Quando foi anunciado um novo Castlevania em comemoração aos 40 anos da franquia, fiquei muito animado. O interesse aumentou ainda mais quando foi revelado que Castlevania: Belmont’s Curse estava sendo desenvolvido pela Evil Empire em parceria com a Motion Twin, responsáveis por Dead Cells, um dos meus jogos favoritos. A expectativa, portanto, era bastante alta.
A história começa com Rose Belmont chegando em Paris ao lado de seu pai, Trevor Belmont, após os dois receberem uma carta contendo um pedido de ajuda escrito pelo bispo local. Ao chegarem à cidade, porém, percebem rapidamente que a situação é muito pior do que a carta fazia parecer. Diante disso, pai e filha decidem se separar, enquanto Trevor parte em busca do bispo, Rose começa a explorar Paris para entender melhor o que está acontecendo.
Antes de seguirem caminhos diferentes, Trevor demonstra preocupação com a maldição que Rose carrega em seu braço e pede para que ela tome cuidado durante a investigação. Ele também entrega à filha algumas cartas de tarô criadas por sua falecida mãe, Sypha, que terão um papel importante tanto na história quanto nas próprias mecânicas de Belmont’s Curse.
Sem entrar em maiores detalhes, Belmont’s Curse consegue apresentar uma nova protagonista sem abandonar completamente o legado da franquia. Existem diversas referências aos jogos anteriores, seja em personagens, habilidades, inimigos ou pequenos detalhes espalhados pela aventura.

Castlevania: Belmont’s Curse segue praticamente todos os moldes modernos que esperamos de um Metroidvania. Exploramos diferentes áreas, encontramos segredos, adquirimos novas habilidades para progredir no mapa e marcamos no mapa lugares que precisaremos revisitar posteriormente.
Rose conta com um arsenal de sete armas diferentes, entre elas espadas, lança, manopla e, é claro, o grande símbolo da franquia, o chicote. Cada arma possui quatro variações. As três primeiras funcionam basicamente como melhorias de dano, enquanto a última e mais forte variação adiciona alguma característica especial à arma. O último chicote, por exemplo, passa a causar dano elemental de fogo, enquanto a última espada adiciona golpes de vento que causam dano adicional.
Além das armas, Rose também possui os Arcanos, que funcionam como suas habilidades especiais. Ao todo, existem 15 Arcanos diferentes, sendo que a maioria é desbloqueada após derrotarmos determinados chefes. E é aqui que entra uma das mecânicas que mais gostei durante a exploração. Os Arcanos não são simplesmente entregues ao jogador, muitas vezes precisamos descobrir onde eles estão através de pistas espalhadas pelo mundo. Documentos, estátuas e espíritos fornecem informações que nos ajudam a descobrir o paradeiro dessas habilidades.
Depois de desbloquear um Arcano, algumas missões adicionais também ficam disponíveis para aumentar ainda mais o poder da nova carta. Normalmente são dois ou três desafios relacionados à habilidade, como derrotar mais de três inimigos com a mesma Cruz ou atingir 20 inimigos diferentes com uma bola de fogo. Além de melhorar o Arcano, completar todos os desafios também libera diálogos adicionais com o personagem representado na carta.
Também temos três espaços para relíquias, que podem ser encontradas em baús espalhados pelo mapa. Elas permitem montar pequenas builds e adaptar Rose ao estilo de jogo de cada jogador. Não são modificações capazes de transformar completamente a maneira como jogamos, mas oferecem bônus bastante úteis e ajudam a personalizar a experiência.

Em combate, Rose pode atacar, esquivar, utilizar parry, lançar seus Arcanos e também usar o chicote para se lançar rapidamente em direção aos inimigos. Durante minhas horas de jogo, não fiquei enjoado do combate em nenhum momento. Isso acontece por alguns motivos. Primeiro, a variedade de inimigos é boa o suficiente para manter os confrontos interessantes. Segundo, praticamente sempre havia alguma habilidade nova para experimentar. Cada novo Arcano mudava um pouco minhas possibilidades durante as batalhas e me incentivava a testar diferentes maneiras de utilizá-lo.
A progressão de personagem é simples, ao ganhar experiência e subir de nível, Rose aumenta seus atributos de ataque e defesa. Também é possível ampliar seus limites máximos de vida e mana ao encontrar itens espalhados pelo mapa, sendo necessários quatro itens para aumentar cada atributo. Além desses bônus, Rose também adquire habilidades típicas de Metroidvania que permitem acessar novas áreas e expandir a exploração do mapa.
Os chefes do jogo são, sem exceção, muito divertidos. Fiz o True Ending e consegui praticamente todos os colecionáveis, terminando a aventura com 98,6% de conclusão, e uma das coisas que mais gostei foi perceber o quanto cada chefe tenta se diferenciar dos demais.
As arenas, os visuais e principalmente a maneira como cada batalha acontece são bastante diferentes entre si. Não tive grandes dificuldades contra a maioria deles — muitos foram derrotados na primeira ou segunda tentativa —, mas isso não significa que as batalhas sejam ruins. Pelo contrário, elas são visualmente interessantes e divertidas de enfrentar, mesmo quando não representam um grande desafio mecânico.
Belmont’s Curse possui um sistema de recursos bastante parecido com o que encontramos em jogos como Dark Souls. Temos três frascos de vida que podem ser recuperados ao descansar em um espelho. O espelho funciona como uma fogueira: recupera nossa vida e mana, reabastece os nossos frascos e também faz com que todos os inimigos derrotados retornem.

