Se você caiu aqui de paraquedas e quer saber apenas se Liga da Justiça é bom. Fique tranquilo e vá para o cinema com o coração aberto, porque sim, Liga da Justiça é um bom filme.

A própria história da produção de Liga já daria por si só um filme. O longa passou por bastantes refilmagens, troca de diretor, mudança de tom e até mesmo remoção de bigode. É possível acreditar que até mesmo o mais fiel fã da DC poderia estar com um pé atrás para saber qual seria o resultado de tudo isso. Após o polêmico Batman vs Superman, que até hoje gera discussões, Liga da Justiça tinha uma missão clara, direcionar para qual caminho o universo cinematográfico DC irá.

Esperança é a palavra que melhor descreve esse filme. Logo nas primeiras cenas somos apresentados ao mundo pós-morte do Superman, guiados pelas estrofes de Everybody Knows de Leonard Cohen vemos uma sociedade perdida, onde os heróis não estão mais nas ruas para combater o crime, salvar as pessoas e principalmente servir como um farol de moralidade para todos. É nesse cenário que uma ameaça maior surge e Bruce Wayne precisa reunir aqueles que ainda estão dispostos a defender o nosso planeta.

Como ainda não haviam aparecido nos filmes anteriores, passamos boa parte do primeiro ato sendo apresentados ao Flash, Aquaman e Ciborgue. Particularmente essa era uma parte que me preocupava bastante antes do lançamento, pois como faria sentido reunir a Liga da Justiça sendo que metade dela não tinha sequer um filme de origem. Felizmente, em poucos minutos cada um dos três novos heróis é apresentado de forma magnifica, com personalidade e dramas pessoas sendo construídos de forma orgânica com a história.

A história de Victor Stone é contada de forma rápida, mas nem por isso perde dramaticidade, a amargura e os dilemas pessoais do Ciborgue conseguem ser transmitidos de forma bem convincente nas pesadas conversas com o seu pai. Arthur Curry também tem uma apresentação não muito alongada, o jeito playboy e marrento trazido por Jason Momoa ao personagem é facilmente comprado, mas não chega a ser um grande destaque. Já Barry Allen, que no começo tem as suas principais interações com o Batman, vai além de um alívio cômico, explorando também a relação com o seu pai que está preso.

Se juntas já causam imagina juntas

Sem dúvida o ponto alto de Liga da Justiça é a interação entre os heróis. Usando a comédia trazida pelo Flash como um facilitador, aos poucos cada personagem vai “se soltando”, criando um dinamismo natural tanto em combate quanto nos diálogos. Mas isso não serve apenas para os novatos, a Mulher-Maravilha e o Batman também tem as suas relações aprofundadas, com conflitos sendo criados entre os dois em algumas decisões. Mas aqui também vale uma ressalva, o Homem-Morcego visto em Liga da Justiça é totalmente diferente de BvS, para obviamente dar um tom mais leve a trama filme Bruce Wayne está menos amargurado e tenta até soltas umas piadas, que não funcionam muito bem parecendo mais com aquele tio chato que tenta ser engraçado. Em contra partida, a Mulher-Maravilha é ainda melhor do que no seu filme solo, assumindo aqui um papel de liderança ainda maior, tanto nas batalhas como na firmeza dos seus diálogos.

Como já virou uma triste tradição nos filmes de heróis, o vilão é extremamente genérico e mal desenvolvido. Além do seu CGI duvidoso que simplesmente não transmite nenhuma emoção, o Lobo da Estepe em nenhum momento parece ser tão ameaçador como deveria, a sua motivação de reunir as Caixas Materna é rasa e o senso de urgência que ele provoca nós heróis é praticamente nulo. O mesmo acontece com os parademônios, inicialmente o visual até parece bacana, mas ao longo do filme vemos que todos são simplesmente iguais e descartáveis.

E o Superman?

De cara já é possível notar que as principais regravações feitas por Joss Whedon ocorreram especificamente com o Superman, em diversos momentos vemos um Clark Kent mais otimista e humano, saindo um pouco daquela visão de “divindade” trazida por Zack Snyder. Essa dualidade de tons não é reservada apenas ao Filho de Krypton, a ação e os diálogos de toda trama deixam claro uma produção que teve dois pais, e na maioria das vezes isso não conversa muito bem. O problema maior acontece na metade final do filme, quando a personalidade de cada herói construída anteriormente começa a ser contorcida para tentar se encaixada no roteiro. A derradeira batalha final parece ser literalmente outro filme, a filmagem de Whedon é menos arriscada e com isso acaba suprimindo aqueles belíssimos takes característicos de Snyder, onde o herói aparece em um plano elevado na contraluz.

Mesmo assim, o gosto que fica na boca depois de Liga da Justiça ainda é bom. O filme está longe de ser perfeito e claramente sofreu bastante pelos recortes feitos pela Warner que obrigaram a produção a ter no máximo 2 horas de duração. A direção dupla também não ajuda muito, tornando tudo ainda mais confuso. Na verdade, o que Liga realmente acerta é na interação entre seus personagens, mesmo que alguns ainda sofram com uma leve descaracterização, o saldo geral é positivo. Se em Mulher-Maravilha a DC conseguiu reacender a esperança do seu universo cinematográfico, Liga da Justiça mostra que já existe um norte a ser seguido. Resta saber se essa será o caminho certo.

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