O jornalista Jason Schreier, da Bloomberg, revelou no podcast Triple Click que diversos líderes de estúdios da Xbox “absolutamente detestam” o Game Pass, acusando o serviço de destruir o valor comercial dos jogos que produzem. Segundo Schreier, o modelo de assinatura teria contribuído para desvalorizar toda a indústria de games ao oferecer títulos completos por uma fração do preço de compra tradicional.
O exemplo citado por Jason Schreier
Schreier usou o jogo South of Midnight como exemplo prático do problema: mesmo sem aclamação unânime da crítica, o título conquistou fãs fiéis, mas seu preço de 40 dólares na loja perdeu completamente o sentido quando comparado à opção de jogá-lo por uma assinatura mensal de 15 a 20 dólares no Game Pass. “Isso aconteceu com muitos jogos, e existem muitas pessoas na liderança de estúdios da Xbox que absolutamente detestam o Game Pass e acham que ele destruiu o valor de seus jogos”, afirmou o jornalista, completando que, ao contrário da Netflix, cujo catálogo não pode ser comprado separadamente, os jogos do Game Pass competem diretamente com sua própria versão de varejo.
O cenário que motivou a repercussão
As declarações ganharam ainda mais peso após a onda de demissões em massa na Xbox, que prevê o corte de 3.200 funcionários até julho de 2027, além de impactos ocultos em parceiros de codesenvolvimento e fornecedores terceirizados. Um relatório recente também revelou que a base de assinantes do Game Pass encolheu de 34 para 30 milhões, reforçando as dúvidas sobre a sustentabilidade do serviço, enquanto o CEO da Moon Studios, Thomas Mahler, já havia opinado publicamente que o Game Pass “poderia ter funcionado”, mas a Xbox nunca entregou os grandes sucessos que um serviço de assinatura precisaria para se manter saudável.
A apuração de Jez Corden
Buscando entender melhor esse sentimento dentro da própria Xbox, o jornalista Jez Corden, da Windows Central, conversou com fontes próprias que confirmaram o relato de Schreier. Um ex-líder de estúdio da Xbox foi direto: “Dar jogos de graça no Game Pass desde o primeiro dia manda a mensagem para os consumidores de que os jogos não têm valor de mercado inerente. Isso quase cria a suposição de que esses títulos não conseguiriam vender por conta própria. Parecia uma corrida para o zero.”
O mecanismo de compensação por trás do Game Pass
Outra fonte ouvida por Corden, com conhecimento profundo da estratégia do serviço, explicou que a ideia original era oferecer aos jogos principais um fluxo de receita estável, já que cada vez mais jogadores optam por títulos free-to-play ou esperam por grandes descontos em plataformas como a Steam. Segundo essa fonte, a Xbox utiliza uma fórmula de engajamento para distribuir os lucros do Game Pass entre os estúdios, mas várias figuras dentro das equipes reclamam da falta de transparência desse cálculo, já que bônus tradicionalmente estavam ligados a vendas diretas, e não a métricas vagas de “engajamento”.
Sinais de mudança no modelo de negócio
Schreier acredita que o Game Pass não vai desaparecer, mas a Microsoft provavelmente vai abandonar a disponibilidade no dia de lançamento para seus maiores jogos, já que isso deixou de fazer sentido financeiro — algo que já começou a ocorrer com a franquia Call of Duty. Corden especula que a solução pode passar por um modelo de “monte sua própria assinatura”, no qual jogadores pagariam um valor extra por franquias específicas como Call of Duty, Forza Horizon ou até assinaturas isoladas de World of Warcraft e Minecraft, dentro de um cenário em que as margens da Xbox já vêm sendo pressionadas por tarifas, problemas de cadeia de suprimentos e a crise global de memória RAM.
O legado da era Phil Spencer em risco
O Game Pass foi peça central da identidade da Xbox durante praticamente uma década sob a liderança de Phil Spencer, que defendeu o serviço até mesmo contra a resistência de sua própria equipe interna. Agora, sob o comando de Asha Sharma, que sequer mencionou o Game Pass com destaque em suas comunicações recentes sobre a reestruturação da divisão, a permanência do modelo como conhecemos hoje parece cada vez mais incerta — especialmente após o aumento de preço para 30 dólares no ano passado já ter provocado a saída de milhões de assinantes.
Fica evidente que a Microsoft está reavaliando cada alavanca possível para recuperar margens dentro da Xbox, e o Game Pass, que por anos foi tratado como intocável, agora aparenta estar na mira de ajustes profundos. A grande questão que resta é se a empresa vai conseguir equilibrar a insatisfação interna dos estúdios com a expectativa dos consumidores, que ainda veem o serviço como um dos poucos motivos reais para permanecerem fiéis ao ecossistema Xbox.


