Dizem que a fé pode mover montanhas. Quer dizer, na verdade a frase não é bem essa, mas ela se aplica bem a Woolhaven, a nova expansão do simpático e diabólico Cult of the Lamb, originalmente lançado em 2022, e que após uma série de atualizações gratuitas, tem mais uma DLC paga sendo lançada agora em 2026.
De todo conteúdo adicional lançado até agora para Cult of the Lamb, Woolhaven talvez seja o mais interessante e peculiar de todos. Isso porque a DLC já começa abordando algo dito nos primeiros momentos da campanha principal: o fato do protagonista ser o último cordeiro vivo na face da terra.
Se você nunca jogou a campanha principal, vamos fazer uma breve recapitulação antes de continuar. Aqui controlamos o último dos cordeiros, que após ser sacrificado pelos 4 bispos da antiga fé, é ressuscitado por uma entidade conhecida como “Aquele Que Espera”, no intuito de ser seu representante na terra. Seu papel então passa a ser construir um culto próprio, com suas próprias particularidades, que seja capaz de lhe dar as condições e a força necessária para derrotar os quatro bispos que te sacrificaram.

Em Woolhaven as coisas evoluem em termos de jogabilidade. Agora, além do roguelike, o jogo também adiciona algumas mecânicas de sobrevivência, já que para manter o culto ativo, o jogador também deverá manter todo mundo vivo e aquecido durante o inverno.
A própria adição do inverno é uma mecânica exclusiva de Woolhaven que funciona muito bem e nos faz questionar porque não fez parte da mecânica principal do jogo desde o início. Apesar de adicionar uma camada extra de dificuldade, o inverno torna o jogo mais interessante ao exigir que o jogador planeje suas colheitas e garanta um estoque de comida suficiente para sobreviver ao longo e vindouro inverno.
Em termos de enredo, as coisas também ficaram muito bem amarradas entre a campanha principal e o DLC. No início, o jogador percebe o aparecimento de um novo altar no terreno do seu culto. Após interagir com este altar, e fazer algumas oferendas a uma entidade que até então não se sabe quem é, um novo segmento de mapa é liberado e toda uma nova história passa a se desenrolar.
Chegando nessa nova região, descobrimos uma antiga Deusa chamada Yngya, Deusa do Inverno e dos Cordeiros. O poder de Yngya foi subjugado pelos Bispos da Antiga Fé, e toda a população de seus seguidores cordeiros foi dizimada na forma de sacrifício. Caberá a você então fortalecer o poder de Yngya novamente, e resgatar o conhecimento perdido sobre a sua própria civilização.
Essa nova região também abriga o antigo vilarejo de cordeiros, ou pelo menos as ruínas do que sobrou após a queda de Yngya. As ruínas abrigam alguns segredos básicos que valem a pena explorar, como skins para seguidores e objetos de decoração, mas nada de muito valioso. O mais valioso só é perceptível ao explorar a grande montanha Ewefall, que fica atrás desse vilarejo, e que é o local do embate entre Yngya e Marchosias, o Líder da Alcateia Livre e inimigo dos cordeiros.
Em condições normais, poderíamos esperar um embate preto no branco, com Marchosias sendo o grande vilão e Yngya a pura bondade que precisa ser auxiliada pelo jogador. Contudo, estamos falando de Cult of the Lamb, e quem já jogou a campanha principal sabe que nem sempre as coisas são tão diretas quanto parecem. Ao longo da campanha, fica claro que em algum momento Yngya foi contaminada com a Podridão, uma chama corrompida que apesar de seus efeitos nocivos, também tem sua utilidade e ajuda a manter o vilarejo do culto aquecido durante os longos dias de inverno.