Exploração é, para mim, o aspecto mais importante de um Metroidvania. E nesse ponto Castlevania: Belmont’s Curse acerta bastante. Existem muitos segredos espalhados pelas ruas de Paris e pelo castelo, e o jogo recompensa constantemente quem se dispõe a explorar cada canto do mapa.
Uma coisa que gostei bastante é que o jogo não economiza nos marcadores disponíveis. Desde o começo temos uma quantidade mais do que suficiente de marcadores personalizados para registrar todos os lugares que precisamos revisitar posteriormente. Não existe aquela sensação de precisar economizar marcadores porque você não sabe quando vai encontrar algo mais importante.
O próprio mapa também vai sendo preenchido conforme avançamos pelas áreas, facilitando bastante a navegação e permitindo visualizar melhor quais regiões ainda possuem espaços que não exploramos.
Essa combinação entre habilidades, progressão e segredos funciona muito bem. É justamente nesse momento que Belmont’s Curse deixa de ser apenas mais um Metroidvania competente e começa a mostrar sua identidade.

Visualmente, Belmont’s Curse é um jogo muito bonito. Sua direção artística possui bastante personalidade e consegue representar bem uma versão mais moderna do universo de Castlevania. Ao mesmo tempo, consigo imaginar que parte dos fãs mais antigos da franquia possa estranhar essa abordagem, principalmente quando comparada à identidade visual estabelecida pelos títulos clássicos da era 2D.
Jogos como Castlevania: Symphony of the Night e outros títulos da série construíram uma estética muito característica, com sprites detalhados, cenários góticos, paletas mais escuras e uma atmosfera que se tornou imediatamente reconhecível. Symphony of the Night, em especial, ajudou a estabelecer boa parte da identidade visual que muitos jogadores associam diretamente à palavra Castlevania. Seus corredores, salões, castelos, criaturas e animações em pixel art possuem uma personalidade que continua sendo admirada décadas depois.
Belmont’s Curse, porém, segue por um caminho diferente. Em vez de tentar resgatar a estética dos outros clássicos, o jogo procura reinterpretar essa identidade para uma experiência mais moderna. É uma escolha que certamente pode não agradar a todos, especialmente quem possui uma relação mais forte com o visual tradicional da franquia, mas, particularmente, gostei bastante do resultado.
E existe algo importante nessa decisão: estamos falando de um novo Castlevania, de uma franquia que passou muito tempo sem receber a atenção e o carinho que merece. Para mim, a existência de Belmont’s Curse é muito mais interessante justamente porque ele tenta apresentar algo novo em vez de simplesmente copiar o passado. Mesmo que sua direção artística se afaste daquilo que muitos fãs consideram o visual definitivo da série, acredito que essa liberdade acaba sendo um dos pontos que tornam o jogo mais interessante.
A trilha sonora segue um caminho parecido. O jogo possui muitas músicas incríveis, algumas que conseguem capturar muito bem aquela sensação de aventura gótica que esperamos de Castlevania. Entretanto, em determinados cenários e momentos, senti que a trilha ficou abaixo do que eu esperava de uma franquia com uma história musical tão forte.
Castlevania sempre teve a música como um de seus grandes pilares. Desde os temas marcantes dos primeiros jogos, passando por trabalhos como Castlevania III: Dracula’s Curse, Super Castlevania IV e Rondo of Blood, até chegar a Symphony of the Night, a série construiu uma identidade musical extremamente reconhecível, misturando rock, música clássica, elementos barrocos e atmosferas sombrias. Cada uma dessas fases ajudou a estabelecer o padrão pelo qual as trilhas da franquia são lembradas até hoje.
Por isso, embora Belmont’s Curse tenha excelentes músicas, em alguns momentos senti falta daquele impacto que uma grande composição de Castlevania costuma causar. Não chega a ser um problema grave, mas é uma área em que eu esperava um pouco mais.

