A admiração por artes marciais é algo muito comum pra quase todo mundo, principalmente para aqueles nascidos na década de 80 e que assim como eu, cansaram de dedicar suas tardes assistindo filmes de ação só pra depois sair tentando reproduzir tudo que viu com o amiguinho da escola no outro dia.

Eram outros tempos.

Filme bom envolvia uma boa luta. Quase não havia espaço para outro tipo de filme na nossa cabeça naquela época: ou você assistia, ou ficava isolado no outro dia na escola, sem ter sobre o que conversar com seus colegas.

Eu sinto falta daquela época. Tanto dos filmes de ação do Bruce Lee, quando da admiração pela animação que uma boa troca de socos encenada causava. Podem me chamar de babaca, de estar fazendo apologia à violência, mas eu sinto saudades mesmo, fazer o que.

Desde a década de 90 eu sinto vontade de jogar um bom jogo de luta, mas infelizmente naquela época as coisas eram muito limitadas e os jogos que tínhamos a disposição estavam bem longe do que eu gostaria de jogar. Eu sonhava com um jogo onde eu pudesse criar meu próprio estilo de luta e depois poder desafiar outros jogadores com seus próprios estilos também! Imagine só, se eu pudesse sentir toda aquela empolgação que sentia vendo o Jean-Claude Van Damme no sábado a tarde enquanto me divertia jogando vídeo game, seria mágico!

Pois foi justamente o que mais me surpreendeu em Absolver.

Absolver é um projeto bastante ousado que foi desenvolvido pelo pessoal da Slocap e distribuído pela Devolver com uma pegada bem diferente daquela que a gente tá acostumado. Quer dizer, nem tanto. Algumas coisas a gente já cansou de ver por ai em outros jogos. A grande sacada aqui não é a novidade em todos os aspectos, mas a mistura entre conceitos novos e outro já consagrados para criar algo diferente e bem ousado. Pra mim, por enquanto, deu certo.

Em Absolver você assume o papel de “Prospect”, que na verdade é um… candidato a Absolver. Os Prospects são humanos que receberam a dádiva da “absolvição” a partir do momento que receberam suas máscaras sagradas. Sendo assim, os caras não precisam perder tempo dormindo, comendo, bebendo água e até mesmo morrer. Esse tipo de coisa que nós, pobres mortais fazemos nas horas vagas. Basicamente a vida de um Prospect se resume a enfrentar uma série de desafios e provas a fim de provar seu valor e conseguir ser promovido enfim a Absolver, o melhor soldado de Elite do decaído Império de Adal.

A história vai sendo contada aos poucos, e conforme você vai avançando vai descobrindo seus objetivos e as coisas que precisa fazer pra seguir em frente na narrativa. Esse é na verdade uma das grandes similaridades com Dark Souls, já que não existe um “journal” que registre cada evento ou que conte o que se passou anteriormente ao momento que você assumir o controle do personagem que criou. Se quiser descobrir o que tá acontecendo, trate de prestar atenção no que os NPC’s dizem e até mesmo em pequenos detalhes do cenário.

Outra similaridade importante é a existência de pontos específicos onde você renasce após a morte. Em Dark Souls isso é conhecido com “bonfire” e já em Absolver é chamado de… bem, eu não sei o nome daquilo. Mas eu garanto que a funcionalidade é a mesma. Mas antes de sair se aventurando por ai você deve criar seu personagem e o mais importante de tudo: escolher seu estilo de jogo. Isso também é bem comum em vários jogos por ai, mas em Absolver o buraco é um pouco mais embaixo.

O seu estilo de jogo vai depender do estilo de luta que escolher, o que significa que isso não é só um mero detalhe, não! Tudo que você vai fazer daqui pra frente depende desse momento, então não vá escolher qualquer coisa sem pensar, e depois dizer que o jogo é ruim por ser muito difícil. Os três estilo iniciais podem até compartilhar golpes, mas se diferenciam por apresentar níveis de força, mobilidade e velocidade diferente. É a partir dai que você vai começar a montar seu próprio estilo de luta, escolhendo seus golpes conforme eles se adaptem as características do seu personagem.

É ai que tudo brilha: você tem controle de tudo! Sim, os golpes são definidos por você. Os combos são fruto das combinações determinadas pelo jogador e a sua capacidade de lidar com seus adversário é de inteira responsabilidade sua. Eu confesso que é um pouco confuso e o game não tem nenhum tutorial pra te ensinar como aproveitar melhor os golpes disponíveis que você tem. Mas com um pouco de dedicação você até acaba descobrindo um estilo que se adapte melhor a forma como você sabe jogar.

Pera ai, então quer dizer que eu tenho golpes limitados? Sim. Você vai desbloqueando e aprendendo novos golpes conforme vai enfrentando novos inimigos. Ao se deparar com um adversário, você aprenderá novas combinações conforme for lutando. O mais interessante de tudo é que um golpe devastador pode ser aprendido logo no início do game caso você tenha a sorte de se deparar com um adversário que o saiba e além disso, saiba como encaixa-lo também no seu estilo.

