Shigeru Miyamoto, criador de franquias como Mario e The Legend of Zelda, afirmou ainda nos anos 1980 que perseguir realismo nos videogames não era o caminho ideal para criar experiências divertidas. Em uma entrevista de 1989, o designer explicou que a Nintendo preferia se inspirar em desenhos animados como Tom e Jerry para desenvolver suas ideias de jogabilidade.
Na conversa publicada originalmente na revista japonesa Gamer Handbook, Miyamoto comentou que muitos jogos da época buscavam animações cada vez mais realistas. Segundo ele, alguns títulos focavam tanto na aparência visual que acabavam comprometendo a resposta dos controles, algo que prejudicava a experiência do jogador.
O designer citou como exemplo os chamados “jogos de karatê”, que ficaram populares naquele período. Esses títulos apresentavam movimentos detalhados e animações consideradas bonitas, mas Miyamoto avaliava que, como jogos, eles falhavam justamente por priorizar o realismo em vez da sensação de controle.
Shigeru Miyamoto defendia mundos irreais que parecem convincentes
Para Shigeru Miyamoto, o fator mais importante em um videogame não é reproduzir a realidade com precisão, mas criar um mundo que funcione dentro das próprias regras. Ele explicou que o salto de Mario é um bom exemplo disso, já que o personagem consegue pular várias vezes a própria altura, algo impossível no mundo real.
Segundo Miyamoto, se Mario pulasse apenas como um ser humano normal, seguir a física real faria sentido. Porém, quando o personagem começa a saltar três ou quatro vezes a própria altura, o jogo já está completamente fora da realidade, e isso não é um problema desde que o sistema de regras seja consistente.
Essa filosofia começou a aparecer já na transição entre Donkey Kong e os primeiros jogos do Mario Bros.. Conforme os saltos ficaram mais exagerados, o personagem também passou a sobreviver a quedas maiores, criando uma lógica própria dentro do universo do jogo.
Para Miyamoto, esse conceito representa uma espécie de “vida cotidiana irreal”, ou seja, mundos que parecem possíveis, mas que permitem acontecimentos estranhos dentro de regras claras que o jogador aceita.
Desenhos como Tom e Jerry inspiraram jogos da Nintendo
A busca por esse tipo de mundo levou a Nintendo a buscar inspiração fora dos videogames. De acordo com Miyamoto, comédias clássicas e animações antigas ajudaram a moldar a forma como a empresa pensava suas mecânicas de jogo.
Entre as referências citadas pelo criador de Mario estão produções de comédia física e desenhos animados como Tom e Jerry. Nesses desenhos, personagens fazem coisas impossíveis, sobrevivem a situações absurdas e interagem com o ambiente de maneiras exageradas, mas tudo acontece dentro de uma lógica que o público aceita.
Essa abordagem ajudou a definir a identidade de muitos jogos da Nintendo. Em vez de tentar reproduzir o mundo real com precisão, os jogos da empresa passaram a apostar em mecânicas exageradas e mundos fantásticos que ainda assim parecem naturais dentro de suas próprias regras.

