Game Freak é a lendária desenvolvedora por trás da série Pokemon, mas fora essa franquia que todos conhecem, o estúdio teve poucas oportunidades para mostrar estilos e jogos diferentes, Beast of Reincarnation é uma dessas raras oportunidades onde os talentos da Game Freak estão livres para experimentar com coisas novas. Mas Beast of Reincarnation é realmente bom? É o que vamos descobrir na análise de hoje.

Beast of Reincarnation é um jogo de ação e aventura ambientado num Japão pós-apocalíptico com um combate mais cadenciado e preciso, num estilo bem similar a Sekiro, mas com uma ambientação e direção de arte que remete diretamente a jogos como Nier Automata e Stellar Blade.
Nós controlamos Emma, a última esperança da humanidade contra a Besta da Reencarnação, ser mítico que reencarnou e busca destruir tudo. Emma é capaz de controlar a pestilência, umas espécie de praga que assola o mundo e agora ela tem a missão de ficar forte o suficiente para conseguir vencer a Besta da reencarnação.

Na sua jornada ela faz amizade com Ko, um lobo pestilento que luta ao nosso lado e é um suporte ativo nas batalhas, tal qual Torgal em Final Fantasy 16. Vai ser difícil falar sobre Ko sem atiçar a quinta série interior, já que o jogo traz muitas mecânicas para ele dentro e fora de combate, com Emma precisando acariciar, alimentar e limpar o Ko constantemente para ele ficar mais forte. Ele é um companheiro extremamente útil no combate, então dê atenção ao Ko sempre que possível que com certeza vai te ajudar na jornada.
De forma geral, a história é competente o suficiente para te fazer prestar atenção, ela até tem uma premissa muito interessante mas já foi usada tantas vezes em tantos jogos recentes que meio que vira “Mais do mesmo”, mas pelo menos os personagens tem um certo nível de carisma que ajudou a me manter interessado no que estava acontecendo.
O jogo é dividido em mapas de semi mundo aberto onde você pode explorar com Emma enquanto enfrenta diversos inimigos no caminho, o combate é bem interessante e é o ponto mais alto do jogo. Emma usa Katanas e tem uma quantidade absurda de golpes que vamos desbloqueando ao longo da jornada e ao combinar certas ações com Ko, o céu é praticamente o limite.

Beast of Reincarnation também tem uma verticalidade muito alta, Emma tem um pulo duplo bem generoso através da pestilência que cresce do cabelo e também uma espécie de avanço frontal ao fazer uma ponte de madeira para você mesmo atravessar, isso da uma extra para a exploração bem interessante e também pode ser usado no combate de forma agressiva.
Apesar das inúmeras habilidades que podemos desbloquear para Emma, o combate realmente se resume a uma única coisa: parry. Os inimigos tem uma barra de postura que é preenchida com ataques e defesas perfeitas, a árvore de habilidades gigantesca no fim não importa muito porque desde que você consiga acertar o parry, o jogo fica muito fácil. Joguei na dificuldade padrão e senti que apesar de um excelente sistema de combate bem complexo e robusto, o jogo falha em te incentivar a usar ele, já que acabamos sempre voltando ao básico no parry por eficiência e por quão inviável é jogar sem usar essa mecânica. É como se você tivesse uma Ferrari monstruosa na garagem mas a sua cidade tem um limite máximo de 40km/h em toda estrada e você não tem incentivo para usar todo o potencial do que tem.
Infelizmente sinto que essa parte de “potencial desperdiçado” permeia por todos os aspectos do jogo. Por exemplo, o primeiro mapa me empolgou bastante ao ver a verticalidade que Emma tem para explorar e o quão legal seria olhar cada cantinho para buscar upgrades, melhorias e ficar mais forte de forma geral. Nesse momento senti que o jogo tinha o potencial para ser incrível e um dos melhores do ano. Acontece que Ko estraga completamente a vontade de explorar, pois ele enxerga tudo o que tem no mapa a vários metros de distância e marca pra você na HUD, tirando completamente o tesão da descoberta. Entendo que essa seria uma mecânica útil como opção de acessibilidade no menu, mas sequer tem como desligar,. Pra mim, não faz sentido ter um mapa legal de olhar e só de sair andando eu vou ver 90% das coisas sem nem precisar procurar.

Outro agravante da exploração é como o jogo não só tem zero incentivo para o jogador ser curioso, como ele te penaliza diretamente por essa curiosidade. No primeiro mapa estava bem empolgado e fui olhando cada cantinho, acontece que encontrei 2 lugares que a quest principal me levaria no futuro para pegar chaves essenciais para avançar pro segundo mapa, mas essas chaves não estavam lá e só apareceram depois que a missão delas se tornou ativa, fazendo a exploração prévia de antes se tornar quase que uma completa perda de tempo.
Isso leva ao outro tópico que acredito ser o maior defeito do jogo, Beast of Reincarnation é grande demais pra sua proposta e tem um inchaço tão grande no meio da jornada que não faz sentido existir. O jogo leva cerca de 20 a 30 horas para zerar, dependendo do ritmo e estilo de jogo do jogador, mas a verdade era que dava pra cortar metade ou até mais disso e ser um jogo de 10-15 horas.
Temos cerca de 13 mapas no total (contando com as áreas pequenas da história que são obrigatórias), com o primeiro sendo muito legal causando um grande impacto com as possibilidades de exploração, combate e direção de arte, mas depois disso o jogo é a mesma coisa por pelo menos uns 7 a 8 mapas pra só então na reta final as coisas ficarem interessantes de novo, tanto do ponto de vista da história, direção de arte e até mesmo combate, já que muitos chefes da história principal são reciclados dentro da própria história posteriormente, mudando apenas a cor mas mantendo até a mesma animação de morte.

