Resident Evil Village (8) – Review

Depois de retonar ao lar com Resident Evil 7, jogo que é quase um soft reboot da franquia, a Capcom deu andamento às ideias e conceitos em Resident Evil Village (8), levando a história para um remoto vilarejo nos confins da Europa acompanhando a saga de Ethan Winters, Mia, a filha do casal e um Chris Redfield que a princípio parece irreconhecível em suas atitudes.

Atenção: este review está livre spoilers da história do jogo

Resident Evil Village é a continuação direta da história de Resident Evil 7, passando-se 3 anos após os acontecimentos na cidade de Dulvey na Louisiana. Ethan e Mia foram colocados sob proteção e enviados para iniciar uma nova vida na Europa e lá eles tiveram uma filha, Rose. Dessa forma procuraram seguir com suas vidas mas as lembranças do terror vivido por ambos ainda os atormentavam. Eis que em uma noite qualquer, após colocar Rose para dormir, Ethan e Mia discutem no jantar sobre o passado mas são interrompidos por um trágico evento que leva ao início da jornada de Ethan no jogo.

Isso o leva diretamente para a Vila, um estranho e labiríntico local no interior da Europa que é regido por Mãe Miranda e por seus quatro “filhos”, os lordes Alcina Dimitrescu, Dona Beneviento, Salvatore Moreau e Karl Heisenberg. Cada um deles possui a sua própria área de domínio dentro do jogo – todas elas acessadas pela Vila, por onde Ethan deve enfrentar desafios para resolver os mistérios envolvendo Mia, Rose, Chris Redfield e mãe Miranda.

Velhos conceitos, nova roupagem

Village possui muitos conceitos reaproveitados e reciclados de outros jogos da franquia, especialmente de Resident Evil 7 e Resident Evil 4.

Uma vila remota na Europa regida por uma pessoa poderosa e misteriosa e que conta com alguns Lordes como protetores? Não à toa e muito menos por coincidência isso lembra a estrutura de RE4.

Diferentes áreas com desafios diversos onde você deve sobreviver e encontrar respostas para o que está acontecendo? Essa semelhança também segue a estrutura de progressão de RE7 – que por sua vez já busca essa mesma inspiração em RE1.

Os dois jogos citados são de fato a base para a construção da narrativa, da progressão e até mesmo do gameplay de Village. A nova roupagem dada a estes elementos culmina em uma combinação intrigante e que é bastante satisfatória para o jogador. A sensação de progressão aliada aos retornos esporádicos à Vila para acessar novas áreas fazem com que sempre fique aquele gostinho de “vou jogar só mais 10 minutos para chegar na próxima área”, e de dez em dez minutos é fácil passar horas no jogo descobrindo novos segredos, enfrentando desafios e acessando áreas que antes eram inacessíveis.

Outro aspecto que ajuda muito nessa progressão são justamente as diferentes áreas do jogo. Diferentes não apenas em seus cenários mas também nos desafios. Você irá passar por momentos de extrema tensão com batalhões intermináveis de inimigos, e também em momentos de puro suspense e frio na espinha através de corredores tétricos e cheios de puzzles em que o desafio é controlar as emoções e manter a calma.

Há uma grande variedade de gameplay dentro de Village: combate intenso e alucinado, furtividade, resolução de puzzles, terror psicológico, velocidade de raciocínio… isso pode remeter a um outro jogo da franquia que tentou fazer de tudo um pouco mas sem muito sucesso, mas ao contrário de Resident Evil 6, Village é extremamente competente em unir todos esses elementos tão distintos de forma bastante consistente e coerente.

Uma experiência sensorial

A variedade de cenários e de momentos do jogo é refletida de forma bastante importante no visual do game. Cada área foi cuidadosamente pensada e projetada para passar uma diferente sensação ao jogador, e isso é feito com construções de cenário belíssimas e um level design dos melhores já apresentados na franquia até hoje.

O jogador vai se sentir imerso em cenários como uma pobre e esquecida Vila, cheia de caminhos bloqueados e corredores labirínticos; um imponente e luxuoso castelo com áreas imensas e refinadas; os corredores estreitos de um calabouço; uma casa antiga no melhor estilo europeu, com papéis de parede desbotados e abarrotada de objetos envelhecidos; entre diversas outras áreas minuciosamente construídas para passar diferentes sensações.

