Há mais de 40 anos, em meados da década de 60, no auge do movimento dos direitos civis nos EUA,  Stan Lee e Jack Kirby criaram o Pantera Negra, o primeiro herói dos quadrinhos de clara descendência africana, que daria início a um forte movimento de representatividade da comunidade negra nas HQs, posteriormente acompanhado pela criação de heróis como Falcão, Tempestade e Luke Cage. Assim como a Marvel já vinha fazendo com X-Men, Pantera Negra sempre teve a função de tocar na ferida, falando de forma clara e direta sobre segregação, racismo e injustiça social da época.

O desafio de trazer o Pantera Negra para os cinemas não era somente manter as críticas sociais na qual o personagem foi concebido, mas atualizá-las, porque mesmo que os negros agora não precisem ficar em pé nos ônibus, o racismo estrutural ainda existe. Representar esse forte tema, em um block burster de um dos maiores estúdios da atualidade definitivamente não foi uma tarefa fácil. Mas sem querer entregar muitos spoilers, eles CONSEGUIRAM.

Se você caiu aqui de paraquedas ou até mesmo foi ao cinema sem saber quem é o Pantera ou Wakanda, pode ficar tranquilo, porque logo no começo o filme toma um certo tempo para explicar da melhor forma possível o que é Wakanda, como ela foi criada, as cinco tribos que a compõem e principalmente a importância do Pantera para esse povo. O impacto já começa nesse momento, toda essa apresentação é bastante contemplativa, preocupando-se em demonstrar que mesmo sendo uma civilização extremamente avançada tecnologicamente, o seu isolacionismo permitiu que ela conservasse culturas e tradições dos povos africanos antes da sua colonização pelos europeus.

No meio disso tudo está o Rei T’Challa, um jovem criado para ser o governante de Wakanda, mas agora que está no trono encara difíceis questionamentos, que vão de encontro com a tradição do seu povo. O principal deles é a política de Wakanda de se manter escondida, sem interferir nos problemas globais, com a justificativa de proteger o seu povo e o vibranium que é encontrado em abundância na sua região.

Nesse momento somos apresentados ao principal antagonista da história, Killmonger. Logo de cara já é possível falar que de longe ele é um dos melhores vilões já feitos no MCU, parte desse mérito vem pela excelente atuação de Michael B. Jordan, entregando uma interpretação do mesmo nível que fez em “Creed: Nascido para Lutar”, mas isso só é possível porque o roteiro em momento algum apressa a sua construção. Basicamente é tomado o mesmo tempo para a construção do herói e do vilão, esse cuidado é essencial para demonstrar que ambos têm o mesmo intuito e amor por Wakanda, mas enquanto o Pantera busca soluções mais diplomáticas, Killmonger é um fruto do ódio onde foi criado e busca vingança por aqueles que historicamente escravizaram e colonizaram o seu povo.

Mesmo não sendo necessariamente um filme político, ele é todo norteado por questões políticas das mais variadas formas, no entanto, em momento algum ele toma partido ou cria uma definição de certo e errado, pelo contrário, as questões são deixadas tão em aberto que em alguns momentos você até chega a concordar em parte com Killmonger. Essa atitude é tomada justamente para fazer o público refletir sobre as injustiças sofridas pela comunidade negra e como esse comportamento ainda permanece das mais variadas formas na sociedade atual.

Mas ainda estamos falando de um filme de super-herói, certo? Sim! Então, esses temas pesados são encaixados na velha conhecida fórmula da Marvel, que ganha um tempero novo graças a personagens únicos que esbanjam carisma e nos conquistam nos primeiros minutos de projeção. Shuri, a irmã caçula de T’Challa é extremamente divertida e as suas interações com o seu irmão servem para dar um ar mais leve na história. Já Okoye, o interesse amoroso do rei, também traz importantes reflexões em momentos chave. Já Okoye, a líder das Dora Milaje, mostra a força e a lealdade dos guerreiros de Wakanda. Entorno dessas três que giram as principais cenas de ação do filme.

Já que entramos no tema, a ação do filme é dividida em extremos, quando o diretor Ryan Coogler precisa usar muitos efeitos visuais ele realmente deixa a deseja, com cenas claramente falsas e pouco criativas. Agora, quando o assunto é efeitos práticos principalmente em locais fechados, Coogler dá um verdadeiro show. Sem entrar em muitos spoilers a cena do cassino é simplesmente fantástica, com uma câmera bem mais movimenta e até arriscando uns planos sequência, esse é o momento em que a ação do Pantera brilha.

Outros dois personagens que valem ser citados aqui são Ulysses Klaw também conhecido como Garra Sônica e o agente Everett K. Ross, protagonizados respectivamente por Andy Serkis e Martin Freeman. A dupla serve como o principal alívio cômico da história, pelo lado de Ulysses a sua insanidade em momentos tensos provoca boas gargalhadas, já Ross é o estranho no ninho embasbacado com toda tecnologia presente em Wakanda.

Talvez se você for extremamente purista do cinema poderá encontrar uma falha ou outra no roteiro principalmente no momento de virada para o terceiro ato, que acontece muito em cima e acaba passando a impressão de um ato final mais exprimido, mas nada que atrapalhe significativamente a experiência do filme.

Assim como Wakanda une tradição e tecnologia, Pantera Negra consegue ser um excelente entretenimento que também levanta questões políticas extremamente atuais, trazendo poderosas mensagens sobre representatividade e segregação histórica. Mais do que um filme necessário, Pantera é um herói necessário para uma geração de jovens e adultos que lutará para não cometer os mesmos erros dos seus antepassados.

Formado em Sistemas de Informação, que no final da faculdade resolveu se meter nesse mundo do jornalismo. Apaixonado por joguinhos, filmes e sempre atrasado com as séries. O segundo Blizzardboy do Critical Hits.

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