Ainda assim, é necessário derrotar Marchosias, uma tarefa que se revela nada fácil e mais interessante do que os embates com os Quatro Bispos originais. Marchosias se esconde no coração de Ewefall, e as mecânicas de avanço em Woolhaven funcionam de uma maneira levemente diferente. Antes, as dungeons eram diretas e simples, bastava escolher qual Bispo seria o alvo da vez e se embrenhar nos labirintos de mapas até encontrá-lo escondido em algum lugar. Agora, a exploração de Ewefall exige que o jogador visite níveis diferentes da montanha, desbravando atalhos e caminhos alternativos que podem ou não ajudar na sua jornada.
Em termos de combate as coisas continuam praticamente as mesmas. A principal novidade é adição de uma nova arma, o mangual, que traz uma mecânica de combate totalmente diferente das demais armas do arsenal do Cordeiro. Com ela é possível ter uma mescla de combate a curta e a longa distância, de acordo com a intensidade que o jogador pressiona o botão. De alguma forma, tudo funciona muito bem e pessoalmente, acho que o mangual é a arma mais interessante do jogo todo.
De qualquer forma, fica claro que o foco de Cult of the Lamb: Woolhaven não é adicionar novos conteúdos de qualquer forma e somente dar novos motivos para que o jogador saia desembestado atrás de sangue pelas dungeons do jogo. É praticamente impossível avançar efetivamente sem que o culto esteja bem. Na verdade, manter o culto ativo e funcional se torna muito mais desafiador em Woolhaven, não só pelo inverno, mas também pelos novos tipos de “Seguidores Podres” que se apresentam.
Estes seguidores trabalham sem parar, sem precisar de descanso ou de comida. Porém contam com uma vida muito mais curta e assim que morrem, explodem em podridão. Caso você esteja longe ou demore muito para limpar a bagunça, a doença se espalha pelos seus seguidores como fogo em palha seca e assim, num estalar de dedos, você pode se encontrar em pleno inverno, sem comida e com vários seguidores próximos do limite.
O segredo é manter tudo em equilíbrio, tanto o gerenciamento do culto quanto a progressão da cidade dos cordeiros e o despertar de Yngya. Não só por uma questão de sobrevivência, mas por uma coisa depender da outra, no final das contas.
Por exemplo, para progredir na restauração do Lar Ancestral dos Cordeiros, é necessário coletar almas de cordeiros caídos após terminar suas explorações dos calabouços de Ewefall. A cada nova tentativa, são quatro espíritos que retornam com você até o Lar Ancestral, ocasionando uma ligeira expansão dos poderes de Yngya.
Expandir os poderes de Yngya significa liberar novas construções no Lar Ancestral dos Cordeiros, que serão gerenciadas pelos espíritos caídos que você trouxer de volta. Algumas destas construções são um tanto sem sal, como o museu, que tem como principal novidade um novo jogo de estatuetas muito mais complexo e elaborado do que o jogo de dados presente na campanha principal. Por outro lado, também existem outras construções mais interessantes que liberam novas roupas, seguidores, recursos e principalmente… Iaques.
Até agora abordei as principais novidades trazidas por Woolhaven, mas fiz questão de deixar o melhor para o final: o sistema de criação de animais. Finalmente temos um sistema de “ranching” no simpático e diabólico joguinho de fazendinha. Após liberar a construção correta no Lar Ancestral, você libera a possibilidade de construir seu primeiro rancho, com cerca e tudo, e criar seus próprios animais.
Após alimentá-los e entretê-los, cada Iaque permite que você colete lã, que acaba se tornando outro recurso essencial para restaurar o Lar Ancestral dos Cordeiros. É como eu disse antes: uma coisa depende da outra.
Os Iaques também podem ser designados para um seguidor específico, e assim, se você se organizar direitinho, seus melhores e mais fiéis cultistas poderão ter seus próprios pets acompanhando-os nas suas tarefas diárias. Se tudo isso ainda não bastasse, os Iaques também podem ser usados como montaria, para que você se movimento um pouco mais rápido de um lugar a outro.
