Transportar as páginas dos quadrinhos para o cinema nunca foi uma tarefa muito fácil, adaptar personagens, arcos e histórias para uma mídia mais popular poderia parecer algo impossível. Entretanto, 10 anos depois do não tão ambicioso primeiro Homem de Ferro, quem poderia imaginar que a Marvel conseguiria construir um universo apaixonante com mais de 18 filmes, contando histórias que nunca sonhamos que poderiam sair das páginas das HQs e adaptando os seus heróis para se tornarem verdadeiros ícones da cultua pop. Vingadores: Guerra Infinita é o ápice de tudo isso, a junção de toda essa mitologia construída por mais de uma década para cominar em um épico, que entrega tudo que foi prometido.

Se por algum motivo você não está tão familiarizado com o MCU ou simplesmente não viu os trailers de Guerra Infinita a premissa da história é muito simples. Thanos – o Titã Louco – está atrás das seis Joias do Infinito, poderosas pedras que carregam aspectos da criação do universo, que quando juntas têm o poder de acabar com metade do universo com um estalar de dedos. Nesse cenário pré-apocalíptico, os Vingadores e os demais heróis da Marvel partem para um desafio que mudará o destino do universo.

Logo de cara, uma coisa precisa ser dita, embora o nome do filme seja Vingadores, essa é na verdade uma história sobre Thanos. Apresentado pela primeira vez em 2012, a figura da sua ameaça vem sendo construída por mais de 6 anos, entretanto, concretamente pouco sabíamos sobre as suas origens e motivações. Guerra Infinita então trata de construir magnificamente quem é esse ser que tem essa ambição tão grandiosa. Fazendo um paralelo com outro excelente vilão do MCU, Thanos é tão bem desenvolvido quanto o Killmonger, em Pantera Negra.

Mas enquanto o antagonista do Rei T’Challa tem uma construção mais modesta, em um escala bem menor, que até se apoia em fatos reais para criar as diversas camadas do personagem. Thanos é um vilão galáctico, um ser com poderes inimagináveis, mas que em tela sempre se demonstra sereno, expondo os seus objetivos de forma clara e até plausível, criando para com os espectadores não apenas um sentimento de empatia, mas de entendimento. Nos diversos diálogos que ele tem com os heróis, Thanos em nada lembra o Titã Louco, arriscaria dizer até que chega a ser uma versão melhorada daquela apresentada nos quadrinhos, sendo um personagem bem mais racional e principalmente focado no seu objetivo.

Indo para o lado dos heróis, até porque temos mais de vinte deles para falar. O roteiro não tem muita enrolação, fazendo com que a apresentação de cada herói  seja ao mesmo tempo simples, mas extremamente caprichada. Talvez o melhor exemplo disso seja uma cena em que Steve Rogers surge da penumbra, indicando que ele finalmente sairá das “sombras” para cumprir o seu papel como herói e ao mesmo tempo marca o nosso reencontro com o personagem tão amado que não víamos desde Guerra Civil. Agora que todos já foram devidamente apresentados, chegou o momento deles interagirem entre si e esse sem dúvida é um dos pontos mais fortes do filme.

Como já havia sido mostrado nos trailers, inicialmente o longa realmente se divide em três núcleos principais – Wakanda, Titã e Espaço, que são bem distintos, tanto nas interações quanto na qualidade.

No Espaço temos Thor junto com os Guardiões em uma dinâmica que simplesmente rouba o filme. O tom mais cômico que o Deus do Trovão recebeu em Ragnarok se encaixa perfeitamente aqui, promovendo diálogos hilários com Rocket Raccoon, Drax, Peter Quill e Mantis, esse núcleo nos entrega a verdadeira aventura Marvel, com uma jornada bem humorada, mas que sabe o momento certo em que é preciso dramaticidade. O tom mais pesado é justamente trazido pela Gamora, onde é explorado a sua relação como filha de Thanos, resultando em um crescimento e aprofundamento emocional para ambos os personagens.

Já em Titã está o Homem-Aranha no meio de dois egos enormes, Doutor Estranho e Homem de Ferro. Esse trio improvável é o que promove as principais reflexões sobre o papel dos heróis em sacrificar tudo para defender a humanidade. Além de aprender um com o outro, Tony Stark e Stephen Strange funcionam de forma indireta como dois tutores para o jovem Peter Parker, mas como sempre acontece na relação de mestre e pupilo, no fim do dia, é o aluno que acaba se mostrando até mesmo mais maduro que os seus professores.

Por último temos o núcleo de Wakanda, que junta o Capitão América, Viúva Negra, Visão, Feiticeira Escarlate, Pantera Negra e todos os demais heróis que estavam faltando. Embora esse seja obviamente o núcleo com mais personagens, infelizmente o roteiro peca em deixar pouco tempo para que as suas relações sejam desenvolvimento. Assim, o aprofundamento do romance entre Wanda e o Visão é muito bem construído, mas em contrapartida reencontros tão esperados como o do Capitão com o Bucky e a da Viúva Negra com Bruce Banner ficando subaproveitados. Passando a impressão que todos os outros dois núcleos foram bem pensados, não sobrando espaço para o desenvolvimento desse último.

Já na ação, os irmãos Russo souberam pegar toda essa experiência de mais de uma década de filmes para nos entregam não só os heróis nas suas formas mais poderosas, mas como também as representações mais criativas e bem feitas das suas habilidades. Se você já ficou impressionado com os poderes do Doutro Estranho no seu filme solo, aqui isso é elava a enésima potencia. O mesmo acontece, com o Homem de Ferro e o Homem Aranha com as suas novas armaduras. Mas o destaque mesmo vai novamente para o Thor, o Filho de Odin finalmente demonstrou todo o seu poder e sem dúvidas protagonizou uma das sequências de ação mais empolgantes de todo MCU.

Para permitir que os heróis brilhem, também tivemos boas atuações dos generais de Thanos, intitulados a Ordem Negra. Nos quadrinhos seus poderes são muito interessantes, mas como não havia tempo para explicar isso detalhadamente na trama, elementos das suas principais habilidades são colocados nos momento de ação, permitindo que o espectador mais leigo consiga entender qual é característica de cada um desses vilões. Aqui vale também um destaque para a luta da Próxima Meia-Noite com o Capitão América, que surpreendentemente é a melhor de Steve Rogers no filme.

Já sobre a trilha sonora, o trabalho do compositor Alan Silvestri vai muito além de apenas tocar o clássico tema dos Vingadores. Na verdade, como o perigo de Thanos está sempre eminente a trilha sonora corresponde a esse sentimento entregando tons mais melancólicos, mesmo após vitórias, onde imaginaríamos que a trilha iria ser aumentada para potencializar o momento.

Finalizando, talvez o ponto que torne Vingadores: Guerra Infinita tão único, são as consequências. Obvio que não iremos entrar em detalhes, mas saibam que diferente da maioria dos filmes da Marvel, onde embora existam consequências, elas são extremamente diluídas. Aqui, temos consequências reais, os eventos de Guerra Infinita mudam de forma concreta o status quo de todos os heróis, assim como tudo que aprendemos nesses 10 anos de universo cinematográfico.

Por tudo isso, Vingadores: Guerra Infinita é amálgama de todos esses 18 filmes. Uma junção de todos os acertos – e até alguns erros – desses mais de 10 anos, uma prova concreta de que a Marvel não está apenas expandido a sua mitologia no cinema, mas novamente levando o gênero de filmes de heróis para outro patamar, assim como fez lá no início com o primeiro Homem de Ferro. Uma aventura épica, digna de uma melhores sagas da Casa das Idéias.

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