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Thief – Review

A serie Thief já teve seus períodos de glória, criando sua própria base de fãs e nicho do gênero.

O primeiro jogo da série, Thief: The Dark Project saiu cerca de 17 anos atrás e desde então tivemos 4 jogos da franquia que, aos poucos, foi sumindo e perdendo força.

Infelizmente eu conheci a série quando, através de uma promoção no ano de 2013, peguei o Thief: Gold, que definitivamente não envelheceu bem. Não só os gráficos, mas a mecânica do jogo era datada o suficiente para deixar o jogo, pra mim, impraticável.

E isso me deixou frustrado. Era um tipo de jogo que eu não havia experimentado, além de ser considerado um dos melhores de todos os tempos.

Eis que, em 2014, a Square Enix resolve dar um sopro de vida na franquia após o hiato de 10 anos.

Minha empolgação parou no preço de lançamento do jogo, mas prometi a mim mesmo que pegaria a versão completa na primeira promoção que aparecesse.

Nem mesmo Takedown me deixou tão frustrado.

A história é basicamente um recomeço da série, apresentando o nosso “herói” Garret, em seu mundo steampunk medieval victoriano centenas de anos após os eventos dos jogos originais.

Garret, um ladrão com habilidades incríveis, é contratado pra um roubo na casa de um Barão e acaba se deparando com sua ex-aprendiz, que é contratada com o mesmo intuito. O evento serve como um tutorial das mecânicas do jogo, já que os dois entram numa corrida para ver quem realiza o serviço primeiro.

Após uma série de contratempos, um erro da ex-aprendiz de Garret inicia o plot da trama, que envolve o Barão se tornando o ditador da Cidade(que é chamada assim mesmo no jogo), uma imensa disparidade social tomando conta do lugar e a praga “Melancolia” contaminando e deixando a vida dos pobres ainda mais desgraçada.

O jogo tem uma porrada de menções aos anteriores, em documentos, cartas e outros itens colecionáveis, sendo possível até mesmo encontrar o famoso olho mecânico de Garret, o que é um agrado bacana pra quem é fã e instiga ainda mais quem não é.

A história é de certa forma promissora, mas é desenvolvida de maneira ruim pelo jogo e acaba ficando na média. Você dificilmente vai jogar pela história, mas também não vai se incomodar com ela. Na maioria das vezes.

Mas eu não estava ali pela história. Minha grande vontade de jogar residia na vontade de conhecer e aproveitar das mecânicas de um jogo de stealth em primeira pessoa. Algo que eu não pude aproveitar com os primeiros jogos da série.

E o jogo falha. Infelizmente, ele falha.

Muito.

A locomoção de Garret é bem fluida, é até mesmo possível dar uma espécie de dash que é extremamente útil ao passar em ambientes iluminados e a escalada é ok. Não temos aqui um Mirrors Edge ou um Dying Light, mas não é algo que te deixe na mão, além do jogo deixar bem claro aonde você pode subir (utilizando uma garra obtida bem no começo do jogo) e aonde você não pode. E como ficar acima dos NPCs é o jeito mais fácil de não ser visto, essa mecânica funciona até que bem.

Aliás, esse é um dos problemas do jogo. Tudo funciona razoavelmente bem. Praticamente tudo é na média, nota cinco. Mas quando se tem os problemas de Thief, o jogo se transforma em medíocre, no sentido ruim da coisa.

Isso porque a inteligência artificial do jogo é terrível. Acho que “tenebrosa” é o termo mais correto e compatível, na verdade.

Mesmo nas dificuldades mais elevadas, um guarda que consiga te ver – acredite, você precisa estar na frente de um guarda acordado por uns bons dois segundos para que ele te veja e entre em estado de perseguição – vai esquecer que te viu cerca de 30 segundos depois. Trinta segundos!

E não importa em qual ocasião. Em certo momento do jogo você invade um complexo de segurança, que deveria ser altamente vigiado pelos guardas pela importância do que estava acontecendo ali e após um guarda te ver e te perseguir, se você conseguir se esconder, ele vai parar de te procurar em, no máximo, meio minuto. E no meio da fuga, o guarda vai estar gritando sobre a invasão, que tem intruso e tudo mais. E nenhum outro guarda escuta ou vai atrás. Nenhum.

Nesse mesmo complexo, existem alguns guardas dormindo. Por mais absurdo que seja isso, temos guardas dormindo. Mas tudo bem. Próximo a eles, geralmente temos alguns cacos de vidros que, se pisados em velocidade normal, ou seja, sem que você esteja andando lentamente, geram um barulho muito baixo, mas que acordam o guarda em questão.

Mas se um colega passa do lado dele se esgoelando, nada acontece.

Sem contar que não importa quantas vezes você entre no mesmo armário para se esconder, se o guarda não viu você entrando, ele não dá uma olhada. Não interessa se o lugar onde você se escondeu é única coisa no fim de um corredor sem saída. O guarda vai aceitar que você despareceu e voltar a dormir no lugar que estava antes.

Todas as mecânicas do jogo tem algumas falhas, mas são até aceitáveis. O combate é quase doloroso de ruim, mas completamente entendível. Garret pode por qualquer um pra dormir, mas só quando se chega por trás sem ser visto. No mano-a-mano ele até se vira bem, mas não chega a ser um lutador. E isso é ok, se a mecânica não fosse tão lamentável seria até um ponto positivo para o jogo.

