não ter pesadelos durante a noite – exige alguns cuidados essenciais. Desligar telas com alta intensidade de luz azul antes de dormir, não comer demais, interromper quaisquer estímulos externos…

Enfim, o ponto é que sonhos podem ser bons e ruins e infelizmente não temos o controle sobre esse aspecto da vida. E é exatamente o que acontece com Dreams, um projeto ambicioso da Media Molecule que pode oferecer experiências incríveis e inimagináveis ou pífias e totalmente sem graça.

Dreams não se define como um jogo, mas sim como uma rede social. Já eu penso que seria mais adequado considera-lo como uma engine, pois a complexidade envolvendo o título é muito mais profunda do que aparenta.

Num primeiro momento Dreams pode parecer algo simples como uma das inúmeras – e já conhecidas – ferramentas de criação de jogos disponíveis por ai. O visual colorido e o aspecto lúdico que permeia toda a fisionomia do jogo evocam um sentimento esquisito, como se tudo fosse bobo e infantil e enviesa as primeiras percepções da experiência como algo trivial, talvez até descartável.

Mas tudo mudo no momento em que você percebe o potencial oferecido pela ferramenta e a complexidade envolvida em cada mínimo detalhe. Logo após sermos apresentados ao nosso bichin – nossa principal ferramenta de interação com o mundo de Dreams, nos é oferecido a possibilidade de explorar alguns exemplos e tutoriais básicos para que possamos aprender o be a bá dos controles.

Em seguida descobrimos que Dreams divide-se em dois mundos diferentes onde o jogador – ou “sonhonauta” – pode usufruir das ferramentas do jogo para criar qualquer coisa que tenha em mente, ou simplesmente aproveitar um das criações da comunidade.

Mesmo na data de lançamento o jogador já podia aproveitar algumas das experiências criadas pela própria Media Molecule para mostrar o potencial de Dreams. E aqui eu gostaria muito de poder fazer uso de uma onomatopeia de baixo calão para descrever a sensação que tive ao finalizar “Art’s Dream”.

Toda a experiência é construída de forma a mostrar as várias possibilidades de criação, fazendo uso dos ricos recursos artísticos oferecidos pela plataforma. O resultado é simplesmente incrível para quem consegue perceber as nuances exploradas na construção de uma narrativa coesa e impactante, com peso e intensidades variando quase que perfeitamente entre um estilo e outro de exploração.

O deleite em perceber o cuidado de conectar cada momento do enredo e traduzir diferentes emoções em “estilos de plataforma” destoantes é complexo demais para que eu consiga traduzir de forma concisa – e sem aborrecer o leitor – neste texto. Mas o que é necessário deixar claro é que o objetivo em demonstrar o potencial de Dreams nestas aventuras criadas pela Media Molecule é totalmente alcançando.

Ao terminar estas experiências o jogador sai munido de informações suficientes para entender melhor os controles e de como usar a ferramenta para criar suas próprias aventuras.

Mas a beleza por trás de Dreams não resume-se somente a criar jogos e animações. Tudo que vier a mente do jogador pode ser traduzido em alguma coisa dentro do jogo, seja uma música, imagem, composição de cor, ou ilustração. Tudo depende de dois aspectos primordiais que funcionam como combustível para as criações do jogadores: criatividade e domínio dos controles.

A criatividade é algo bastante subjetivo e inerente à cada um. Algumas pessoas são mais criativas do que outras, mas a quantidade de conteúdo e o potencial da ferramenta são plenamente capazes de inspirar qualquer um. Porém o grande gargalo de Dreams são os controles que apesar de refinados – e de terem sido amplamente trabalhados para oferecerem a maior precisão e experiência ao usuário , não são nem um pouco fáceis de utilizar.

Parte do problema reside não no jogo, mas no controle de detecção de movimento do PS4 que apesar de muito bom, deixa um pouco a desejar principalmente quando não se tem muita experiência. Senti a mesma dificuldade de traduzir meus comandos em resultados quando joguei Concrete Genie, mas a complexidade das três dimensões de Dreams tornaram tudo ainda mais desafiador.