Esteticamente falando, o primeiro mapa é muito bonito com toda aquela floresta decaída em cima dos restos da civilização humana e tal, aí o segundo é a mesma coisa, o terceiro, o quarto, o quinto…. Não demorou muito para bater o cansaço visual e as coisas simplesmente nunca mudavam. Somente no fim que o jogo traz alguma variação legal de cenários. Junte isso ao fato do combate não escalonar muito bem nas coisas básicas, reciclagem de chefes na história, a exploração ser tediosa e você terá a fórmula perfeita da mediocridade, com 15 horas de jogo sendo a mesma coisa e eu torcendo pra que simplesmente acabasse logo.
Não me entendam mal aqui, eu não achei o jogo de todo ruim, as primeiras e últimas horas são boas e o combate de forma geral diverte, mas essa barrigada de mesmice que ele tem bem no meio prejudicou demais a percepção como um todo. Não adianta o primeiro mapa causar uma boa impressão com a direção de arte se o jogo vai te cansar de ver a mesma coisa pelas próximas 15 horas.
Sinto que decidiram inchar o jogo pelo simples fato de querer inchar, seja porque o diretor queria um jogo maior pra agradar um público que se não tiver 30 horas de exploração nem compra, ou executivo que não entende muito bem de videogame e quer impor esse tipo de coisa mesmo assim, mas o fato é que o resultado final do jogo como um todo não reflete a qualidade das primeiras e últimas horas.
A única coisa nesse meio do jogo que realmente dava um resplendo e amenizavas os problemas era a trilha sonora, que é muito marcante e tem claras inspirações na trilha de Nier. Passear pelos cenários com aquela musiquinha calma é uma sensação muito boa, uma pena que o jogo decidiu saturar isso de todas as formas.

Por fim, temos um último problema sério que é a performance, a análise foi feita em um Playstation 5 base e apesar de não encontrar quase nenhum bug no decorrer da jornada, o jogo tava quase se desfazendo na minha frente de tão mal que rodava. O FSR é usado de forma extremamente agressiva mesmo selecionando o modo qualidade no PS5, ao ponto de que artefatos de todos os tipos surgem. Não consigo cravar qual versão do FSR o jogo utiliza por não ter as ferramentas necessárias pra uma análise mais minuciosa, mas definitivamente não é a mais recente que o PS5 consegue usar já que existem artefatos de reconstrução de imagem que era problema lá nas primeiras versões da tecnologia e estão presente aqui.
Ao usar o FSR com uma resolução tão baixa para fazer upscaling pra 4K, o lumem, tecnologia de traçado de luz da Unreal Engine, também quebrou completamente, andar na base de noite mostrava como nada na iluminação funcionava direito e ao tentar limpar o Ko você sequer via o que estava acontecendo. Na análise em vídeo você vai poder ver bons exemplos do que citei acima: artefatos de reconstrução, problemas de nitidez devido ao FSR agressivo e o Lumem tão quebrado que o cenário todo começa a piscar parecendo que o jogo vai derreter bem na sua frente.
Game Freak não é conhecida por seu esplendor técnico, mas todos pensavam que era por conta de ter que trabalhar constantemente com o Nintendo Switch que é um hardware bem fraquinho, mas mesmo no PS5 eles entregaram algo que até da pra tolerar se você tiver com muita força de vontade, mas chegou muito próximo do injogável em muitos momentos.
Mas e aí, Beast of Reincarnation vale a pena?

Beast of Reincarnation tem um combate muito divertido para quem gosta de algo mais cadenciado, mas a exploração e variedade de mapas caiu numa mediocridade tão grande que é difícil fazer uma recomendação imediata para aqueles que não são tão fãs desse tipo de gameplay. Dê uma olhada nos vídeos para ver se o combate é o suficiente para te vender o jogo, a performance também é um problema então pode valer a pena esperar uns patches de correção antes de comprar.
É sem dúvidas um jogo que, com algumas ressalvas, vai divertir e é recomendável desde que você saiba o que está comprando. Não espere uma jornada super engajante com vários personagens legais, mas com as expectativas certas é um bom jogo para passar o tempo.
Análise feita com uma chave para PS5 cedida pela publisher.
Resumo para Preguiçosos
Desenvolvido pela Game Freak, Beast of Reincarnation é um jogo de ação com combate marcante focado em parry, mas que acaba prejudicado por uma exploração cansativa e um inchaço desnecessário de conteúdo em sua campanha de até 30 horas. A jornada de Emma ao lado de seu lobo Ko traz momentos brilhantes no início e no fim, além de uma excelente trilha sonora inspirada em Nier, mas peca pela alta reciclagem de cenários e chefes ao longo do meio da aventura.
Prós
- Combate bem feito com uma cadência agradável
- Trilha sonora agradável
Contras
- Chefes reciclados
- Jogo é inchado demais e cai na mesmice por mais da metade do tempo
- Performance quase no limite do inaceitável

