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Ori and the Blind Forest – Review

Muita gente já pediu um review de Ori and the Blind Forest aqui no site, logo, imaginei eu que o jogo fosse bom. As análises extremamente positivas no Steam fizeram minhas espectativas aumentarem bastante, e suas indicações no The Game Awards 2015 a melhor jogo de ação e aventura, melhor indie, melhor trilha sonora e o prêmio de melhor direção de arte realmente me convenceram de que se tratava de um grande título, então decidi que este jogo merecia ter seu review no Critical Hits, mesmo que um ano atrasado, e aqui estamos nós.

Ori and the Blind Forest é um jogo de plataforma 2D metroidvania desenvolvido pelo estúdio independente Moon Studios e publicado pela Microsoft Studios. O jogo chama bastante atenção pelo seu visual, mas promete além dele uma trilha sonora, jogabilidade e história que conquistem qualquer jogador.

Logo no prólogo da história Ori and the Blind Forest já mostra a que veio. Nos primeiros dez minutos testemunhamos o nascimento de uma relação fraternal que é simplesmente perfeita. Dois personagens com características e visuais únicos, totalmente diferentes entre si compartilham um amor igual e como é de se esperar, são separados pela vida. A história dos dois termina de um jeito triste, melancólico e marca o fim de uma vida e o início de outra.

A floresta em que Ori vive, Nibel, perdeu sua luz, ficou cega – daí o título do jogo – e o nosso lêmure brilhante é o único que pode devolver o brilho a ela. Para tanto, Ori deve restaurar os três elementos da luz (água, vento e calor) que entraram em colapso junto com Nibel. Cada um destes elementos estão em áreas específicas da floresta, escondidos no meio da podridão que a tomou e guardados pelas pragas que vieram com ela.

Durante sua aventura Ori encontra diversos personagens, um deles é Sein, uma pequena bolinha luminosa que é a luz e os olhos da árvore espírito, a fonte de vida de Nibel. Ele é quem acompanha Ori em sua jornada e explica tudo sobre o vasto mundo que o jogo possui. A vastidão deste mundo é explicita não apenas no tamanho do mapa, mas pelas espécies que encontramos durante o caminho, por todas as criaturas que vivem e viveram em Nibel, por toda a história que já existiu e que está sendo escrita. O jogo mostra que consegue ser grande muito além do tamanho físico, Ori and the Blind Forest é grande de espírito.

Além de companheiro e guia, Sein é também quem ajuda Ori a se defender, a bolinha de luz permite que nosso personagem a use para golpear qualquer criatura que o ameace, tornando-se assim a Chama Espiritual. Com poucos minutos de jogo já percebemos que a jogabilidade será bem diferente de tudo o que já vimos. O estilo de luta é encantador, consegue nos deixar temerosos, animados e maravilhados a cada inimigo novo, a cada novo desafio.

Além de sua bolinha, Ori tem diversas outras habilidades que são separadas de uma forma bem inteligente. Há as habilidades ancestrais concedidas pelas árvores ancestrais, árvores espalhadas por Nibel onde repousam espíritos que não puderam lutar contra o mal que tomou a floresta. Tudo o que restou deles foram suas habilidades que podem ser absorvidas por Ori. Uma coisa simples neste aspecto, mas que me agradou muito foi o fato de Ori não simplesmente adquirir suas habilidades do nada, assim como todo o resto, há uma história por trás delas.

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Há outras habilidades que são separadas em três grupos: habilidades de eficiência, habilidades utilitárias e habilidades de combate. Para conseguir cada uma delas devemos coletar pontos de habilidade que também estão espalhados por Nibel. Cada um destes pontos está escondido em um lugar estratégico que, muitas vezes, necessita de uma habilidade ancestral para ser alcançado. Estas habilidades alteram o modo como Ori interage com os outros elementos do jogo podendo vencer inimigos mais facilmente, pular mais longe e até ver através de paredes.

