Mafia III – Review

Mais de seis anos após a 2K Czech desenvolver e lançar Mafia 2, a bola foi passado para o novato estúdio Hangar 13 para o lançamento do terceiro jogo da franquia.

Rumorizado desde 2011 e em produção desde 2012, Mafia III é um jogo de ação em terceira pessoa em mundo aberto, se passando na New Bordeaux do final dos anos 60, uma versão fictícia da cidade de New Orleans, nos Estados Unidos. O jogo conta a história de Lincoln Clay, um veterano da guerra do Vietnã que entra em rota de colisão com a máfia italiana.

Mal chegamos no terceiro parágrafo e temos a primeira novidade do jogo em relação aos outros jogos da franquia. Pela primeira vez, seu objetivo será confrontar a Máfia italiana e não necessariamente fazer parte dela.

A apresentação da história é excelente. O jogo simula um documentário, com alguns dos personagens secundários recontando a história de Lincoln e como foi sua escalada no mundo do crime, enquanto os jogadores vivem essa experiência em primeira mão. E terceira pessoa.

A moralidade do jogo é bem honesta. A grande maioria dos personagens, incluindo o protagonista e seus ajudantes, não são boas pessoas. Não temos heróis ou vilões. Temos pessoas com objetivos escusos brigando por esses objetivos com unhas e dentes E isso poderia fazer com que os jogadores simplesmente não se ligassem emocionalmente com os personagens, mas não é o caso. Lincoln Clay não é uma pessoa perfeita, extremamente longe disso. Mas a luta dele vira a sua luta pela forma quase impecável em que a história é inserida no jogo.

O mundo opressor para negros no estados unidos no final dos anos 60 é sentido sem nenhum freio ou meias palavras. Brancos, principalmente autoridades, tratam negros como lixo o tempo todo. Desde Django eu não ouvia tantas vezes a palavra “nigger” de forma tão ofensiva. E não fica somente nas palavras. São muitas as vezes em que Lincoln vai entrar em algum lugar e o segurança não só o confunde com um serviçal, como manda entrar pela portas dos fundos, por exemplo. A forma como Lincoln, que é negro, reage, quase sempre de maneira estoica, é um retrato da forma acostumado que negros reagiam a essa opressão: como se fosse normal.

A forma como jogo trata não só o racismo, mas a estrutura da sociedade americana e do crime é muito, mas muito boa. Mafia III coloca o dedo na ferida sem dó e, embora isso gere alguns momentos onde até eu, que me considero uma pessoa difícil de se chocar, fiquei desconfortável ao assistir, é extremamente importante que tenha sido feito dessa forma. Não só o fator imersão ganha com isso, mas a construção dos personagens fica mais complexa e completa. O mundo não gosta de Lincoln Clay por ele ser negro. E ele sabe disso.

E ele luta contra. Com armas, violência e muita vontade de se vingar do pessoal que traiu ele e sua “família”. Após um representante de uma vertente da máfia italiana o esfaquear pelas costas, no sentido figurado, o protagonista volta dos braços da morte e se prepara para dominar não só o bairro negro de New Bordeaux, mas sim para tomar toda a cidade para si.

Para isso ele precisa tomar poder dos italianos e forjar alianças com outros líderes criminosos para criar uma facção capaz de lidar com seus poderosos inimigos. Após juntar aliados, entre eles um personagem que retorna de Máfia II, o objetivo é invadir os territórios inimigos e tomá-los para si, colocando seus próprios homens e mulheres de confiança para guardar o local, tal qual a divertida série de missões do mesmo gênero em GTA: San Andreas, onde você domina os territórios para a Groove Street Families.  E é aí que o gameplay entra. Infelizmente.

A jogabilidade é, no melhor dos casos, funcional. No pior dos casos, é simplesmente chata. Não me entenda mal, a maioria das mecânicas em si funcionam bem sozinhas. A habilidade de se esconder atrás de muros, alguns elementos destrutivos do cenário, a forma como que a inteligência artificial TENTA te flanquear, o feeling dos tiros… É tudo ok. Mas várias vezes essas mecânicas são postas a prova em cenários extremamente lineares e sem inspiração. Vira só uma questão de eliminar um certo número de inimigos na área A, ir para a área B e repetir até acabar a missão. Comece uma outra missão e o processo se repete.

Uma das reclamações de Mafia II era que o “mundo aberto” não servia para nada além de te forçar a ir para os lugares de carro. E apesar de entender que isso tinha como objetivo construir uma maior imersão para o jogador, o resultado era justamente o contrário. Lançado dois anos após o brilhante Grand Theft Auto IV, a cobrança é extremamente válida. E você pode pensar que eles mexeram nisso em Mafia III. Mas você estaria enganado.

