A série Fallout até pouco tempo atrás não possuía nenhuma mancha sequer em sua reputação. Nascida lá nos longínquos anos 90, a franquia contava com jogos que marcaram a vida de muitos fãs ao longos dos anos, passando por mudanças no estilo de jogo, introdução de novos conceitos no gênero de FPS e muito, muito hype.

A senhora franquia sempre manteve o fôlego de “meninona” toda vez que um novo jogo era anunciado.  Entretanto, uma boa parte do público simplesmente torceu o nariz com o anuncio de Fallout 76, simplesmente porque desde o início ele não parecia ser uma boa ideia.

A ideia entretanto, era ambiciosa: trazer o tão aclamado multiplayer para o universo de Fallout, um game que até pouco tempo atrás, tentava explorar o sentimento de solidão do jogador ao se aventurar pela perigosa Wasteland. Talvez o questionamento mais relevante a se fazer neste momento seja: pra quê?

Sejamos sinceros, não são todos os jogos que realmente precisam de multiplayer. Ok, eu sei e entendo que a proposta de explorar seu jogo favorito com seus amigos pode ser uma boa ideia, mas a verdade que é ema alguns casos, simplesmente não se pode adaptar uma experiência singleplayer para uma aventura multiplayer sem abrir mão da alma do jogo. Não estou dizendo que isso não poderia ser feito com Fallout 76, mas o problema é que, ao que parece, a Bethesda sequer tentou.

Chega a ser difícil imaginar como a desenvolvedora de Skyrim, um dos RPG’s mais relevantes de todos os tempos conseguiu criar algo tão grotesco como Fallout 76. Além da falta de sentido no game pós-apocalítico, o jogador que resolver se aventurar por West Virginia encontrará problemas gráficos, bugs de desempenho, travamentos excessivos e muitas, muitas desconexões com o servidor do jogo.

Pra começo de conversa temos que falar sobre a história do jogo. Um dos pontos altos de qualquer Fallout sempre foi o enredo, além da forma como a história era contada. Também pudera, já que o primeiro jogo da série foi projetado para ser uma adaptação virtual do saudoso sistema de RPG de mesa GURPS. Mas, como contar histórias sem a presença de NPC’s? Essa era uma das principais dúvidas do público e um dos principais desafios a serem superados pela Bethesda, e como dá pra se imaginar, ela falhou miseravelmente neste aspecto.

O jogador começa o game assistindo uma pequena introdução da história da Vault 76 e em seguida acorda em um quarto, sem saber direito o que fazer. Alguns detalhes podem ser descobertos pelos jogadores mais curiosos ao se explorar os computadores do refúgio, mas ainda assim não é o suficiente para se sentir imerso no game, como em jogos anteriores. Após essa etapa, deve-se seguir o caminho até a saída da Vault sendo apresentado aos poucos – e de maneira muito sucinta – à algumas mecânicas do jogo.

Aqui abro um parêntesis para comentar sobre a completa guinada no sistema de jogo apresentado em Fallout 76. Como comentado acima, apesar de ter sido concebido em cima de uma franquia conhecida por ter pesadas influências de RPG, Fallout 76 parece deixar tudo isso de lado para somente, e tão somente, ser uma boa justificativa para atirar e matar o que aparecer pela frente, mas desde vez, acompanhado dos amiguinhos.

Ok, mas e agora? Bem, você sai da Vault e… é isso. O jogo começa te dando poucas direções e praticamente implorando para que você se vire explorando o mapa e coletando recursos. Isso não seria um problema pra mim, já que esta atividade é uma das minhas preferidas em qualquer um dos jogos da série. O problema é que catar lixo por ai não é lá uma tarefa muito gratificante, principalmente porque criar seu próprio acampamento não é uma recompensa tão legal quanto parece. Não foi algo muito bem aceito em Fallout 4, e continua não sendo algo almejado pela grande maioria do público até agora, mas ainda assim, a “Minecraftzição de Fallout” parece ser o caminho que a Bethesda quis seguir.