Depois de um tempo, caso você se veja uma verdadeira máquina mortífera, você pode simplesmente criar a sua própria escola – com uma combinação de golpes definida por você – e compartilha-la com os jogadores que decidirem seguir seus ensinamentos. É como se você elevasse a questão da colaboração online à níveis nunca vistos antes. Por falar nisso, a interação com outros jogadores também é um caso a parte. Diferentemente de Dark Souls, você não encontra outros jogadores só quando tá online. Eles aparecem o tempo todo e sem que você tenha pedido por companhia. Eles podem ser hostis, ou não. Podem te descer o sarrafo, ou não. Podem te reviver depois de um duelo, ou não. Mas o que você precisa saber é que não esta sozinho, afinal de contas Absolver é considerado um MMO antes de mais nada.

Sendo assim, avançar no jogo é de fato uma experiência única. Se aventurar no desconhecido e enfrentar os candidatos perdidos eleva o clima de tensão, mas também dá uma sensação de satisfação incrível em alguns momentos. Quantas vezes me peguei brigando com mais de 2 adversários simultaneamente e me peguei estupefato ao perceber que tinha dado conta de todo mundo.

Como se tudo que falei até agora não bastasse, o visual de Absolver também é um detalhe a parte. O estilo gráfico do jogo não foi desenvolvido para ser o supra-sumo do realismo moderno, mas sim para ser belo e agradável aos olhos. E isso o jogo consegue fazer com maestria. Andar pelas ruínas do Império de Adal gera aquela sensação confusa entre o fascínio e o medo de descobrir que existe algo atrás daquela porta, ou um desafio imenso dentro daquela caverna.

E conforme você vai avançando, também vai tendo acesso a melhores equipamentos que mudam tanto a sua aparência, como também a sua defesa e velocidade. Pode parecer bobo, mas fazia tempo – desde Diablo 2, talvez – que não me pegava tão imerso na tarefa de decidir o set de equips perfeitos para seguir em frente.

Em suma, Absolver é um jogo que recompensa a dedicação do jogador ao seu personagem acima de tudo, e só Deus sabe quanto tempo faz que não temos um jogo que faça isso de forma decente. No caso de você ser daqueles que gosta de tudo mastigadinho ou de uma ferramenta que defina a melhor escolha pra você, talvez Absolver não seja a escolha mais acertada. O negócio aqui é bruto e exige dedicação.

Eu mesmo sem entender muita coisa no início ( e digo isso por que o jogo realmente não explica quase nada e você tem que se virar sozinho pra saber se vale a pena ou não “equipar” aquele soquinho daora que você acabou de aprender ) eu consegui me virar bem durante a minha jornada pelas ruínas da primeira parte do jogo. Venci todos os desafios e ainda sai vitorioso de alguns duelos que tive pelo caminho. Confesso que apanhei bastante também e meu sucesso é mais devido ao esforço do que a minha habilidade, mas é realmente recompensador ver seus combos dando resultado e gerando vitórias.

Mas nem tudo são flores, como era de se esperar.

Meu grande problema com Absolver foi a falta de “auxílio”. Como tive que jogar o game antes do lançamento pra poder fazer esse review, não existe ainda uma base de dados que me de qualquer informação sobre qualquer coisa dentro do jogo. Então eu me sentia muito perdido em alguns momentos do game, ainda mais por não entender muito bem como a interface me indicava se o golpe que eu queria equipar era bom ou não.

Continuo defendendo que os jogos podiam exigir mais dedicação do jogador, mas não oferecer formas de avaliar minhas decisões de forma simples torna o processo de gostar do jogo muito mais complicado. Some isso a uma aparente sobrecarga dos servidores que resultava em lags absurdos e problemas com ping recorrentes, me obrigando muitas vezes a reiniciar o jogo para resolver o problema e pronto, teve um momento que eu me enchi o saco.

Não me entenda mal. Absolver é ótimo. Mas infelizmente ainda não é perfeito. Ele precisa ser polido e ter alguns sistemas melhorados antes de dizer que é um jogo fácil de agradar todo mundo. A desenvolvedora já garantiu que muita coisa vai ficar melhor após o lançamento – garantindo até que novos golpes serão adicionados logo no primeiro dia -, mas até lá, a coisa ainda não é tão boa quanto deveria.

De qualquer forma Absolver cumpre o que promete, principalmente no que diz respeito a oferecer uma excelente experiência. Caso você esteja procurando um jogo capaz de te entreter por muitas horas e com muito potencial de melhorias futuras, essa novo produto da Devolver é com certeza pra você.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pela publisher.

João Víctor Balestrin Sartor é colaborador e sex-symbol do Critical Hits. Admirador das boas histórias, almeja de verdade escrever um livro algum dia. Divide seu tempo entre à leitura, jogatina, trabalho, engenharia e quando sobra tempo, vive.

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