Essas diferentes sensações encaixam perfeitamente com a variedade de gameplay proposta pelo jogo, e a ambientação se une às mecânicas de forma tão suave e orgânica que é quase como se fossem um casal que fazendo uma dança que passa por diferentes ritmos mas sem nunca perder o sincronismo dos passos.

Além desse encaixe perfeito entre ambientação e gameplay, fruto de um trabalho de level design impecável, Village é um jogo visualmente deslumbrante – mesmo sendo jogado em um PS4 base. Cenários absolutamente detalhados, onde cada pequeno elemento parece estar ali por um motivo e não simplesmente por estar. O nível de detalhes de cada área do jogo sem dúvida foi cuidadosamente projetado para ser a cereja do bolo da ambientação, e resulta em um jogo onde é possível passar horas e horas apenas apreciando os diferentes detalhes que compõe cada área do game.

Se os visuais do jogo são de enxer os olhos, a parte de sonorização é outro ponto de imenso destaque. Vozes e efeitos em primeiro plano ajudam a guiar o jogador através de uma atmosfera assustadora e opressora, enquanto que os sons de fundo, algumas vezes quase imperceptíveis trazem um peso ainda maior para a atmosfera do jogo e deixam o jogador num constante estado de alerta, preparado para meter o dedo no gatilho ou então correr do perigo como se não houvesse amanhã.

Se você tiver a possibilidade, jogue Resident Evil Village com um bom headset. A experiência ganha muitos pontos de imersão dessa forma e você poderá aproveitar o jogo em todo seu explendor técnico e vivenciar quase que na pele os sons que atormentam Ethan em toda a sua jornada.

Um passo na outra direção…

Quando Resident Evil 7 foi lançado, muito se falou sobre o quão bom o jogo era, mas que ele estava muito longe de ser um Resident Evil de verdade. Eu discordei fortemente disso, até porque RE7 tem inspirações fortíssimas em RE1, e apesar de iniciar um novo arco na franquia e de ser um jogo em primeira pessoa, ele mantinha toda a essência de survival horror característica de Resident Evil.

Com Village, esse tipo de discussão vem a tona ainda mais forte do que com seu antecessor. A verdade é que apesar de manter a essência de Resident Evil com exploração, backtracking, itens escassos, muitos puzzles, suspense e diversos outros elementos de survival horror, Village dá um passo na direção oposta da franquia ao menos no quesito enredo.

O elo de ligação do jogo com o core da franquia é bastante frágil. Isso não faz de Village um jogo ruim, pelo contrário, comparando-o diretamente com RE7 ele é um jogo muito melhor em praticamente todos os aspectos, exceto pela ligação com o restante da franquia, e isso com certeza vai despertar algumas reações adversas nos fãs mais irritadiços.

Muito vai se falar nos próximos meses sobre Village ser um excelente jogo e um péssimo Resident Evil, e apesar de todos os argumentos relacionados à mecânicas, ambientação, clima e gameplay o fator história tende a pesar bastante nesse aspeco. Eu sinceramente fiquei com um mixed feelings logo após terminar o jogo: adorei o gameplay, a progressão e tudo que vivenciei na jornada de Ethan, mas a história do jogo – principalmente sua (falta de) ligação com o restante da saga me decepcionaram um pouco.

Outro ponto a ser levantado como negativo é a quantidade de “absurdos” que acontecem no jogo. Okay… Resident Evil não é necessariamente uma franquia que se pauta pelo realismo, mas até dentro desse cenário Village vai um pouco além da conta, e mesmo todos os eventos absurdos sendo explicados de forma relativamente satisfatória nos acontecimentos do jogo, fica aquele quê de “WTF?”.

Olhos no futuro

Está mais claro do que nunca que Resident Evil agora segue em duas linhas: uma mais voltada para os fãs da antigos e saudosistas que é capitaneada pelos recentes remakes de Resident Evil 2 e Resisdent Evil 3, e caminha a passos firmes em direção ao fã service e para a nostalgia.

