Desenvolvido pela The Game Bakers, Cairn se apresenta como uma experiência focada em escalada que aposta mais na sensação de conquista do que em excessos narrativos. Após pouco mais de 12 horas enfrentando paredões, clima instável e decisões cuidadosas a cada movimento, a experiência deixa claro que a proposta do jogo vai muito além de simplesmente chegar ao topo, convidando o jogador a entender seus próprios limites durante a jornada.

Em Cairn, assumimos o controle de Aava, uma escaladora que decide enfrentar o Monte Kami, uma montanha considerada inalcançável após diversas tentativas fracassadas de outros aventureiros. A narrativa não é conduzida por longas cutscenes ou diálogos, mas se constrói de forma ambiental. Conforme avançamos montanha acima, encontramos vestígios de quem tentou a escalada antes de nós, como mochilas abandonadas, cartas, fotos e relatos que ajudam a contextualizar o peso dessa missão e o histórico de fracassos ligados ao Kami.
Durante a subida, o jogo também apresenta fragmentos do mundo ao redor por meio da cultura dos Trogloditas, um povo antigo que vivia de forma vertical nas montanhas. Esses elementos ajudam a enriquecer o universo sem quebrar o ritmo da escalada. Além disso, Aava não está completamente sozinha. Ao longo do caminho, encontramos poucos outros personagens, cada um com seus próprios objetivos, com destaque para Marco, o personagem com quem mais interagimos. O ClimBot, um pequeno robô que acompanha Aava, também transmite mensagens de amigos e conhecidos, revelando preocupação, cobranças e questionamentos sobre os motivos que levaram a protagonista a se lançar em uma tarefa considerada impossível. Tudo isso contribuindo para uma narrativa mais humana e intimista, mesmo sem ser o foco principal do jogo.

A gameplay é claramente o ponto central de Cairn. Diferente de outros jogos de escalada, aqui a progressão é lenta e exige total atenção. O jogador controla individualmente cada um dos quatro membros de Aava, alternando entre braços e pernas para buscar apoio, equilíbrio e avanço. Cada movimento precisa ser pensado com calma, pois uma decisão precipitada pode resultar em perda de fôlego, queda e até mesmo a morte.
Leva um tempo até compreender completamente os limites dessa mecânica. Nas primeiras horas, é comum não entender por que Aava começa a tremer, perde o fôlego ou simplesmente cai. A escalada segura depende de identificar corretamente quais saliências e pedras oferecem apoio confiável. Cairn não pune o jogador de forma injusta, mas exige aprendizado por tentativa e erro, fazendo com que as quedas iniciais façam parte do processo de entendimento da escalada.
Além disso, o jogo incorpora elementos de sobrevivência que impactam diretamente a progressão. Aava sente fome, sede e frio, além de possuir uma barra de vida. No início, a mochila vem equipada com suprimentos básicos, mas conforme a escalada avança, todos os recursos precisam ser encontrados durante a jornada. Esses itens podem estar em mochilas deixadas por outros escaladores, em estruturas antigas dos Trogloditas ou na própria natureza, como plantas e fontes de água.

O Bivaque funciona como o principal ponto de salvamento e gerenciamento. Nele, é possível cozinhar alimentos para melhorar seus efeitos, descansar para recuperar vida, passar o tempo para evitar condições climáticas desfavoráveis, cuidar das mãos de Aava com bandagens para melhorar a aderência e restaurar pitões com a ajuda do ClimBot. O sistema de gerenciamento não é complexo e raramente se torna um problema. Na prática, só há risco real caso o jogador fique preso por muito tempo em um mesmo trecho de escalada. Em uma única sessão mais prolongada, por exemplo, acabei ficando sem água, deixei a barra de desidratação chegar a zero e morri, o que mostra que o jogo pune apenas a falta de planejamento extremo.
Dentro do Bivaque, alguns itens usados durante a escalada se transformam em materiais para compostagem. Esses resíduos podem ser processados pelo ClimBot para gerar pó de magnésio, um recurso importante que aumenta a aderência das mãos durante a escalada. O sistema é simples e bem integrado, funcionando como um incentivo para o uso consciente dos recursos e reforçando o aspecto de sobrevivência sem torná-lo burocrático.
Durante a escalada, os pitões são fundamentais. Eles funcionam como pontos de segurança que reduzem o impacto de uma queda, mas não substituem o salvamento do Bivaque. Mesmo com pitões posicionados, a morte faz o jogador retornar ao último Bivaque ou a uma cutscene recente. Saber onde e quando usar essas ferramentas é essencial para uma progressão segura.

Cairn também recompensa a exploração. Não existe um único caminho até o topo do Monte Kami, e quem se permite desviar da rota mais óbvia pode encontrar itens valiosos que facilitam a jornada. Essa liberdade faz com que cada jogador tenha uma experiência diferente. Comparando caminhos e descobertas com outros jogadores, fica claro como decisões individuais impactam diretamente a aventura.
O design de áudio merece destaque. O som da chuva, do vento, das mãos deslizando pela rocha e, principalmente, da respiração de Aava durante momentos de tensão, contribui muito para a imersão. Já o visual aposta em um estilo mais cartunesco, mas extremamente bem trabalhado, com boa leitura de cenário e identidade própria que combina perfeitamente com a proposta do jogo.
Por fim, o jogo conta com textos totalmente localizados em português, o que facilita a compreensão dos elementos narrativos e de sobrevivência. A dublagem, no entanto, está disponível apenas em inglês. Ainda que a história não seja o foco principal, as vozes são bem interpretadas e cumprem bem seu papel dentro da experiência.
Mas e aí, Cairn vale a pena?
Cairn entrega uma experiência de escalada que exige paciência, planejamento e atenção aos detalhes, oferecendo uma jornada mais contemplativa e desafiadora do que acessível. Com uma gameplay profunda, ótimo design de áudio, visual consistente e uma narrativa ambiental eficiente, o jogo se destaca como uma proposta sólida para quem busca algo diferente dentro do gênero indie.
Resumo para Preguiçosos
Cairn oferece uma experiência de escalada focada em paciência e planejamento, colocando o jogador no controle de Aava em uma jornada desafiadora até o topo do Monte Kami, onde cada movimento importa. A narrativa é construída de forma ambiental, enquanto a gameplay exige controle preciso dos membros, aprendizado por tentativa e erro e gerenciamento básico de sobrevivência.
Prós
- Mecânicas de sobrevivência divertidas e funcionais
- Desafios recompensadores
- Exploração
- Design de som
Contras
- Curva de aprendizagem inicial
