Don’t Call Me Anymore convida o espectador a observar de perto um retrato desconfortável e atual de relações afetivas marcadas pela dependência emocional e por jogos de poder. Exibido no T.I.F.A (– Tietê International Film Awards), um festival internacional dedicado à circulação e valorização do cinema independente de autor, o curta-metragem integra um contexto de obras que priorizam riscos narrativos e temas sociais contemporâneos.
O filme acompanha Galina, uma mulher que atravessa uma profunda crise emocional após o fim de seu relacionamento com Pasha. Incapaz de aceitar o término, ela passa a orquestrar uma série de manipulações e jogos psicológicos na tentativa de reacender a relação. Ao longo do processo, revela-se não apenas a toxicidade do vínculo, mas também a forma como Galina se aprisiona voluntariamente em um ciclo de autossabotagem. A narrativa conduz a personagem a um ponto de ruptura em que a libertação não está em reconquistar o outro, mas em romper definitivamente com a dinâmica que a está destruindo.
O principal mérito de Don’t Call Me Anymore está na forma direta e sem concessões com que aborda relacionamentos tóxicos. O roteiro evita romantizar comportamentos abusivos ou de dependência, tratando a manipulação emocional como um sintoma de fragilidade e medo, e não como prova de amor. Essa escolha confere maturidade ao filme e o distancia de abordagens mais superficiais do gênero romântico, alinhando-o a uma vertente de dramas psicológicos que priorizam a observação crítica do comportamento humano.
A direção de Denis Chereukho demonstra segurança ao optar por um drama com tom absurdista, utilizando situações aparentemente exageradas para expor as contradições internas da protagonista. Esse recurso amplia o impacto psicológico do filme e traduz de forma eficaz o estado mental fragmentado de Galina. A linguagem visual acompanha essa proposta: a câmera se aproxima frequentemente da personagem, utilizando closes, movimentos contidos e composições que reforçam a sensação de claustrofobia emocional. A estética do filme prioriza ambientes pouco acolhedores e uma iluminação que reflete estados emocionais, em vez de uma representação realista do espaço, reforçando o caráter subjetivo da narrativa.
A trilha sonora desempenha um papel central na construção dessa atmosfera, atuando como uma extensão do conflito interno da protagonista. Com base na experiência adquirida em projetos premiados anteriores, a compositora Anastasia Listopadova aplica uma compreensão refinada de como a música pode funcionar como arquitetura psicológica, e não como simples acompanhamento. As escolhas sonoras se apoiam em texturas discretas, variações sutis de intensidade e momentos de tensão contida, criando um diálogo constante com as imagens. Em vez de guiar explicitamente as emoções, a trilha sustenta o desconforto e a instabilidade emocional, ampliando o peso das cenas silenciosas e reforçando a sensação de repetição e aprisionamento que define a relação retratada. Essa abordagem reflete uma maturidade composicional desenvolvida em seus trabalhos anteriores, reconhecidos pela crítica, nos quais precisão, contenção e sensibilidade narrativa foram essenciais.
A atuação de Aleksandra Kiseleva é outro ponto forte. Sua interpretação sustenta o filme com naturalidade e precisão emocional, equilibrando momentos de controle e colapso sem recorrer ao melodrama excessivo. A linguagem corporal da atriz, influenciada por sua formação em dança, acrescenta camadas silenciosas à personagem, tornando gestos, pausas e movimentos tão expressivos quanto os diálogos, em consonância com a proposta estética do filme.
De modo geral, o filme Don’t Call Me Anymore se mostra uma experiência predominantemente positiva, especialmente para quem busca um drama psicológico honesto e provocador. Ao retratar relações tóxicas sem filtros ou soluções fáceis, o filme assume riscos narrativos que nem sempre agradam, mas que reforçam sua identidade autoral. Além de sua exibição no T.I.F.A, o filme também foi premiado no Independent Short Awards, Five Continents International Film Festival, East Village New York Film Festival e AIMAFF, destacando seu posicionamento como um lançamento aclamado no circuito de cinema independente.