A existência do jogador no mundo aberto de New Bordeaux é irrelevante. Você pode sair por aí batendo nos carros(cujo efeito de dano se assemelha a papel amassado e não metal retorcido), atropelando pessoas, batendo com a cara de cidadãos no asfalto e o máximo que você vai conseguir é uma ou duas pessoas fugindo de você, talvez uma que tente acionar um telefone para ligar para a polícia (coisa que você resolve esfregando a cara desse cidadão no asfalto também) ou, se você estiver com sorte, algum policial te ver fazendo merda e tentar fazer alguma coisa. Não que fugir da polícia apresente qualquer desafio para o jogador, mesmo no modo mais difícil do jogo.

Como consequência, o mundo de New Bordeuax passa a ser irrelevante para o jogador fora da história. Assim como em seu antecessor, em Mafia III, o mundo “aberto” serve apenas para você se deslocar de uma área da cidade até outra. Nem mesmo causar destruição aleatória chega a ser tão divertido, pela falta de consequência para os seus atos. Algo que considero uma falha terrível em um jogo do gênero proposto. É possível contar histórias lineares em terceira pessoa sem mundo aberto. Max Payne e True Crime não me deixam mentir. O fato dos carros não serem nada demais de se dirigir (apesar dos designs incríveis da época) não ajuda.

E isso sem entrar nos bugs. Muitos, muitos bugs. Personagens caindo do cenário no limbo, objetos aparecendo do nada, policiais que andam sobre as águas, jogo fechando sozinho, apresentando diversos crashes… Isso pra quem consegue jogar, já que existe uma boa parcela de pessoas que nem o jogo fazer rodar conseguiram.

Não só o port do jogo para PC está bem mal parido, as próprias versões dos consoles apresentam um funcionamento bem longe do que pode ser considerado como razoável, algo inadmissível em pleno ano de 2016 depois do nascimento de Jesus “Príncipe da Paz” Cristo.

Os gráficos sofrem bastante com as falhas de performance, mas no geral entregam  um trabalho decente. Nada que vai revolucionar a indústria, mas ainda sim bem competente. A expressão dos rostos dos personagens(e as falhas na pele, poros visíveis, espinhas, cicatrizes…), assim como a dublagem e a interpretação dos mesmos, é muito boa e isso contribui com a excelente escrita dos diálogos e ajuda a contar ainda mais pontos para a história de Mafia III.

Outra coisa que acrescenta pontos para o jogo é a trilha sonora. Vez ou outra Mafia III tem uma síndrome de “Esquadrão Suicida”, onde algumas músicas famosas simplesmente aparecem por aparecer em algumas sequências, não dando muito sentido a narrativa. Mas isso em nada ofusca todas as outras várias vezes onde as músicas são brilhantemente inseridas nas cutscenes. Por mais de uma vez eu arrepiei ao ouvir as primeiras notas de músicas que eu adoro, como na primeira vez que toca Paint it Black num dos eventos mais relevantes do jogo e um dos momentos mais interessantes de qualquer história que eu já consumi em vida.

No final das contas, Mafia III é uma versão crescida de Mafia II. Praticamente os mesmos erros e mesmos acertos. É um jogo imperdível sim, a história é contada de forma excepcional, os personagens são carismáticos, Lincoln Clay é divertido como personagem principal e a trilha sonora é boa demais. Mas não acho que seja um jogo que faça jus ao preção que tão cobrando.

A performance ruim, a falta de polimento em diversas áreas e mesmo a ausência de uma jogabilidade mais divertida impedem o terceiro jogo da franquia de mafiosos de alçar vôos maiores e disputar o lugar de GOTY de 2016, mas ainda sim possui pontos positivos o suficiente pra você ficar de olho nas promoções para conseguir o jogo num preço mais camarada.

Review elaborado com versões do jogo para PC e PS4 fornecida pela 2K Games.

Resumo para os preguiçosos

Mafia III é um jogo com mais acertos do que erros. Sua história é contada de maneira excelente, de forma madura e com diálogos muito bem escritos, com uma trilha sonora excelente e personagens cativantes. E tudo isso, no final das contas, segura o jogo no lugar apesar da jogabilidade medíocre, inexistência de consequências das ações do protagonista no mundo aberto e a quantidade cavalar de bugs que o jogo apresenta. Se vale o preço inteiro? Não acredito que seja o caso. Mas certamente é um jogo que vale a pena ser experimentado caso seja possível encontrá-lo em promoção.

Nota final

70
Saiba mais sobre os nossos métodos de avaliação lendo o nosso Guia de Reviews.

Prós

  • História impecável
  • Personagens carismáticos
  • Lincoln Clay é o baddest motherfucker desde Carl Johnson
  • Trilha sonora espetacular
  • Diálogo muito bem escrito

Contras

  • Mundo “aberto” não tão aberto assim
  • Jogabilidade pode ser muito rasa dependendo do cenário
  • Inteligência Artificial varia de muito de consistência
  • Bugs
  • Performance ruim
Tico

Redator eventual, podcaster e negro maravilhoso.

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Tags: Mafia III

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