Além destas habilidades, temos as células de vitalidade e as células de energia. As células de vitalidade, como o nome já diz, são nossa vida, e assim como os pontos de habilidade, podemos encontrar mais espalhadas por Nibel e assim expandir nossa vida. Já as células de energia são o que eu achei de mais criativo no jogo, pois elas nos permitem criar elos da alma e salvar o jogo em qualquer lugar desde que não hajam inimigos por perto, perigo ou solo instável. O jogo dá uma bela liberdade ao jogador de poder salvar o jogo onde bem entender, fazendo com que a real dificuldade dependa exclusivamente da nossa capacidade de escolher um bom lugar para criar um checkpoint.

Todas estas habilidades deixam o jogo extremamente divertido. Elas dão novas possibilidades que incentivam o jogador a explorar todo o mapa, a voltar lá pra onde Judas perdeu as botas só pra ver se sua nova habilidade possibilita que ele pegue o ponto de habilidade ou a célula de energia que antes eram inalcançáveis. A construção das fases foi feita de maneira estratégica de modo que o jogador deve usar tudo o que aprendeu e adquiriu até o momento para resolver os puzzles ou superar os obstáculos.

É muito divertido ver como tudo dentro do jogo funciona perfeitamente. Cada habilidade, o posicionamento e tipo de inimigos em cada ponto do jogo, assim como a localização de cada segredo instigam o jogador a usar sua criatividade e se matar várias vezes só para ver se aquele brilho é uma célula escondida ou se há ali uma parede secreta. São dezenas e dezenas de habilidades que usamos nos mais variados cenários que transformam o jogo numa experiência desafiadora, frustrante e satisfatória. Não usarei nenhuma habilidade como exemplo, quero que você tenha o mesmo sentimento de surpresa e excitação que eu tive toda vez que desbloqueava uma coisa nova.

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Para não ficar repetitivo, Ori and the Blind Forest coloca uma infinidade de inimigos para nos torrar a paciência, de aranhas a sapos cuspidores de ácido, corvos, larvas, rinocerontes, piranhas, espinhos, cobras, seres minerais, cada um destes seres do cramulhão exigem uma estratégia diferente para serem vencidos. Cada um deles funciona de maneira independente e única sendo que podemos nos utilizar de seus corpos ou projéteis para vencer outros inimigos ou acessar certas áreas do mapa. Eles ajudam e atrapalham, são amigos e inimigos ao mesmo tempo, fáceis e difíceis de serem vencidos, é simplesmente incrível como os desenvolvedores conseguiram fazer isso ser possível.

Os puzzles do jogo são mais um desafio à parte. Apesar dos inimigos, são os puzzles que realmente bloqueiam nosso caminho e há várias maneiras de passar por cada um deles. Alguns funcionam do estilo clássico de puxar/empurrar alavancas ou apertar botões, outros exigem que todos os inimigos do cenário sejam derrotados, outros que usemos um tipo específico de inimigo a nosso favor para superá-lo. Apesar de desafiadores, os puzzles são sempre muito claros em relação a o que o jogador deve fazer, mesmo sem nenhuma explicação sua composição nos diz exatamente do que precisamos e se podemos passar por ele agora ou se é melhor voltar outra hora.

Algumas (poucas) sequências do jogo baseiam-se no sistema de tentativa e erro. São longas áreas sem a opção de salvar onde o jogador deve usar todas as habilidades aprendidas até o momento para poder avançar. Um deslize é igual a morte e por mais que estas fugas consigam nos fazer arquejar de tão tensos e que seja extremamente gratificante chegar ao fim destas sequências, jogadores impacientes podem ficar frustrados com o excesso de mortes.

