Para começarmos a falar de Os Últimos Jedi é preciso dar alguns passos para trás, até porque estamos tratando de uma franquia com mais de 40 anos. Bem, tudo começou em 1977, com o lançamento de Uma Nova Esperança, episódio que dava início a primeira trilogia de Star Wars, que quando finalizada em 1983 já era uma franquia gigante com milhares de fãs ao redor do mundo. Posteriormente George Lucas voltou para contar a história de Anakin, aquele que se tornaria um dos maiores vilões da cultura pop. Infelizmente esse retorno não foi tão triunfal e deixou a franquia em uma espécie de “limbo” até a Disney comprar a Lucasfilm em 2012. Então dar-se início ao renascimento de Star Wars, sendo definitivamente concretizado em 2015 com o Despertar da Força. Esse segundo retorno foi bom, mas com certeza poderia ter sido melhor, J.J. Abrams não se arriscou muito e preferiu seguir os mesmos moldes narrativos do episódio IV. Não que isso seja ruim, mas esperávamos aquele sentimento que trouxesse a nossa paixão por essa galáxia tão distante de volta. E é exatamente isso que Os Últimos Jedi entrega.

Logo de cara, podemos perceber uma decisão extremamente acertada de Rian Johnson, a de começar o novo filme exatamente do ponto final do Desperta da Força. Então presenciamos desde o começo do treinamento da Rey e a relutância de Luke em passar os ensinamentos Jedi para a jovem garota. Também acompanhamos a continuação da guerra entre Primeira Ordem e os Rebeldes, com a General Organa assumindo um papel de liderança crucial. Esse é o ponto inicial da nossa jornada, que superficialmente pode até parece um pouco com O Império Contra-Ataca, mas no decorrer da história se mostra um filme único dentro da franquia.

Único, porque simplesmente quebra com a clássica jornada do herói e vai além, destorcendo os conceitos de luz e escuridão tão fortes nesse universo. Luke apresenta a Rey e a toda uma nova geração o conceito da FORÇA, estabelecendo que a luz e a escuridão sempre coexistirão, e quanto mais forte um lado fica, uma força de mesma intensidade surgirá no lado oposto, esse é o equilíbrio mantido em tudo. Além dessa definição teórica, esse mesmo conceito será pincelado durante o restante do filme.

Mesmo que o título do longa indique um obvio foco nos Jedi, a trama da Resistência é desenvolvida de forma magnifica. Apoiados no que já foi testado em Rogue One, aqui também não vemos uma Rebelião utópica, usando Poe Dameron como foco, somos apresentados aos conflitos entre os próprios rebeldes, ideias sobre como tratar cada delicada situação convergem o tempo todo. Esses desentendimentos são usados como recurso para demonstrar que mesmo com as diferenças, todos ali estão prontos para morrer por essa causa.

Além desses dois núcleos principais, a história também entrega uma espécie de side quest muito interessante envolvendo o Finn e a Rose, nova personagem interpretada pela estreante Kelly Marie. A jornada desses dois é uma parte mais “leve” do filme, onde somos apresentados a diversas novas criaturas, uma sequência de cenas em especifico é quase uma homenagem direta aquele momento no Episódio IV onde Obi Wan e Luke encontram Han Solo. Mesmo sendo um núcleo mais bem humorado, é nele que acontecem diversas reflexões importantes sobre o sentido da guerra entre a Rebilião e a Primeira Ordem, tudo isso é feito de forma sutil, mas sem deixar dúvidas sobre a sua verdadeira intenção. A parte triste é que o desfecho de toda essa aventura  é subaproveitado no final , ficando a sensação de que embora a jornada tenha valido apena, ela não teve o seu real proposito concluído.

Indo para o império, ou melhor, Primeira Ordem, nos aprofundamos mais no passado de Kylo Ren , mesmo com algumas pontas soltas, descobrimos porque o Líder Supremo Snoke tem tanta facilidade em controla-lo. Kylo Ren se revela como um dos personagens mais “quebrados” da franquia, as dúvidas e o medo que atormentam sua mente são os mesmo que perturbam a Rey e o roteiro faz questão de juntar esses personagens a partir desse ponto em comum. Como dito pelo mestre Yoda “O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento”.

É preciso citar também as belíssimas batalhas espaciais desse episódio. Logo no começo do filme presenciamos uma sequência incrível envolvendo X-Wings, Cruzadores, TIE fighters e até bombardeiros. Toda ação é muito bem dirigida e os pequenos subnúcleos desenvolvidos ali na batalha elevam ainda mais a tensão daquele momento. Tudo isso acompanhado por uma trilha sonora impecável composta por John Williams, trazem de volta a Star Wars o título de uma ópera espacial.

Mas no fim, o destaque maior é sem dúvidas Luke Skywalker. Mark Hamill entrega a sua melhor atuação e não seria precipitado dizer que o ator deve concorrer a alguns prêmios pela sua performance. Aqui vemos um Luke pleno, mesmo que no começo ele ainda hesite no chamado à aventura, nesse caso apresentado como o treinamento da Rey, Luke eventualmente aceita o seu papel nessa história e vai ascendendo durante todo o filme. Se alguns ainda tinham dúvidas se Luke era um Cavaleiro Jedi, o longa mostra que na verdade ele é um Mestre Jedi. Outra Skywalker que vai fazer muito marmanjo chorar é a Leia, não apenas pelo falecimento de Carrie Fisher, mas a nossa eterna princesa continua liderando a Resistência de forma magnífica e os seus discursos de esperança fazem paralelos direto com diversos momentos que vivemos no mundo atualmente.

Além de um primor técnico, Os Últimos Jedi é um amálgama de tudo que tem de melhor na franquia Star Wars. Rian Johnson consegue usar referências a todos os episódios e por diversas vezes faz autorreferências a conceitos apresentados no próprio filme, tornando a experiência de assistir uma segunda vez ainda melhor. Mesmo que O Despertar da Força seja o primeiro filme dessa nova trilogia, a pedra angular se encontra em Os Últimos Jedi, tudo construído aqui servirá como base para a continuação da história dessa galáxia distante.

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