Jogos de mundo aberto nunca estiveram tão em evidência quanto nos últimos tempos. Por ano, uma infinidade de títulos que permitem muito mais do que realizar missões pré-programadas chegam as prateleiras, geralmente acompanhados de mapas gigantescos e atividades secundárias. Mas será que isso é uma tendência só do mercado ocidental?

Na verdade não. Já faz um bom tempo que a série Yakuza vem apresentando um modelo diferente do habitual. Lançada originalmente em 2005 para o saudoso PS2, a série foi evoluindo e ganhando novos jogos com o passar do tempo, fazendo sucesso principalmente no Japão. Não faz muito que os olhos do ocidente começaram a crescer pra cima dessa série, e por isso, muita gente acabou consumindo a série pela metade e não pode aproveitar todo o potencial que ela oferece.

Mesmo assim, é possível dizer que Yakuza 6 é sim um grande jogo. Falo isso com tranquilidade!

Mas vamos por partes. O game oferece muita coisa ao mesmo tempo e a maioria dos jogadores pode ficar um tanto quanto assustado com o estilão meio desajeitado que as coisas vão sendo apresentadas no desenrolar da história. Por isso, vou adotar o bom e velho estilo de categorias nesse review, pra tentar falar sobre a maior quantidade de pontos possível.

Enredo e legado

Yakuza 6 é o sétimo jogo da franquia – existe o Yakuza 0 também, lançado no ano passado, e como a SEGA sabe que até pouco tempo atrás o game não era tão bem recebido no ocidente, ela deu um jeito de colocar um resumão de tudo que aconteceu nos jogos anteriores, só pra você não cair de para-quédas no meio da treta, sem nem conhecer os personagens. Não é necessário que você tenha jogados todos os anteriores, mas é preciso dizer que o game faz severas referências a acontecimentos passados e que tudo faz muito mais sentido – e tem muito mais impacto – pra quem já é familiar com a história do Dragão de Dojima.

O enredo segue acompanhando a vida de Kazuma Kiryu, um cara casca grossa mas que tem um baita coração e já se meteu em uma quantidade inacreditavél de enrascadas devido ao seu envolvimento com a famosa máfia japonesa. O jogo começa com você descobrindo que todas as confusões do jogo anterior acabam levando o coitado do Kiryu para o xilindró, onde ele acaba ficando preso durante três anos, cumprindo pena por uma série de delitos.

O problema é que enquanto Kiryu cumpre pena, seus chegados sofrem represálias da população e da impressa por terem mantido contato com ele, o famoso Dragon of Dojima. A mais afetada com certeza é Haruka Sawamura, filha adotiva de Kazuma e que o acompanha desde o primeiro jogo da série. Haruka tentou virar uma estrela pop, mas quando estava no auge da sua carreira resolveu abidicar de tudo para viver com seu pai adotivo. A aposentadoria foi tão polêmica, que a pobre coitada nem pode voltar a conviver com os órfãs do orfanato que ela tinha montado junto com Kiryu no segundo jogo, o que acaba obrigando-a a abrir mão de tudo e fugir mais uma vez.

É ai que começa o problema. Ao sair da prisão Kiryu retorna ao orfanato e descobre que Haruka não deu sinal de vida nos últimos três anos. Preocupado, ele decide ir atrás da filha e descobrir o que aconteceu. Mas, infelzimente, nada é fácil na vida de um ex-yakuza, e como não poderia deixar de ser, ele tem de distribuir muita pancada para descobrir o que fazer.

A partir dai o game segue a linha de sempre. A história se desenrola com novos fatos sendo revelados durante uma briga e outra. Yakuza 6 mantem o legado dos jogos anteriores de ser basicamente um “beat’n up” moderno, onde o foco é sair na porrada e aproveitar a experiência pra melhorar suas habilidades.

O grande ponto alto do game é a forma como a história se desenrola, apresentando sempre novos personagens e novas tramas e tornando tudo mais denso do que deveria. É como se cada jogo da série fosse uma temporada nova, mas a impressão que dá é que a história só fica melhor com o tempo.

