Desenvolvedores de Never Alone respondem a perguntas do Critical Hits

O Critical Hits teve a oportunidade de fazer algumas perguntas a Sean Vesce, diretor de criação de Never Alone, um jogo indie lançado em novembro do ano passado e que teve uma excelente avaliação aqui no site. No papo, conversamos sobre o impacto do jogo na vida da tribo do Alaska cujas histórias foram baseadas, além de perguntas sobre o game e uma mensagem para os fãs brasileiros da companhia. Confiram abaixo:

Critical Hits Havia muitas estórias da tribo que poderiam ser escolhidas? Como foi esse processo?

Sean Vesce: Nós passamos muito tempo aprendendo sobre a mitologia Iñupiat e, juntamente com nosso escritor Iñupiat, Ishmael Hope, revisamos centenas de histórias que foram transcritas de diversos livros e fontes de pesquisa. Foi incrível poder sentar e ouvir aquelas histórias. É uma tradição mitológica com a qual nenhum de nós havia se deparado e foi um grande prazer aprender com Ishmael, que cresceu nesta cultura cuja tradição de contar histórias é bastante apreciada. E ele foi tão paciente conosco enquanto tentávamos entender as histórias. É muito difícil deixar de lado toda a visão de mundo e o embasamento de quem cresceu consumindo ficção ocidental. Pouquíssimas das nossas concepções a cerca de histórias “boas” ou “ruins” podem ser aplicadas quando ouvimos narrativas de uma cultura indígena – é muito diferente o modo como elas refletem um modo único de encarar o mundo. Durante o processo, adquirimos um entendimento profundo e um gosto por quem são os Iñupiat, seus valores e como eles sobreviveram e prosperaram em um clima inóspito.

Nós identificamos, dentre aquelas que revisamos, cerca de doze histórias as quais sentimos que seriam apropriadas para ser a espinha dorsal da ficção de Never Alone. Nosso critério incluiu histórias que exemplificassem os valores Iñupiaq e os temas centrais do game, histórias que possibilitariam um gameplay natural e que se identificassem com as equipes de desenvolvimento e a comunidade. No fim, a história de Kunnuuksaayuka foi uma escolha natural. Com a ajuda de nossos parceiros no Cook Inlet Tribal Council, localizamos o descendente mais velho de Robert Nasruk Cleveland, o último contador de histórias que se tem registro que poderia narrar este conto. Sua filha, Minnie Grey (que está em seus oitenta anos), concordou em nos encontrar para ouvir o que nós queríamos fazer com a história. Ela foi muito bondosa e estava muito animada pelo fato de que estaríamos dividindo a história da sua família com o público que joga videogames. Ela acredita (assim como nós) que há muito a ser aprendido com a história, mesmo para as gerações atuais.

CH: Há a ideia de expandir o conteúdo do jogo com mais histórias?

SV: Por enquanto não temos nenhum plano concreto, mas recebemos um retorno de nossos fãs de que eles queriam experimentar mais. Estamos trabalhando em projetos para um novo conteúdo baseado em algumas das outras histórias, que esperamos lançar eventualmente. Antes de começarmos este processo, entretanto, nós precisamos pedir permissão e orientação da comunidade de nativos do Alaska, algo que esperamos fazer nos próximos meses. Além disso, estamos trabalhando em projetos para novos games baseados em diferentes culturas do mundo e que esperamos ter a oportunidade de desenvolver.

CH: Que jogos influenciaram a criação de Never Alone?

SV: Foram muitas influências, mas games como Limbo, Child of Light e Journey foram os favoritos de nossa equipe de desenvolvimento. Voltando no tempo, todos nós fomos grandes fãs de Out of the World (Another World), Flashback e um antigo jogo chamado Lost Vikings, que jogamos bastante quando começamos a pensar em uma jogabilidade com múltiplos personagens.

CH: Never Alone foi até indicado em uma categoria do VGA. Vocês estão satisfeitos com a repercussão do jogo?

SV: Nós ficamos honrados em receber essa indicação, bem como com as recentes indicações para melhor direção de jogos pela DICE e para o Game Developers Choice Award pelo GDC. Além disso, recebemos mais de setenta prêmios de várias revistas especializadas em jogos, o que foi surpreendente. Parece que o game tocou muitas pessoas – especialmente pela sua narrativa, personagens, estilo artístico, desenho de som e entendimento cultural. Nós recebemos muitas mensagens de agradecimento por fazer o game e ajudar a divulgar uma cultura que as pessoas nunca ouviram falar. Recebemos, também, muitas críticas construtivas, às quais nos dedicaremos nos próximos patches que lançaremos. Aprendemos bastante durante este processo e estamos realmente orgulhosos como este primeiro esforço. Dito isso, estamos apenas nos aquecendo e temos uma grande ambição de desenvolver mais games que explorem as variadas culturas do mundo.

CH: Após o lançamento do jogo, o que mudou na vida das pessoas da tribo?

SV: Essa é uma ótima pergunta! Muitos membros da equipe de desenvolvimento foram convidados a voltar a Barrow, Alaska durante três semanas para participar do Kivgik (Banquete do Mensageiro). É uma celebração de uma semana com danças, tambores, comida e compartilhamento de histórias que os membros de muitos vilarejos no North Slope participam a cada dois anos. Tivemos sorte em poder participar do Kivgik que aconteceu em 2013, durante a fase inicial do projeto, então, será muito interessante voltar e encontrar vários dos membros da comunidade com quem trabalhamos durante o percurso do projeto.

Posso dizer que a conscientização e o interesse acerca da história e tradições das culturas nativas do Alaska definitivamente cresceram como resultado do game. Nossa esperança é que Never Alone inspire mais culturas a criar projetos que divulgem e extendam sua cultura ao resto do mundo. Há muito que se aprender e dividir com as culturas indígenas. Espero termos conseguido ajudar um pouco no desenvolvimento dessa consciência nas pessoas.

CH: Vocês têm alguma mensagem para enviar para os fãs brasileiros de vocês?

Muito obrigado pelo suporte e interesse pelo jogo! Já viajei ao Brasil e estou completamente admirado pela beleza e diversidade de seu país. O Brasil é um país cujo passado e presente foi moldado pelas diversas comunidades indígenas que aí residem. Espero que jogar Never Alone ajude a despertar seu interesse por aprender, entender e apreciar mais profundamente a cultura das comunidades indígenas do Brasil.

Eric Arraché

Eric Arraché Gonçalves é o Fundador e Editor do Critical Hits. Desde pequeno sempre quis trabalhar numa revista sobre videogames. Conforme o tempo foi passando, resolveu atualizar esse sonho para um website e, após vencer alguns medos interiores, finalmente correu atrás do sonho.

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