O fato é que no final das contas, Cult of the Lamb: Woolhaven acaba sendo uma DLC competente, com conteúdos interessantes e que adicionam uma nova camada de gameplay a uma campanha que já é divertida. O desfecho do Lar Ancestral dos Cordeiros é muito melhor do que o enredo envolvendo os Quatro Bispos e “Aquele que Espera”, e manter seu culto funcionando acaba se tornando mais divertido do que nunca.
Ainda assim, existem alguns pontos que carecem de melhoria. Algumas animações são muito longas, como a da absorção da fé dos seguidores e tornam o jogo muito repetitivo. Isso acontece desde a campanha original e não sofreu qualquer alteração em nenhuma das atualizações gratuitas, muito menos na DLC Woolhaven. Ao meu ver, seria interessante poder pular algumas destas animações, principalmente depois de já tê-las visto inúmeras vezes.
Também confesso que esperava a adição de novas cartas de tarô. Não me entendam mal, afinal, novas cartas foram adicionadas de fato. O problema é que nenhuma delas torna o combate mais dinâmico. Ao meu ver isso seria o passo lógico, agora que nosso cordeirinho domou completamente o poder da Coroa Vermelha.
E por fim, apesar de ter mencionado a adição do excelente Mangual ao arsenal de Cult of the Lamb, confesso que esperava mais. Talvez mais uma arma, no final das contas, já que o combate também acaba se tornando um tanto repetitivo com o passar do tempo e novas armas são o principal modo de obrigar o jogador a alterar o estilo de luta e posicionamento.
Mas e aí, Cult of the Lamb: Woolhaven vale a pena?
Sendo assim, chego à conclusão de que apesar de não ser perfeita, Cult of the Lamb: Woolhaven é uma boa expansão da campanha principal e um DLC que vale a pena ser comprado, caso você tenha gostado do jogo original. O pacote de conteúdo adicional é excelente para jogadores de primeira viagem, ao mesmo tempo em que se sustenta e convida jogadores antigos a retornarem para o Culto do Cordeiro.
Review elaborado com uma cópia do jogo para PS5 fornecida pela publisher.
Resumo para Preguiçosos
Woolhaven se destaca como a expansão mais interessante lançada até agora para Cult of the Lamb, aprofundando finalmente as origens do protagonista como o último de sua espécie. A DLC enriquece a jogabilidade ao introduzir mecânicas de sobrevivência ao inverno e um inédito sistema de rancho para criação de animais, tornando o gerenciamento do culto mais estratégico e desafiador. A narrativa expande o universo de forma competente, focando na restauração da Deusa Yngya e no confronto contra o lobo Marchosias na nova região de Ewefall.
Apesar de manter alguns problemas antigos, como animações longas e repetitivas, e de não revolucionar o combate — trazendo apenas o Mangual como nova arma e cartas de tarô que pouco alteram a dinâmica —, o pacote final é sólido. A integração entre as novas mecânicas de “Podridão” e a exploração faz de Woolhaven uma compra recomendada tanto para novatos quanto para veteranos que desejam retornar ao culto.
Prós
- A história do Lar Ancestral e da Deusa Yngya é mais envolvente e bem amarrada do que a trama original dos Bispos.
- A adição do inverno e a necessidade de planejar estoques de comida trazem uma nova camada estratégica que faltava ao jogo base.
- A possibilidade de criar animais “reais” (como Iaques) diverte e se integra perfeitamente à economia de recursos do culto.
- Desafio de Gestão: Os novos “Seguidores Podres” e a mecânica de doenças/frio tornam a manutenção do culto mais complexa e menos automática.
Contras
- A impossibilidade de pular animações frequentes (como a absorção de fé) quebra o ritmo, um problema herdado do jogo base.
- Com exceção do Mangual, a falta de mais armas novas faz com que as lutas se tornem repetitivas com o tempo.
- As novas cartas adicionadas não mudam a dinâmica do combate o suficiente para serem memoráveis.