Melhorar seu equipamento e armas até que não é ruim, mas enquanto fazia minhas armaduras, ficava me perguntando o por que de estar fazendo isso. Desde que comecei minha aventura em Fallout 76, a sensação que tive era muito semelhante àquela que sentimos quando terminamos um jogo, mas continuamos jogando para obter todas as conquistas. Não me sentia compelido a explorar o mapa só pelo prazer de ver construções abandonadas e encontrar monstros lendários, até por que não é nisso que deveria se basear um jogo que tem seus alicerces fincados no gênero RPG. Eu esperava desafios, mas esperava também que eles tivessem boas justificativas e um sentido para mim.

A verdade é que Fallout 76 parece ser um jogo de sobrevivência lançado no momento errado – com alguns anos de atraso diga-se de passagem. Podemos facilmente compara-lo a jogos como Ark ou Conan Exiles, só que com enredo pós-apocalítico. Para alguns a comparação pode parecer tola, mas eu realmente acredito que construir casas e estruturas não é mais tão relevante quanto há alguns anos atrás.

O combate também ficou um pouco diferente do que estávamos habituados, principalmente se considerarmos as modificações no sistema de V.A.T.S, justificadas pelo fator multiplayer. Tirando isso, Fallout 76 parece ser exatamente a mesma coisa que Fallout 4, tanto nos pontos altos, quanto nos baixos, como se tivesse sido feito nas coxas a fim de aproveitar a engine de seu antecessor. Não bastasse isso, os glitches ainda tornam a experiência mais lamuriosa, já que mesmo após o fim do beta, ainda tive problemas com travamentos, desconexões do servidor, e principalmente com o sumiço de alguns dos meus progressos, como o jogo se recusasse a salvar os objetivos que eu cumpria, e até mesmo os novos que eu descobria explorando o mapa.

Mas o detalhe que matou Fallout 76 para mim foi justamente o sumiço a sensação de que eu explorava uma terra perigosa e inabitada. Durante o beta e as primeiras horas de jogo, mesmo os lugares mais remotos estavam repletos de jogadores, não me permitindo avançar da maneira como gostaria. Não adianta tentar uma abordagem mais furtiva se enquanto você avança, outro jogador 10 níveis mais forte resolve entrar no recinto e matar todos os monstros que lá estão. Você ainda pode coletar o loot, mas perde um pouco da graça.

Portanto, Fallout 76 me parece ser um jogo esquizofrênico, pois não sabe direito o que quer ser. Não quer ser Fallout já que quer ser multiplayer e ao mesmo tempo não consegue oferecer uma experiência em grupo plenamente satisfatória por que quer ater-se a algumas (poucas) características da franquia. A Bethesda, mais uma vez, não soube respeitar seu próprio legado e criou um jogo que ninguém queria, numa época em que ninguém mais parece se importar. Sinceramente, me preocupo com o que vai vir no próximo Elder’s Scrolls.

Mas e aí, Fallout 76 vale a pena?

Fallout 76 é um jogo que se perde em sua própria proposta pois não consegue ser um bom jogo da franquia Fallout ao mesmo tempo que não consegue ser um bom jogo multiplayer. Repleto de bugs e “vazio” em sentido e objetivos, o jogo parece mostrar como a Bethesda é capaz de se desapegar de suas franquias mais clássicas a fim de lançar qualquer coisa em busca de lucro fácil, tentando convencer o jogador e os fã mais fiel de que aquilo que faz é exatamente aquilo que procuramos.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PS4 Pro fornecida pela Bethesda do Brasil.

João Víctor Balestrin Sartor é colaborador e sex-symbol do Critical Hits. Admirador das boas histórias, almeja de verdade escrever um livro algum dia. Divide seu tempo entre à leitura, jogatina, trabalho, engenharia e quando sobra tempo, vive.

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