Na década de 90, os jogos point and click dominavam o mercado. O problema é que ficar procurando itens pelo cenário o tempo todo começou a saturar depois de certo momento, e o gênero acabou perdendo popularidade e praticamente sumindo durante a década seguinte.

Recentemente, com a ascensão dos indies, os jogos point and click começaram a ganhar destaque novamente. Só que mais uma vez, o problema se repetiu e alguns desenvolvedores parecem não entender que a nostalgia não é suficiente para cativar o mercado. Mas, pra nossa sorte, alguns desenvolvedores entenderam o recado e começaram a fazer jogos point and click com um pouco mais de tempero, como The Red Strings Club.

Olha, eu não vou mentir pra você caro leitor, eu não sei definir o gênero de The Red Strings Club. Até por que acho que o pessoal da Deconstructeam não é muito ligado nessas paradas de definição de gênero e coisa e tal. Piadas a parte, acredito que Red Strings Club chega a transcender o conceito puro de jogo e acaba sendo algo a mais, uma verdadeira experiência interativa.
O enredo é cativante e muito bem escrito, dando a impressão de que o jogador na verdade tá lendo um livro em alguns momentos. Não só pela qualidade do texto, mas pela quantidade. Não espere muita ação por aqui. A maior parte do tempo você vai passar tomando decisões baseando-se no que os outros personagens dizem.

O jogo começa te situando em uma época onde corporações dominam o mundo, e uma delas em particular, a Supercontinent Ltd, conseguiu criar um androide senescente capaz de entender as emoções humanas e tomar decisões baseadas nelas. A primeira atividade do jogador é decidir quais implantes instalar em algumas clientes, esculpindo formas em uma massa de biomassa. Ok, eu sei que isso tá mais estranho do que parece, mas vai por mim, até que é divertido. Depois de um pequeno problema, um dos androides foge e acaba indo parar em um bar bem peculiar.

Basicamente, a trama principal se passa dentro desse um bar em questão – o Red Strings Club, em um futuro bem distopico, com elementos cyberpunk que parecem ter saído diretamente de um livro de Shadowrun. Um dos personagens – e talvez o principal – é Donovan, um barman que tem uma profunda ligação com o bar que gerencia e de quebra, tem a habilidade de controlar a emoção das pessoas com os drinks que faz.

O conceito é bem simples. O cliente chega e pede uma bebida. Você como barman e traficante de informações deve dar um jeito de despertar a emoção certa, a fim de fazer o cliente falar o máximo possível. Pra isso, você usa as bebidas, o gelo e a coqueteleira. Cada bebida tem um efeito diferente, e a mistura entre elas faz com que o círculo vermelho se movimente pela tela. A forma como você vai chegar a emoção desejada fica a teu critério, mas a experiência é bem mais divertida do que parece.

Após cada atendimento, a androide – que é adotada por Donovan e seu parceiro, Brandeis, analisa a situação e auxilia o jogador a entender as entrelinhas daquela interação. É aqui que o jogo se destaca na minha opinião, pois você acaba percebendo o nível de profundidade que os desenvolvedores deram a cada um dos personagens utilizando somente texto. Em uma época em que jogos tentam fazer de tudo para nos mostrar reações simples através de movimentos faciais e corporais de personagens renderizados em engines de última geração – e falham, algumas vezes – é impressionante ver como um amontoado de pixels pode ser muito mais eficaz nesse sentido.

Cada decisão, cada resposta, parece ter peso no desenrolar da história. Vale a pena lutar para conter os avanços da Supercontinent, ou seria melhor ajuda-la a seguir em frente? O terceiro ato do jogo onde você gerencia uma verdadeira invasão industrial é totalmente dependente do seu desempenho dentro do bar, e é impressionante ver como uns tragos podem gerar tantas possibilidades diferentes.

O único problema de Red Strings Club é ser curto demais para o potencial que tem. Não que isso torne o jogo algo ruim, entendo que por possuir várias linhas de segmento diferentes ele até é grande demais. O enredo é cheio de detalhes importantes que podem passar desapercebidos, de reviravoltas que vão te fazer repensar todas as suas ações e no fim pensar que na verdade, tudo não passou de uma grande avaliação psicológica do que você acredita ser certo e errado. Mas eu não pude deixar de lamentar o fato da trama não ser mais explorada quando cheguei ao fim do game. A verdade é que eu quero mais.

Apesar de ser um tanto monótono, o jogo me cativou muito mais do que eu esperava. Admito que talvez ele não seja pra todo mundo, já que é bem provável que o jogador mais interessado em ação acabe desistindo da experiência logo nos primeiros quinze minutos. Mas, se você é daqueles que aprecia um bom enredo, boa ambientação, e gráficos retro – ou só curte um bom jogo cyberpunk, The Red Strings Club é uma ótima pedida.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pela Devolver Digital.

João Víctor Balestrin Sartor é colaborador e sex-symbol do Critical Hits. Admirador das boas histórias, almeja de verdade escrever um livro algum dia. Divide seu tempo entre à leitura, jogatina, trabalho, engenharia e quando sobra tempo, vive.

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