Ori and the Blind Forest é também muito recompensador aos jogadores que gostam de explorar. Não é permitido utilizar o mesmo save após terminar o jogo, o que significa que os jogadores que querem fazer tudo o que o jogo proporciona e obter tudo o que ele oferece devem fazê-lo enquanto estão jogando. Foi o primeiro jogo que me deu vontade de percorrer todo o mapa para coletar um item que me daria a possibilidade de obter uma nova habilidade, Ori foi feito de uma maneira que faz você querer jogá-lo, aproveitar a experiência, aproveitar o dinheiro gasto da melhor maneira possível.

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Percebeu quantas informações foram introduzidas nos últimos parágrafos? No jogo elas são apresentadas de maneira perfeita, fazendo com que o jogador compreenda claramente como cada coisa funciona e para que serve. No meio de todas essas informações, a narrativa do jogo continua a se construir, de maneira simples e linda, introduzindo mais personagens marcantes e carismáticos que têm sua própria história, mais coisas que acontecem por toda Nibel que afetam diretamente o nosso progresso, e em nenhum momento nos sentimos perdidos.

O jogo tem diversas áreas com características bem particulares e que guardam diferentes desafios cada vez mais difíceis para o jogador, todas são completamente ligadas por caminhos cheios de segredos e obstáculos que podemos visualizar através do mapa de Nibel. Para tornar estas áreas visíveis temos duas opções: andar sem rumo e ir descobrindo tudo por conta própria, ou completar as pedras do mapa espalhadas por Nibel que revelam o restante da área em que estamos. Dependendo das habilidades utilitárias que tenhamos obtido, no mapa também estarão visíveis células de vitalidade e energia e pontos de habilidade, o que torna nossa exploração um pouco menos difícil, mas não simples.

O jogo é bem difícil, mas não o difícil desleal. Ele só exige que você use com perfeição o que foi ensinado, se você não aprendeu direito problema seu, morra até conseguir passar. Esse tipo de dificuldade é muito bacana, é aquela dificuldade que não te deixa irritado, pois em cada morte pensamos “esse obstáculo é fácil, eu consigo passar por isso, só estou tentando da forma errada”. Mas por mais que a dificuldade seja justa, tenho que admitir que jogar no teclado aumenta ela bastante, o que no meu caso só deixou o jogo mais emocionante e desafiador.

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Eu poderia ficar mais 30 minutos falando de tudo o que este belíssimo jogo nos proporciona, mas não seria justo dar todos os detalhes para você que com certeza desejará jogá-lo após a leitura. A sensação de animação ao ganhar uma nova habilidade, a surpresa ao descobrir uma área secreta sem querer ou descobrir um tipo novo de inimigo, a satisfação de terminar um desafio que parecia impossível, até o simples alívio de conseguir criar um elo de alma num local totalmente caótico são sensações únicas que este jogo proporciona e que eu gostaria que cada um de vocês sentissem.

Todas essas sensações e emoções são despertadas na primeira vez que batemos o olho no jogo. Talvez você esteja lendo este review apenas porque o visual do jogo te agradou ou chamou sua atenção e isso é completamente compreensível. Imagine os três jogos mais bonitos da sua biblioteca. Imaginou? Ori and the Blind Forest vence os três com o pé nas costas.

A beleza artística que o jogo possui é surpreendente. Das florestas às ruínas, montes gélidos, montanhas repletas de lava, cenários paradisíacos, ninhos de aranha, ruínas subterrâneas, pântanos sujos, santuários abandonados, todos apresentam um visual fascinante que nos faz parar várias vezes durante a jogatina para apreciar a beleza e tirar algumas screenshots. Me faltam palavras para descrever o quão bonito é o jogo, uma obra de arte interativa seria uma descrição muito rasa e injusta para se usar. O prêmio de melhor direção de arte foi realmente merecido.

A indicação a melhor trilha sonora não foi por acaso, as trilhas de Ori and the Blind Forest são perfeitas. Cada música foi escolhida para fundir-se ao momento, ao cenário e à jogabilidade para tornar o jogo uma experiência. As batidas tensas nos momentos das fugas frenéticas e as leves nos momentos tristes ou de exploração me fizeram literalmente viver o jogo, a atmosfera que a trilha sonora ajuda a criar é algo único.