Desde que Belmont’s Curse foi apresentado no State of Play do começo do ano, fiquei muito ansioso para poder finalmente testá-lo. E, ao ler tudo o que escrevi até aqui, provavelmente já ficou bastante claro que gostei muito do jogo como um todo. Mas esse não foi o sentimento que tive logo de cara.
Nas primeiras duas ou três horas, eu não estava gostando muito do jogo. Tudo parecia simples e superficial demais. A exploração para encontrar os Arcanos era bastante trivial, o avanço parecia linear e, naquele momento, eu tinha a sensação de que Belmont’s Curse seria apenas mais um Metroidvania em um mercado que já está extremamente saturado.
A verdadeira virada de chave aconteceu quando o jogo finalmente nos deixa livres dentro do castelo e permite que o jogador vá e volte praticamente para onde quiser.
A partir daquele momento, a experiência mudou completamente para mim. A exploração ganhou outro significado, as pistas passaram a ser mais interessantes, os segredos começaram a chamar minha atenção e o mapa passou a funcionar de uma maneira muito mais próxima daquilo que espero de um Metroidvania.
Talvez eu tenha sido precipitado ao tirar conclusões tão cedo e devesse ter esperado o jogo mostrar todo o seu potencial. E talvez seja verdade. Ainda assim, acredito que essa crítica seja válida, principalmente porque outros jogos do gênero conseguiram me conquistar muito mais rapidamente.
Prince of Persia: The Lost Crown e MIO: Memories in Orbit, por exemplo, conseguiram ser interessantes desde os primeiros momentos, sem precisar apresentar todas as ferramentas e possibilidades de seus sistemas antes de mostrar aquilo que os tornava especiais.
Por isso, considero o início de Belmont’s Curse seu principal problema. O jogo demora para mostrar por que vale a pena continuar jogando, e essa demora pode acabar afastando jogadores antes que ele tenha a oportunidade de mostrar todo o seu potencial.

E no Nintendo Switch?
Joguei Belmont’s Curse completamente no Nintendo Switch 2 e, infelizmente, a experiência técnica ficou bastante abaixo do que eu esperava.
O jogo não possui uma versão nativa para o Switch 2 e, na prática, utiliza a retrocompatibilidade do console. No Switch 2, ele consegue apresentar uma taxa de quadros melhor do que os 30 FPS encontrados no Switch original, mas a resolução é bastante ruim.
Além disso, tive tempos de carregamento maiores do que considero aceitáveis, diversos engasgos dentro dos menus e alguns crashes ao longo das minhas 18 horas de jogo.
É importante dizer que o jogo não está injogável — longe disso. Consegui terminar a aventura e aproveitar muito a experiência. Mas esses problemas são perceptíveis e acabam prejudicando um pouco a experiência.
Por isso, espero que a Konami providencie o quanto antes uma versão própria para o Nintendo Switch 2. Castlevania é uma das franquias mais importantes da história da indústria e Belmont’s Curse merece uma versão que consiga aproveitar melhor o hardware atual.
E aí, Castlevania: Belmont’s Curse vale a pena?
Castlevania: Belmont’s Curse é um jogo incrível e entrega praticamente tudo aquilo que se propõe a fazer. Seu começo é lento, linear e, na minha opinião, bastante abaixo da média quando comparado ao restante da aventura. É justamente por isso que acredito que as primeiras horas podem afastar alguns jogadores antes que o jogo tenha a oportunidade de mostrar todo o seu potencial.
Porém, depois que a experiência se abre, fica muito mais fácil entender por que Belmont’s Curse merece atenção. O combate é divertido e nunca se tornou cansativo, a exploração é excelente, os chefes são variados e memoráveis e existem referências suficientes aos Castlevania antigos para fazer os fãs da franquia se sentirem em casa. Mais importante ainda, o jogo consegue apresentar sua própria identidade sem depender exclusivamente da nostalgia.
Belmont’s Curse também representa algo importante para a franquia: um novo Castlevania depois de tantos anos sem receber um jogo desse porte. E talvez esse seja justamente o maior mérito do título. Ele não precisa substituir os clássicos ou ser um novo Symphony of the Night. Ele só precisa provar que ainda existe espaço para Castlevania no gênero que ajudou a popularizar — e, nesse aspecto, ele consegue.
Minha principal recomendação, portanto, é simples, dê uma chance ao jogo mesmo que as primeiras horas não estejam convencendo. Existe um excelente Metroidvania esperando depois daquele início mais lento.
Análise feita com uma chave para Switch 2 cedida pela publisher.
Resumo para Preguiçosos
Castlevania: Belmont’s Curse é um excelente Metroidvania, com combate divertido, ótima exploração e uma progressão que recompensa a curiosidade do jogador. Embora seu início seja lento e um pouco fraco, a experiência melhora bastante quando o mapa se abre. A direção artística funciona bem, apesar de poder dividir opiniões entre fãs dos clássicos. No Switch 2, problemas técnicos também incomodam, mas não impedem que Belmont’s Curse seja uma aventura competente e digna da franquia.
Prós
- Combate
- Exploração divertida
- O Sistema de Arcano funciona muito bem
Contras
- As primeiras horas do jogo são bem “fracas” em comparação ao restante do jogo
- O jogo precisa muito de uma versão de Switch 2