No jogo você tem um sistema com de arco e flechas que funciona tanto para o ataque quanto para a defesa. É possível disparar uma flecha comum e matar um guarda – embora o jogo não te encoraje tanto a fazer isso – como também é possível usar flechas especiais para deixar um guarda tonto, apagar velas ou luminárias a distância, atrair guardas com o barulho, apagar luzes e etc. É bem simples, fácil de usar, mas não tem anda demais. E isso é ok, também.

Algumas vezes o jogo não entende certos comandos de locomoção e você acaba subindo num lugar errado, ou não conseguindo descer. Mas tudo bem, são falhas. Acontecem.

Mas quando a principal mecânica do jogo é uma porcaria, não está tudo bem. O jogo não constrói tensão nenhuma pois, se você for visto, é só fugir por alguns instantes, subir em algum lugar ou achar algum armário e esperar por trinta segundos. Os guardas não vão te procurar, não vão estar mais alertas. Não. Eles vão voltar a dormir porque é mais importante.

Eu acharia foda se, após ter visto o jogador, os guardas entrassem num estado permanente de alerta, penalizando o jogador descuidado e o obrigando a ser duas vezes mais cauteloso para prosseguir. Mas eu não exijo isso. Que demorassem um pouco mais para voltar ao normal, que apenas não voltassem a dormir. Que ouvissem o guarda a dois metros de distância berrando e acordassem.

Não é pedir muito.

Mas não. O pessoal da Square Enix optou por fazer os guardas o mais retardados possíveis. E se a meta era realmente essa, eu aplaudo de pé o sucesso do objetivo.

O jogo, mesmo sendo numa cidade “aberta” é muito linear, não existe muito o que se fazer. O que chega a ser um alívio, na verdade, já que o mapa do jogo é de utilidade nula. Mais atrapalha do que ajuda, na verdade.

Pra não dizer que o jogo todo é uma porcaria sem fim, ele é muito bem sucedido em te transformar em um cleptomaníaco compulsivo. Enquanto você atravessa os cenários, alguns objetos podem ser roubados. Jóias, castiçais, copos de cristal, tesouras… Tudo que parece ser feito de algum material valioso pode ser roubado e o jogo te incentiva a pegar esses itens de maneira tão sutil que, mesmo quando você está fugindo dos guardas retardados, você se pega rapidamente abrindo uma gaveta e pegando uma tesoura de prata.

Muito disso se deve a escolha inteligente design. Enquanto tudo no jogo tem um visual meio morto, opaco e escurecido, esses objetos brilham, são vívidos e claros. Se destacam absurdamente no cenário, do jeito que eu imagino que um mestre ladrão veja as coisas, mesmo, vendo de longe o que vale ou não ser pego.

No mesmo nível de diversão está roubar outras pessoas, já que é extremamente fácil chegar por trás de alguém e roubar os bolsos de trás. Seria uma mecânica chata de tão fácil, na verdade, mas em alguns cenários com mais gente, é possível fazer vários pequenos delitos em rápida sucessão, deixando extremamente dinâmico e recompensador.

Mas esse é praticamente o único ponto positivo do jogo. O que chega a ser irônico, já que a única coisa que realmente chega a ser divertido em um jogo chamado Thief é roubar.

O resto, infelizmente, não acompanha. Os gráficos são bacanas, as texturas e efeitos de luz são convincentes, mas a necessidade de manter tudo escuro para criar a atmosfera gótica quase não funciona. Os ambientes são muito escuros, mas a escuridão total – quando não há nenhum tipo de vela ou lamparina ligada – não é tão diferente. Não sei se foi pra facilitar a vida do jogador, mas o resultado final é a bizarrice de estar do lado de um NPC num ambiente que deveria ser de escuridão total mas não é, e mesmo assim você não ser visto.

O áudio não tem nada demais, as composições sonoras são esquecíveis e a dublagem é de médio para baixo. Como disse, não cheguei a aproveitar dos jogos anteriores, mas quem curtia o dublador original pode tirar o cavalinho da chuva. O novo dublador do Garret é… competente. Achei meio insosso, mas acredito que tenha sido mais culpa da direção do jogo, que transformou a personalidade marcante do personagem principal em algo quase genérico. A sincronia com a animação facial do personagem também não parece demonstrar que esse jogo é um AAA, e tira ainda mais pontos de Thief.

Por fim, esse não é o ponto de entrada ideal na série. Se você nunca jogou Thief, é melhor que procure nos jogos anteriores o porquê dela ser famosa.

Se você é um fã da série, talvez seja capaz de olhar através dos infinitos erros do jogo e captar um ou outro momento bacana. Mas nem mesmo o maior dos fanboys da serie vai achar que o jogo está sequer próximo do brilho dos anteriores.

Resumo para os preguiçosos

Thief é um jogo que nasceu para reanimar uma franquia que estava descansando por uma década. Infelizmente ele pode ter dado um golpe fatal, ou que pelo menos vai deixar a série na geladeira mais algum tempo. Com mecânicas de stealth quebradas, inteligência artificial tenebrosa e poucos bons pontos, Thief não chega nem perto do brilho dos antecessores.

Nota final

45
Saiba mais sobre os nossos métodos de avaliação lendo o nosso Guia de Reviews.

Prós

  • Muitas referências aos jogos anteriores
  • Roubar nunca foi tão divertido

Contras

  • Inteligência artificial pífia
  • História mal desenvolvida
  • Não responsivo algumas vezes
  • Dublagem fraca

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