Enquanto tenta descobrir o que aconteceu com Haruka, Kiryu acaba se deslocando por duas localidades diferentes: Tokyo e Hiroshima. O primeiro já é bem conhecido dos fãs da série, já que serve de base para o primeiro jogo. Mas como de praxe, nenhum dos dois mapas é imenso como a maioria de jogos de mundo aberto, o que não quer dizer que não ofereçam atividades alternativas…interessantes.

Atividades recreativas

Assim como nos jogos anteriores, você não precisa somente se dedicar a avançar na quest principal. Algumas missões secundárias vão aparecendo pelo meio do caminho e acabam te recompensando com itens, dinheiro e experiência. Mas talvez o que mais chame atenção em Yakuza sempre tenha sido as atividades alternativas que a série apresenta.

Em Yakuza 6 o jogador pode aproveitar para visitar um fliperama e conferir antigos jogos da SEGA – com a possibilidade de deixar seu nome no ranking dos maiores pontuadores, ou visitar uma espécie de Lan-House onde o foco é conversar com Webcam Girls e convence-las a tirar a roupa. Mas não se empolgue demais, pois o jogo não apresenta nudez explícita.

Além disso também é possível gerenciar um pequeno time de beisebol, organizar uma pequena milica de encrenqueiros para derrubar uma organização criminosa num mini game que lembra bastante os tower defense em flash da década passada, jogar mahjong conta os maiores de Tókyo, ou ainda praticar pesca submarina e enfrentar alguns monstros marinhos bem interessantes. Tem muito mais coisas pra fazer na verdade, mas são tantas que nem vale a pena mencionar tudo.

Talvez o maior trunfo de Yakuza 6 seja a forma como o game consegue te manter preso a história, fazendo com que o jogador anseie por avançar no plot, ao mesmo tempo que te oferece tantas outras coisas pra fazer. Mas não importa o que você faça, uma hora ou outra, tudo vai acabar em pancadaria. Portanto, o principal elemento de gameplay é a troca de socos.

E não faria sentido algum caso as brigas de Yakuza 6 fossem monótonas e sem graça, certo? A SEGA parece ter plena ciência disso, e por isso não economizou esforços pra deixar todo os sistema de lutas o mais afiado possível. Apesar de ainda ter potencial pra melhorar, Yakuza 6 apresenta um sistema mais divertido e simples do que os jogos anteriores, permitindo que mesmo o jogador novato consiga entender como faz pra vencer a peleja e melhorar suas habilidades.

Mesmo assim, o game ainda conta com falhas nesse quesito. Algumas habilidade especiais são mais comuns do que as outras, fazendo com que estas sejam repetidas seguidamente entre um confronto e outro. A falta de inimigos que sejam realmente desafiadores também pode tornar a experiência um pouco mais chata de vez em quando, já que o repeteco é tão frequente, que muitas vezes você vai preferir andar mais só pra evitar um grupo de inimigos mais a frente.

Isso reflete também em algumas side quests que acabam ficando muito mais razas do que se esperava. Como o foco do jogo é a briga e o confronto, não existem muitas formas de se elaborar uma história mais profunda e com desfechos que não terminem com você descendo a lenha em alguém que não presta. A mecânica é divertida, mas quando repetida excessivamente, cansa de verdade.

Por fim não posso deixar de falar do sistema de itens do jogo, que ficou bem abaixo do que eu esperava. Parece que este é o principal aspecto do jogo que não evoluiu muito desde o primeiro Yakuza, resumindo-se somente a objetos que melhoram alguns dos seus atributos, sem maiores apelos.

Resumindo, Yakuza 6 é um baita jogo que promete de divertir se você se permitir a não levar algumas coisas tão a sério. Fica muito mais fácil se você já estiver acostumado com os jogos da SEGA dos anos 90, mas apesar do grande enredo, a impressão que dá é que algumas coisas poderiam ter sido resolvidas mais cedo, caso uma pessoa resolvesse usar a cabeça e parar de fazer gracinha.

Eric Arraché Gonçalves é o Fundador e Editor do Critical Hits. Desde pequeno sempre quis trabalhar numa revista sobre videogames. Conforme o tempo foi passando, resolveu atualizar esse sonho para um website e, após vencer alguns medos interiores, finalmente correu atrás do sonho.

Compartilhe