A outra linha vai na direção do futuro, abandonando muitos dos conceitos que impediram a franquia de inovar e de se desprender de personagens e resoluções cansados e usados à exaustão. Essa linha iniciada em Resident Evil 7 e agora reforçada por Village, parte rumo a um futuro cheio de possibilidades e ao mesmo tempo bastante incerto e que vai despertar muitos questionamentos e dúvidas nos fãs.

Esse tipo de situação tende a criar ainda mais divisão e dissidência entre os fãs de uma franquia com um público já tão dividido e segregado. Embora Village seja um jogo corajoso e cheio de méritos, a aposta da Capcom foi bastante alta principalmente por conta das pontas que o game deixa, colocando em xeque o futuro da franquia como a conhecemos.

Personagens, temática, histórias, possibilidades… todos esses pontos ficam em suspenso após o desfecho de Village, o que pode ser um grande acerto ou um erro catastrófico dependendo da recepção dos fãs e das decisões que a empresa tomará para a franquia ao longo dos próximos anos.

Mas e aí, Resident Evil Village vale a pena?

Village evolui e melhora praticamente todos os aspectos e conceitos iniciados em Resident Evil 7, exceto pela sua história e pela forma como ela se conecta com a franquia como um todo.

O game é fortemente inspirado em conceitos e mecánicas de seu antecessor, Resident Evil 7, e também de Resident Evil 4. Mistura com muita competência e revisita vários desses conceitos criando uma experiência de survival horror bastente competente e imersiva.

O jogo apresenta imensos acertos, como por exemplo um dos melhores level design já vistos na franquia. Cenários belíssimos, toneladas de exploração e uma progressão que é extremamente convidativa para o jogador seguir com o joystick grudado na mão e olhos e ouvidos atentos à tudo que acontece no jogo. Village é acima de tudo uma experiência sensorial, para ser vista, ouvida e sentida em seus mínimos detalhes.

Os principais pontos negativos ficam por conte de sua frágil ligação com o passado da franquia, e com algumas boss battles sem inspiração.

É um excelente jogo de surival horror e uma experiência que vale a pena ser jogada. Se o game é um bom Resident Evil no âmbito geral da franquia somente o tempo e as futuras decisões da Capcom vão dizer.


O jogo foi analisado no PlayStation 4 em uma cópia cedida pela Capcom-Unity Brasil. As opiniões contidas no texto refletem os pensamentos do autor da análise e não do Critical Hits como um todo.

Resumo para os preguiçosos

Village evolui e melhora praticamente todos os aspectos e conceitos iniciados em Resident Evil 7, exceto pela sua história e pela forma como ela se conecta com a franquia como um todo.

O game é fortemente inspirado em conceitos e mecánicas de seu antecessor, Resident Evil 7, e também de Resident Evil 4. Mistura com muita competência e revisita vários desses conceitos criando uma experiência de survival horror bastente competente e imersiva.

O jogo apresenta imensos acertos, como por exemplo um dos melhores level design já vistos na franquia. Cenários belíssimos, toneladas de exploração e uma progressão que é extremamente convidativa para o jogador seguir com o joystick grudado na mão e olhos e ouvidos atentos à tudo que acontece no jogo. Village é acima de tudo uma experiência sensorial, para ser vista, ouvida e sentida em seus mínimos detalhes.

Os principais pontos negativos ficam por conte de sua frágil ligação com o passado da franquia, e com algumas boss battles sem inspiração.

É um excelente jogo de surival horror e uma experiência que vale a pena ser jogada. Se o game é um bom Resident Evil no âmbito geral da franquia somente o tempo e as futuras decisões da Capcom vão dizer.

Nota final

80
Saiba mais sobre os nossos métodos de avaliação lendo o nosso Guia de Reviews.

Prós

  • Visual belíssimo e sonorização e impecável
  • Mecânicas de jogo bem polidas e intuitivas
  • Um dos melhores level design de toda franquia
  • Desenvolvimento do enredo
  • Alguns bons antagonistas
  • Backtracking
  • Mapas labirínticos

Contras

  • Muitas coisas non-sense na história (mesmo para um RE)
  • Arco da história tem uma ligação muito forçada com o restante da saga
  • Design de transformação de bosses sem criatividade
  • Batalhas megalomaníacas
  • Cena final deixa um grande “WTF” na cabeça do jogador

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