Levei algumas horas para me sentir confortável o suficiente com os controles e só então resolvi explorar a ferramenta de criação. O problema é que infelizmente minha motivação não era tão grande quanto a minha criatividade, o que me fez desistir de dar seguimento aos minhas ideias mais selvagens justamente por saber que finalizá-las me tomaria tempo demais.

O aspecto social de Dreams também merece destaque já que facilita o compartilhamento de criações. Semanalmente são selecionadas as experiências mais populares através de um catálogo destacado no menu do jogo, o que facilita descobrir o que há de melhor no momento. Também é possível filtrar as criações por popularidade, número de acessos, notas e outros tantos filtros úteis para refinar ao máximo aquilo que você deseja experimentar.

Porém assim como qualquer ferramenta complexa, Dreams apresenta uma grande desproporção entre experiências boas e ruins. Em algumas ocasiões- e principalmente agora no lançamento do jogo, precisei dedicar um bom tempo buscando algo que me chamasse atenção ou que merecesse meu joinha.

Em contrapartida, em apenas uma semana a quantidade de criações que merecem destaque cresceu absurdamente, mostrando que Dreams de fato inspirou os jogadores a desafiarem-se a sim mesmos em vencer os controles complexos, a fim de traduzirem sua criatividade em algo tangível.

Existem desde experiências completas que fazem referência ao saudoso Rampage – clássico do PS1, até criações ainda inacabadas que recriam jogos como Fallout 4 dentro da engine de Dream.

É simplesmente inviável – e talvez impossível – tentar justificar os motivos que me fizeram gostar tanto de Dreams sem citar algumas criações já disponíveis. Atualmente temos desde jogos completos até projetos em andamento com longo plano de desenvolvimento como é o caso de Survive. A grande sacada aqui é recriar um jogo de sobrevivência dentro de Dreams, e é simplesmente incrível acompanhar o quanto seu desenvolvimento já encontra-se em estágio avançado.

Metal Gear Solid, Naruto, Mario, Crash Bandicoot, Minecraft, jogos de tabuleiro, Bullet Hell, Rocket League, corrida, MMOs, cartas, Dragon Ball, simuladores em geral… enfim, tudo é combustível para criações em Dreams é cada um dos tópicos mencionados acima já é tema de algum projeto conduzido pela comunidade.

Talvez o melhor aspecto de Dreams seja o fato de realmente poder ser considerado uma engine de criação, porém com um sistema muito mais amigável. O potencial do que vem por ai é inimaginável e sinceramente não duvido que em breve alguém possa dedicar-se exclusivamente a escrever reviews de jogos criados com o Dreams.

Portanto, é possível dizer que após vencer a barreira dos controles e com um pouquinho de criatividade, Dreams pode ser tudo que você sempre sonhou e ainda melhor. O novo produto da Media Molecule é praticamente indispensável para quem aprecia o compartilhamento de ideias e experiências e talvez uma das invenções mais impressionantes dos últimos tempos.

Resumo para os preguiçosos

Dreams é um jogo que se define como uma rede social, mas que poderia muito bem ser considerado uma engine de criação. Uma ferramenta incrível que oferece um mundo de possibilidades para qualquer um que tenha criatividade e vontade de superar o desafio que é dominar os controles. Ao usuário que decidir se aventurar pelo universo do jogo, são oferecidas duas possibilidades: explorar a criação de outros jogadores, ou criar suas próprias experiências.

O potencial de Dreams é diretamente proporcional à criatividade de seus usuários, que mesmo em pouco tempo após o lançamento já foram capazes de conceber algumas criações realmente impressionantes.

Nota final

95
Saiba mais sobre os nossos métodos de avaliação lendo o nosso Guia de Reviews.

Prós

  • Possibilidades infinitas de criação
  • Vasta rede de compartilhamento de experiências
  • Rede social que permite acessar as criações mais populares e filtrar conforme seu próprio gosto
  • Recursos artísticos incríveis
  • Grande aderência da comunidade desde o lançamento

Contras

  • Controles de criação um tanto quanto complexos e difíceis de dominar.
João Víctor Sartor

João Víctor Balestrin Sartor é colaborador e sex-symbol do Critical Hits. Admirador das boas histórias, almeja de verdade escrever um livro algum dia. Divide seu tempo entre à leitura, jogatina, trabalho, engenharia e quando sobra tempo, vive.

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