Kazuhisa Wada, chefe do estúdio P-Studio na Atlus, tem uma mensagem clara para quem acha que RPGs por turnos estavam mortos: nunca estiveram. Em conversa com a Game Informer, o responsável pela série Persona explicou que o que muitos chamam de “ressurgimento” é na verdade uma redescoberta de algo que nunca desapareceu, mas simplesmente saiu do foco da indústria ocidental.
“O que estamos chamando de ‘ressurgência’ pode ser simplesmente a redescoberta de coisas que caíram fora do nosso campo de visão”, afirma Wada, reconhecendo que sua posição “pode soar um pouco contrária”. Ele atribui a percepção renovada ao impacto de recentes jogos aclamados pela crítica que trouxeram atenção renovada ao gênero, com destaque implícito para títulos como Clair Obscur: Expedition 33 e Baldur’s Gate 3, ambos indicados a prêmios de melhor jogo do ano.
O Mito do Desaparecimento

A perspectiva de Wada é especialmente interessante quando se considera que a percepção de declínio é fundamentalmente ocidental. Desenvolvedoras japonesas nunca abandonaram o sistema de combate por turnos, gênero que afinal nasceu com clássicos como Final Fantasy e Dragon Quest. O que mudou foi a tendência global em direção a sistemas de ação ou híbridos, levando muitos a assumir que o turn-based virou coisa do passado.
Aquilo que realmente despertou atenção foi Clair Obscur vindo de um estúdio francês como Sandfall Interactive. A mistura única de influências ocidentais com design de combate que lembrasse JPRGs tradicionais criou algo que chamou a atenção precisamente por ser inesperado naquele contexto.
Wada insiste que “o sentimento de exaltação e realização que a jogabilidade por turnos pode oferecer sempre esteve ali” e permanece sendo um “apelo atemporal dos jogos”. O desenvolvedor critica a narrativa de que sistemas turn-based se tornaram “fósseis” apenas porque desenvolvedoras seguiram tendências em vez de refinar designs de alta qualidade dentro do gênero.
O Catálogo Que Nunca Parou de Crescer

A verdade incômoda é que RPGs por turnos continuaram sendo lançados regularmente. Octopath Traveler, Bravely Default, Shin Megami Tensei, The Legend of Heroes, Digimon Story, Monster Hunter Stories e Like a Dragon (após sua mudança para turn-based) mantiveram a chama acesa. Sem contar uma avalanche de indies como Demonschool, Chained Echoes e Sea of Stars que provaram que há audiência e talento para o formato.
O que mudou não foi a existência desses jogos, mas sua posição nas conversas mainstream. Final Fantasy abandonou turnos, Dragon Quest demorou para anunciar seu próximo título, e Persona esperou anos por um novo jogo principal. Quando as franquias gigantes saem de cena, o vazio é real, mas não porque o gênero morreu.
Wada tem razão em sua análise: turn-based RPGs nunca precisaram ressurgir porque nunca morreram. O que mudou foi a atenção da indústria ocidental, algo que alguns blockbusters bem executados conseguiram restaurar. Mas isso não diminui a importância do que foi mantido vivo por estúdios menores e dedicadas comunidades de fãs.


