Eu tinha dezessete anos quando joguei meu primeiro Final Fantasy. Era o IX, num PS1 emprestado do vizinho, com aquele controle amarelado de tão usado. Lembro que passei a noite inteira tentando entender por que a Vivi me fez chorar — era um bonequinho de pixel com chapéu pontudo, pelo amor. Não deveria funcionar. Mas funcionou.
Quinze anos depois, os JRPGs estão de volta com uma força que ninguém previa. E dessa vez, não é nostalgia. É porque os jogos são genuinamente bons.
O Que Mudou Entre 2015 e 2026
Tinha uma época, lá por 2013-2015, em que falar que você gostava de JRPG era quase pedir desculpa. “Ah, eu sei que é nichado, mas…” A gente se justificava. Os grandes publishers japoneses estavam perdidos — a Square Enix levou dez anos para lançar o Final Fantasy XV e o resultado foi um road trip bonito com um combate meio bagunçado. A Atlus era cultuada mas pequena. A Falcom? Ninguém no Brasil sabia quem era.
Aí veio Persona 5 em 2017 e mudou tudo. Um JRPG de cem horas, com estética de revista de moda, sistema de turnos que ninguém achava ultrapassado, e uma trilha sonora de jazz que ficou na minha cabeça por meses. Vendeu milhões. Virou fenômeno cultural. De repente, gostar de JRPG não precisava de justificativa.
Mas o verdadeiro ponto de virada foi 2024-2025. Metaphor: ReFantazio provou que a Atlus consegue criar IP nova sem depender da marca Persona. Final Fantasy VII Rebirth escreveu o significado de “remake” com um sistema de combate que mistura ação em tempo real com estratégia de turno. E Trails Through Daybreak II pagou uma década de storytelling serializado com um payoff emocional que deixou fãs em lágrimas.
Os Números Não Mentem
Vamos ser diretos: JRPG virou negócio grande. Persona 5 Royal vendeu mais de quatro milhões em múltiplas plataformas. Elden Ring — que, sim, é japonês, mesmo que pareça ocidental — vendeu vinte e cinco milhões em dois anos. Dragon Quest XI ultrapassou sete milhões. Xenoblade Chronicles 3 vendeu mais que os dois anteriores combinados no primeiro ano.
O mercado brasileiro acompanhou essa tendência. A comunidade de JRPG no Brasil cresceu absurdamente nos últimos cinco anos, impulsionada por YouTubers como o pessoal do canal BRKsEDU, grupos enormes no Facebook e Discord, e a chegada de legendas em português em títulos como Persona 3 Reload.
Para quem quer entender como a franquia mais icônica do gênero evoluiu ao longo de quase quatro décadas, o site Icicle Disaster — um podcast e blog gringo dedicado exclusivamente a JRPGs — publicou rankings e análises detalhadas que valem a leitura. É o tipo de conteúdo de nicho que só alguém que realmente joga esses jogos consegue produzir.
O Que Faz Um JRPG Funcionar Em 2026
Não é mais só sobre combate por turnos e pelo espetado. Os JRPGs que estão funcionando agora compartilham algumas características que os separam do resto:
Sistemas de combate que respeitam o jogador. Ninguém mais aceita ficar apertando X repetidamente por oitenta horas. Os melhores jogos de 2025-2026 exigem que você pense — posicionamento, troca de classe, timing de habilidades, sinergia de party. Metaphor: ReFantazio tem um sistema de arquetipos que mistura job system com social links. Final Fantasy VII Rebirth tem sinergias entre personagens que transformam combate básico em coreografia.
Histórias que tratam o jogador como adulto. Os Trails não têm medo de gastar quarenta horas construindo tensão política antes de soltar a primeira cena de ação grande. Persona 5 fala sobre corrupção institucional, abuso de poder e o peso psicológico de confrontar autoridade. Esses jogos confiam que o jogador vai aguentar a lentidão se a recompensa narrativa valer a pena.
Trilhas sonoras que carregam o peso emocional. Tira a música de qualquer JRPG bom e ele perde metade do impacto. A trilha de Chrono Cross. Os temas vocais de Xenoblade 3. O jazz de Persona. Poucos gêneros investem tanto em composição musical quanto os JRPGs, e isso não é acidente — é uma decisão de design que reconhece que emoção funciona melhor quando chega pelos ouvidos antes de chegar pelos olhos.
A Pergunta Que Todo Mundo Faz: Por Onde Começar?
Essa é a parte que me perguntam toda semana no Discord: “Quero começar a jogar JRPG, por onde vou?” E a resposta depende completamente do que a pessoa quer.
Se quer ação rápida: Final Fantasy VII Rebirth ou Ys VIII. Se quer estratégia por turnos: Persona 5 Royal ou Octo Path Travel. Se quer história longa que se desenrola como uma série de TV: a saga Trails, começando por Trails in the Sky FC. Se quer algo curto para testar: Chrono Trigger (quinze horas) ou I Am Setsuna (vinte horas).
Uma lista completa dos melhores JRPGs ranqueados ajuda muito nessa decisão, especialmente pra quem quer entender como as grandes franquias se comparam entre si. Mas a verdade é que não existe ponto de entrada errado. O gênero é tão variado que qualquer porta funciona — o importante é entrar.
O Futuro É Híbrido
O que me anima sobre os próximos anos é que a barreira entre “JRPG” e “RPG ocidental” está derretendo. Baldur’s Gate 3 tem mais em comum com Persona do que com Baldur’s Gate 2 em termos de design de companheiros. Elden Ring é um JRPG de mundo aberto que parece um RPG ocidental. Dragon’s Dogma 2 foi feito no Japão mas poderia ter saído de um estúdio europeu.
Essa mistura é saudável. Os JRPGs estão pegando o melhor do design ocidental — mundos abertos, escolhas com consequência, criação de personagem — e os RPGs ocidentais estão pegando o melhor do design japonês — sistemas de combate profundos, narrativas emocionais, trilhas sonoras que ficam na sua cabeça.
O resultado é que 2026 é provavelmente o melhor ano para ser fã de RPG em geral. Não importa de que lado do Pacífico você prefere. Tem jogo bom saindo de todo lugar.
Considerações Finais
Os JRPGs não estão “de volta” porque nunca realmente foram embora. O que mudou foi a percepção. O mundo finalmente alcançou o que os fãs do gênero sabiam há décadas: que histórias longas valem a pena, que combate estratégico é satisfatório, que uma trilha sonora pode fazer você chorar mais do que qualquer cutscene.
Se você nunca jogou um JRPG e chegou até aqui, considere isso um convite. Escolhe qualquer um dos jogos que mencionei, dá uma chance de cinco horas, e vê se a Vivi não te faz chorar também.
Ele provavelmente vai.

