Se você já leu Jogador Nº 1 ou conhece superficialmente a história, provavelmente imaginou que eventualmente essa obra chegaria aos cinemas, o livro escrito por Ermest Cline é uma verdadeira homenagem aos anos 80 com as mais diversas referências a cultura a pop. Embora a adaptação fosse algo inevitável, era preciso a pessoa certa para comandar esse projeto, alguém que conhecesse a década de 80 na palma da mão, mas ao mesmo tempo soubesse transportar o filme para os diais atuais e não apenas encharca-lo de referências. Ainda bem que a Warner achou essa pessoa. Ou melhor, conseguiu a pessoa perfeita para isso, o gênio Steven Spielberg.

Quem melhor poderia dirigir um filme que homenageia de forma tão clara ícones da nerdice, se não, um dos maiores diretores da atualidade, que desde da década de 70 encanta a todos com seus personagens e história tão marcantes. Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T., Indiana Jones, Goonies, De Volta para o Futuro, Jurassic Park- não importa a sua idade, todos esses são nomes reconhecidos mundialmente e facilmente evocam um sentimento de nostalgia. O próprio Ermest Cline, que participou do argumento e roteiro do filme, confessa que grande parte do seu amor pela década de 80 é por causa das obras Spielberg.

Mas se olharmos um pouco para a atrás, podemos notar que o gênero de filmes dirigidos por Spielberg tem mudado nos últimos anos, Lincoln, Ponte de Espiões, The Post – todos continuam excelentes, porém são dramas mais sérios que nada lembram a aventura que nos empolgava em Indiana Jones ou a magia mostrada em E.T. Felizmente, em Jogador Nº 1 esse Spielberg está de volta em sua forma mais plena, mostrando que ainda sabe pegar na nossa mão e nos levar para uma jornada emocionante.

Mas, do que se trata Jogador Nº 1? Se você se fez essa pergunta ou foi assistir sem saber nada sobre o livro, a trama rapidamente te introduzirá a esse universo. Jogador Nº 1 se passa no ano de 2045 e nos apresenta um mundo em decadência, passando por uma grave crise energética, onde a maioria das pessoas encontra refúgio em uma realidade virtual chamado “OASIS”. Lá elas podem estudar, se aventurar e basicamente fazer tudo que não é possível no mundo real. Mas um belo dia, James Halliday, criador desse fantástico lugar, morre e deixa uma serie de pistas que tem como prêmio final o controle total do OASIS.

Nessa caça pelo easter egg deixado por Halliday, conhecemos o nosso protagonista Wade Watts (Tye Sheridan), um jovem órfão fascinado por cultura pop que tem uma vida sem muitas expectativas e com seu avatar Parzival, encontra no OASIS uma escapatória para um mundo melhor. Ele e seu melhor amigo Aech (Lena Waithe) são Gunters, jogadores que buscam solucionar o mistério deixado por Halliday. Mas eles não são os únicos, como antagonista da história temos a corporação IOI, comanda pelo empresário Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), que deseja controlar o OASIS para aumentar ainda mais os ganhos da sua empresa.

Embora Sorreto tenha a estrutura mais caricata possível de um vilão, na sua essência, o filme não se trata da batalha entre o bem e o mal ou herói e vilão, o que realmente nos prende nessa trama é a aventura da jornada. E é nessa jornada que Wade eventualmente conhece Art3mis (Olivia Cooke), uma jogadora bem mais experiente que o ajudará a desvendar as pistas das três chaves deixadas por Halliday. A relação entre os dois é extremamente importante para o andamento da história e embora ela seja bem contada é perceptível a falta de aprofundamento do casal, principalmente na personagem da Art3mis que se torna um pouco rasa.

Aqui também vale outra ressalva, para aqueles fãs do livro, algumas alterações podem incomodar. Isso porque as provas para conquistar as três chaves que dão acesso ao easter egg são drasticamente modificadas, porém esse sacrifício de distancia-se um pouco da obra original é necessário para cria uma conexão com um público diferente. Assim como dito no começo do texto, o trabalho aqui não era apenas de adaptação e sim atualização da obra para os dias atuais.

Deste modo, a essência de envolver muitas referências é mantida, o que é modificado são as situações, para aproximar aqueles que não necessariamente são fanáticos por cultura pop. Falando em referências, uma preocupação muito grande tanto de Spielberg quanto do roteirista Zak Penn, foi não espalhar referências a torto e a direito pelo filme, na verdade elas sempre têm uma função especifica, hora são usadas como parte fundamental da trama, ao ponto de todo um arco ser contado a partir de uma única referência e em outros momentos elas são pequenas recompensas entregues para aqueles mais antenados. Porém, de forma alguma o filme usa o recurso da referência para privar o sentimento de parte do público – um robô gigante é sempre legal, a única diferença é que se você souber quem é aquele robô gigante a sua experiência será elevada um pouco mais.

Seguindo com esse show de referências, o ritmo do filme é extremamente constante, ele começa com uma apresentação rápida e de lá até os créditos se mantém na mesma cadência, quando um problema é resolvido no OASIS, somos lembrados que o mundo real ainda existe e nele as coisas não podem simplesmente ser resolvidas com uma arma de plasma ou um granada que volta no tempo.

Essa troca entre OASIS e a realidade permiti observar um fenômeno muito curioso, que torna os avatares dos personagens mais “reais” que os próprios personagens no mundo real. Isso porque o mundo virtual muitas vezes nos dá a coragem que não temos para nos expressar de forma 100% sincera, falar aquilo que não conseguiríamos pessoalmente ou até mesmo fazer algo que tenhamos medo, esse recurso é muito bem utilizado para entregar uma camada adicional aos personagens. Os conhecemos no mundo real e no OASIS vemos quem eles gostariam de ser, os defeitos que preferem esconder e as qualidades que gostam de mostrar.

Mesmo com algumas simplificações em relação a obra original, Spielberg entende o sentimento transmitido pelo livro e consegue amplificar, entregando uma OASIS que facilmente se conecta com qualquer geração, não importando se você é fã de músicas da década de 80 ou apenas joga Overwatch no tempo livre. Jogador N° 1 é uma jornada incrível que a muito não víamos no cinema, um filme totalmente “good vibes”, que empolga e emociona na mesma medida. É a prova definitiva que mesmo com mais de 50 anos de carreira, Spielberg ainda conserva uma alma jovem pronta para encantar novas gerações.

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