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Capitão América: Guerra Civil – Review

A Guerra Civil é o maior evento da Marvel Comics, um evento que dividiu os maiores heróis da Terra e um país, que colocou amigo contra amigo, irmão contra irmão, vilões caçando heróis e causou uma grande mudança no mundo, mudança esta que veio a um alto custo. E como será que a Marvel adaptaria um arco tão grande, com tantos heróis e vilões participantes em seu universo cinematográfico ainda em construção, mesmo que já exista há oito anos? Reimaginando.

Capitão América: Guerra Civil não é uma adaptação do evento dos quadrinhos, é uma reimaginação do enredo que levou Capitão América e Homem de Ferro – e seus seguidores – a se enfrentarem. O filme nos mostra um contexto semelhante ao dos quadrinhos em tamanho, profundidade e importância bem menores e deixa bem claro que seu objetivo é terminar uma história e expandir sua continuação, assim abrindo portas para algo muito maior e mais abrangente que está por vir.

O primeiro ato começa com um bom desenvolvimento e um começo bem parecido com o de Capitão América: O Soldado Invernal. Os Vingadores estão em mais uma missão, desta vez no encalço do terrorista Ossos Cruzados (Frank Grillo) que rouba uma arma biológica em Lagos, Nigéria. Após uma boa sequência de perseguição e lutas vem a tragédia: um prédio é explodido em um incidente envolvendo o vilão e a Feiticeira Escarlate (Elisabeth Olsen).

Esse é o primeiro sinal que aqueles que acompanharam a Guerra Civil original irão notar. Nele podemos ter uma ideia de quanto o evento dos quadrinhos será simplificado no filme já que nesta cena em particular, Ossos Cruzados equivale a Nitro, Feiticeira Escarlate equivale a Speedball e o prédio explodido equivale a toda Stanford.

Este evento é o estopim da revolta dos governos de vários países – liderada pela nação de Wakanda – que dá origem ao Tratado de Sokovia, nosso equivalente ao ato de registro de super-humanos. Os heróis que assinarem o tratado serão automaticamente submetidos a ordens da ONU (Organização das Nações Unidas) que decidirá onde os heróis poderão atuar e onde não poderão e cuidará dos danos colaterais nas missões da equipe, que é o que assusta o mundo. Note que aqui não há nada que fale de identidades secretas (afinal, que identidade ainda é secreta nesses filmes?), um elemento muito importante nos quadros que não teria nenhuma utilidade no cinema.

Os a favor do tratado acham que essa é uma medida necessária, algo que eles merecem devido a todo o dano que já causaram e que não foram responsabilizados. Os contrários a ele acham que isso limitará a equipe e os deixará submissos mais uma vez a uma organização que atua sob pontos de vista, que sempre podem mudar. O que não muda são os valores de cada um, que influencia diretamente em seu posicionamento em relação ao tratado e acaba causando uma divisão nesta equipe.

Concordando ou não, até este ponto estava tudo bem, não havia pressão alguma para assiná-lo, pelo menos até que um segundo atentado ocorre, este aparentemente causado por Bucky Barnes (Sebastian Stan), o Soldado Invernal, que resulta na morte de vários líderes mundiais.

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Steve Rogers (Chris Evans) tem convicção de que seu amigo não foi o responsável pelo ataque, mesmo que todas as provas apontem o contrário, e o defende a todo custo, com o apoio daqueles que foram contrários ao tratado. Os que ficaram a favor, liderados por Tony Stark (Robert Downey Jr.) que agora trabalham para o governo sob ordens do general Thaddeus Ross (William Hurt) são mandados para capturar o Soldado Invernal e qualquer um que esteja o ajudando.

Este é o plot principal da Guerra Civil e mesmo que entendamos que o universo cinematográfico da Marvel não possui o mesmo tamanho que os quadrinhos, podemos concordar que o evento é bem superficial, principalmente no que se trata das motivações de cada um. Nas HQs cada herói que assina ou se opõe ao ato de registro tem um ponto de vista e um motivo para estar do lado que escolheu, uma motivação que o faz ir em frente e uma identificação com aquele que o lidera, isso não parece ocorrer em Capitão América: Guerra Civil. Alguns heróis como Capitão América, Homem de Ferro, Feiticeira Escarlate e Visão (Paul Bettany) expressam suas ideias e escolhem seu lado, já os outros parecem apenas estar seguindo seu líder, ou agindo sob o senso de responsabilidade, sem ter um ponto de vista sobre tudo o que está acontecendo.