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Outro detalhe da produção que merece ser lembrado são as expressões dos personagens. Todos conseguem expressar seus sentimentos sem dizer uma única palavra, fazem-nos amá-los e compreendê-los apenas com gestos. As únicas vozes que ouvimos são a de Sein que é simples e infantil – justo, já que se trata apenas de uma bolinha de luz – e a da Árvore do Espírito que é forte e marcante, do jeito que uma voz divina deve ser.

Visual, trilha sonora, narrativa e jogabilidade transformam Ori and the Blind Forest numa experiência imersiva única e perfeita que não veremos novamente tão cedo. O jogo consegue despertar emoções no jogador de uma forma simples, sem precisar de uma grande produção, sem fazer estardalhaços nem encher a tela de coisas inúteis, sua perfeição está na simplicidade.

Para melhorar, as legendas do jogo são todas traduzidas para português. Isso facilita bastante a vida na hora de entender como as novas habilidades funcionam e aproximam ainda mais o público infantil do jogo. Na versão para PC o jogo se comporta sem problema algum de performance em máquinas simples.

Ori and the Blind Forest chegou a um posto que poucos conseguiram, aquele onde jogos são comparados a obras de arte sem que pareça loucura, um patamar que apenas jogos fabulosos conseguem alcançar. Há mais, ouso dizer que Ori é o futuro dos jogos de plataforma e de exploração, ele é um dos poucos jogos atuais que fazem o jogador querer saber tudo sobre ele, usufruir de tudo o que ele proporciona e querer mais depois de terminar.

Você gosta de videogames? Gosta de jogos que te dão vontade de jogá-lo? Verdadeiras experiências? Coloque Ori and the Blind Forest na sua lista de jogos para jogar antes de morrer, num lugar beeeem alto, porque é lá que ele merece estar.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC adquirida pelo redator

Resumo para os preguiçosos

Ori and The Blind Forest é um jogo de plataforma 2D metroidvania que foca na ação, aventura e exploração. Ele apresenta uma belíssima história que, apesar de simples, consegue manter qualquer jogador vidrado do começo ao fim. Seu sistema de gameplay é único e criativo pois faz com que todos os elementos apresentados na tela sejam usados pelo jogador. O jogo ainda apresenta um mapa aberto gigante com áreas completamente distintas que são interligadas, dando assim liberdade para o jogador explorar e testar suas novas habilidades. A arte e trilha sonora são impecáveis e a atmosfera é completamente imersiva. A Moon Studios não criou apenas um jogo, criou uma experiência que tem espírito próprio, faz com que o jogador queira jogá-lo e conquista qualquer um que o jogue.

Nota final

100
Saiba mais sobre os nossos métodos de avaliação lendo o nosso Guia de Reviews.

Prós

  • Estilo de jogo próprio
  • História muito bem desenvolvida e comovente
  • Habilidades distintas que funcionam de maneiras diferentes
  • Instiga o jogador a usar a criatividade
  • Variação de inimigos, puzzles e desafios
  • Sequências de fuga que fazem o coração sair pela boca
  • Estimula e recompensa a exploração
  • Mapa gigante e cheio de segredos
  • Visual e trilha sonora espetaculares
  • Atmosfera extremamente imersiva
  • Traduzido para português

Contras

  • Jogar no teclado pode deixar o jogo mais difícil
Rafael Oliveira
Rafael Oliveirahttp://criticalhits.com.br
Rafael Oliveira faz análise de jogos, filmes e séries regularmente para o Critical Hits, além de postar notícias e artigos esporadicamente. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito, é fanboy de Steins;Gate e tem um lugar especial no coração para Platformers, RPGs e Metroidvanias.