Silent Hill f e Fatal Frame compartilham uma visão de horror profundamente ligada à cultura japonesa. Em uma entrevista conjunta, Motoi Okamoto, produtor de Silent Hill f, e Makoto Shibata, diretor de Fatal Frame, discutiram por que cenários tradicionais, memórias pessoais e protagonistas femininas ajudam a criar experiências tão marcantes no gênero. A entrevista foi concedida ao Famitsu durante a divulgação do DLC crossover que adiciona trajes de Fatal Frame a Silent Hill f.
Para os dois criadores, a arquitetura japonesa tem um papel importante na construção do medo. Shibata explicou que várias casas vistas em Fatal Frame foram inspiradas nos imóveis onde viveu durante a infância, incluindo residências de parentes. Seu avô era carpinteiro e costumava ampliar as casas sem seguir necessariamente um planejamento uniforme, criando ambientes com extensões, passagens e divisões pouco convencionais.
Essa experiência pessoal ajudou a formar os cenários de Fatal Frame, que frequentemente apresentam corredores estreitos, cômodos conectados de maneira inesperada e plantas difíceis de compreender. Okamoto concordou que o realismo desses espaços pode intensificar a sensação de desconforto, especialmente para criadores japoneses que reconhecem elementos familiares naquele tipo de construção.
Os dois chegaram à conclusão de que existe uma estranheza própria nos pisos e nas plantas das casas japonesas que não costuma aparecer da mesma forma na arquitetura ocidental. No caso de Shibata, até os sonhos serviram como fonte de inspiração. Ele contou que algumas áreas dos jogos eram desenvolvidas a partir de lugares imaginados durante o sono, incluindo caminhos que ele conhecia apenas parcialmente.
Outro ponto debatido foi o uso recorrente de mulheres como protagonistas e entidades sobrenaturais no horror japonês. Okamoto descreveu essa escolha como uma espécie de tradição do gênero e citou Heather, de Silent Hill 3, como exemplo. Shibata afirmou que coloca mulheres tanto no papel de personagens jogáveis quanto no de inimigas para explorar diferentes perspectivas sobre medo e violência.
Na visão do diretor, personagens masculinos costumam ser associados a respostas mais diretas, como derrotar ou selar uma ameaça. Já as mulheres podem ser retratadas de maneiras mais variadas: misteriosas, assustadoras, vulneráveis e fascinantes ao mesmo tempo. A opressão sofrida por elas em uma sociedade patriarcal também pode se transformar em ressentimento, permanecendo mesmo depois da morte.
Okamoto e Shibata ainda demonstraram otimismo com o retorno do horror japonês ao centro das atenções. O sucesso de obras ambientadas no Japão, como Silent Hill f, e a proposta de jogos diferentes, como Exit 8, são vistos pelos criadores como sinais de que há espaço para uma nova onda de produções do gênero. A combinação entre cenários reconhecíveis, experiências culturais específicas e terror psicológico continua sendo um dos maiores diferenciais dessas franquias.