É aí que devemos nos lembrar do porquê do nome do filme ser Capitão América: Guerra Civil, e não Vingadores 3 ou apenas Guerra Civil. A história principal do filme é a luta de Rogers em tentar provar a inocência de seu amigo, por mais que todos os outros tenham papéis consideráveis no longa, Steve Rogers é quem está verdadeiramente lutando, sofrendo, é o único que está realmente dividido.

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E mesmo com o foco nesses personagens, Capitão América: Guerra Civil consegue manter boas histórias menores deixando um bom gancho para desenvolvê-las. Podemos perceber a diferença de um bom roteiro no desenvolvimento da narrativa que aqui é ótimo e não nos deixa confusos em nenhum momento. Algumas das coisas que o filme consegue tratar bem no meio da narrativa principal é início do romance entre Rogers e Sharon Carter (Emily VanCamp), uma maior aproximação entre Visão e Wanda, a introdução de T’Challa (Chadwick Boseman) e Peter Parker (Tom Holland) e o desenvolvimento dos planos de Helmut Zemo (Daniel Brühl), este que não é Barão.

Helmut Zemo é um bom vilão para o filme, mas aqueles acostumados com o Barão que um dia fora líder dos Thunderbolts ficarão desapontados. O bom é que Zemo continua um mestre da manipulação, ele é capaz de guiar todos até onde quer de um modo crível, sem coisas que façam os espectadores acharem que suas ações foram forçadas pelos produtores ou parecem fora de realidade. O ruim de Zemo é que ele não tem a metade da megalomania de sua versão das HQs e acaba sendo mais um dos vilões clichês que estão ali apenas para serem presos.

E falando de novos personagens, também temos o recém-coroado Rei de Wakanda, T’Challa. O Pantera Negra é um dos que têm uma motivação concreta na Guerra Civil e mesmo numa situação que levaria qualquer um à loucura consegue manter a compostura. Chadwick Boseman interpreta com perfeição o personagem que é bem fiel aos quadrinhos, destemido, que sempre fala e faz o que pensa que é certo e sabe até onde vão suas capacidades.

T’Challa está presente na primeira cena pós-créditos do filme, uma cena que em minha opinião fecha de vez a “trilogia Capitão América” e nos dá uma prévia de Wakanda, nos deixando ainda mais ansiosos por seu filme solo.

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Mas a melhor estreia de Capitão América: Guerra Civil fica por conta do novíssimo (em todos os sentidos) Peter Parker. Já em seus primeiros minutos em cena Tom Holland já consegue nos mostrar que será o melhor Homem-Aranha que já vimos. Seu “recrutamento” é simplesmente hilário, Peter Parker e Tony Stark tem uma bela sintonia e Marisa Tomei parece ser um tipo de Tia May diferente de qualquer outra que já tenhamos visto, incluindo nos quadrinhos.

E um destaque deve ser dado para quantas informações os diretores conseguiram passar em uma cena tão curta e tão focada no humor. Como Stark descobriu Parker, há quanto tempo Parker é o Homem-Aranha, como ele iniciou sua vida de combate ao crime e por que diabos ele precisaria daqueles visores em seu uniforme que algumas pessoas criticaram. Tudo isso é explicado e a história de origem ainda é chutada de lado com tamanha maestria na cena que é como se não houvesse necessidade MESMO de uma, e não há, então tá tudo certo. Só faltou um SHAZAM CARAI!

Marvel's Captain America: Civil War Spider-Man/Peter Parker (Tom Holland) Photo Credit: Film Frame © Marvel 2016

Essa narrativa cheia de histórias paralelas ainda conta com várias e várias ótimas sequências de ação. Se tem uma coisa que a Marvel sabe fazer são combates diferentes que enchem os olhos e dessa vez ela se supera, já que finalmente saímos do tradicional “equipe vs exército” para um foco mais “homem a homem” com várias variações dependendo de quem luta contra quem. É um deleite ver heróis como Falcão e Visão usando suas habilidades e ainda estes mesmos heróis combinando suas habilidades de maneira inédita.

O embate final entre os heróis que ocorre no aeroporto Leipzig em Berlim chega a dar arrepios. Sério. Pantera Negra é brilhante, luta como um rei; Homem-Formiga (Paul Rudd) tem um momento de destaque mostrando sua nova habilidade; Máquina de Combate (Don Cheadle) também tem um bom destaque e até seu momento de Golias; e Homem-Aranha mais uma vez rouba a cena chutando bundas e falando pelos cotovelos. A batalha é rápida e divertida, enche os olhos e proporciona ótimas gargalhadas em meio a arrepios.

E por falar em gargalhadas, o humor foi bem intensificado em Capitão América: Guerra Civil em relação aos filmes anteriores. A boa notícia é que a Marvel parece ter pego o jeito de fazê-lo de uma forma legal, sendo que apenas uma piada soou realmente forçada. Falcão, Homem-Formiga e Homem-Aranha seriam capazes de levar um filme de humor nas costas com seus trocadilhos e combinação de humor que é bem orgânica, apesar de nenhum deles ter se juntado antes. As piadas foram bem adaptadas na dublagem do filme e algumas ficam até melhores do que na versão legendada, o que quase me faz recomendar a versão dublada do filme.

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Talvez você não perceba, mas todo esse humor está ali para disfarçar a pouca importância dessa luta. É lindo de se ver, mas o fato é de que ninguém ali estava querendo machucar realmente o outro, nenhum dos heróis corria um risco real e não havia perigo nessa luta. O momento de Golias de Rhodes foi o mais longe que os produtores ousaram ir e sinceramente eu não achei que precisasse de mais, o filme já havia valido a pena nessa parte.

Algo que deixou a desejar foi a trilha sonora de Capitão América: Guerra Civil que chega a ser bem repetitiva em alguns momentos e é completamente esquecível em outros. O tema do Soldado Invernal foi bem vindo na primeira e segunda vez que tocou, mas na terceira vez que a coisa ficou ruim pra Bucky ela já se tornou enfadonha.

Capitão América: Guerra Civil prova que consegue fazer diferente, que consegue ser bom sem seguir a “fórmula Marvel” que todos já cansaram de ouvir falar. O filme é um exemplo de direção, sabe balancear os momentos de tensão, emoção e humor, sabe dar valor a cada personagem que coloca em cena e dar uma sintonia para todos. O longa dá um bom desfecho para a história do Capitão América e expande o Universo Cinematográfico da Marvel, dando uma bela abertura para a Fase 3 que promete ser avassaladora.

Se você tinha receio do filme não fazer justiça à HQ ou “manchar o nome” da saga, fique tranquilo. É uma adaptação que consegue captar o espírito do evento e coloca-lo em algo muito menor. As referências estão aí para você pegar e só o que faltou foi aquele choque no final pra acabar tudo de forma terrível, mas esse é só o meu lado demônio falando.

Resumo para os preguiçosos

Capitão América: Guerra Civil abre a Fase 3 do Universo Cinematográfico da Marvel com grande estilo reimaginando o maior evento dos quadrinhos da editora e colocando frente a frente vários dos heróis que participaram da saga original que foi adaptada aos moldes do cinema de maneira bem satisfatória. O ótimo roteiro garante uma narrativa que se desenvolve de maneira clara e personagens que têm uma ótima sintonia, além de um bom balanço entre humor e seriedade.

Os combates são de encher os olhos, causam arrepios em qualquer um e proporcionam boas gargalhadas. Os grandes destaques são Homem-Formiga e os estreantes Pantera Negra e Homem-Aranha. O cabeça-de-teia rouba a cena tanto nas lutas quanto nos diálogos e você vai ficar se remoendo de saudade até o próximo filme dele.

O filme é uma prova de que a Marvel consegue ser mais do que uma fórmula e que consegue entregar algo que dê prazer em assistir e que te faça sorrir ao lembrar de uma luta ou uma piada, é um dos melhores filmes da história do estúdio, se não for o melhor.

Nota final

80
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Prós

  • Boa sintonia entre personagens
  • Bom roteiro
  • Combates incríveis
  • Balanço entre ação, drama e humor
  • Homem-Aranha

Contras

  • Trilha sonora repetitiva e esquecível
  • Zemo deixa a desejar
  • Alguns heróis não parecem ter uma motivação concreta
Rafael Oliveira
Rafael Oliveirahttp://criticalhits.com.br
Rafael Oliveira faz análise de jogos, filmes e séries regularmente para o Critical Hits, além de postar notícias e artigos esporadicamente. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito, é fanboy de Steins;Gate e tem um lugar especial no coração para Platformers, RPGs e Metroidvanias.