A Ninja Theory é um estúdio independente que produziu dois jogos que eu gostei muito (DmC: Devil May Cry e Enslaved: Odyssey to the West) e que agora, ao invés de trabalhar novamente para uma publisher, decidiu criar o seu próprio jogo, numa espécie de AAA independente, como eles chamaram. Hellblade: Senua’s Sacrifice é o resultado desse trabalho, e hoje vamos descobrir se ele vale a pena ou não.

Em Hellblade: Senua’s Sacrifice, você controla Senua, uma guerreira celta que literalmente viaja ao inferno para salvar a alma do amado dela, Dilion, que foi morto pelos vikings do norte. Senua é uma personagem com um ponto muito peculiar sobre si: ela tem sérios problemas neurológicos, e ouve vozes constantemente. esse detalhe faz muita importância para o jogo, e o game avisa isso logo de cara: certas cenas do jogo são fortes, especialmente para quem sofre de distúrbios do tipo. Além disso, o jogo faz uma recomendação: jogue usando um fone de ouvido 3D, pois a experiência fazendo isso é totalmente diferente.

Eu comecei jogando o jogo sem um fone e só usando o áudio da televisão, quando eu lembrei de colocar o fone, percebi porque o jogo havia dito para fazer isso: a experiência é completamente diferente mesmo. Ao usar o fone, você realmente ouve as vozes da cabeça de Senua como se elas estivessem na sua própria cabeça. É uma experiência extremamente interessante, pois há momentos em que parece que você está ficando louco.

As vozes falam com você a todo momento, dizendo para onde você deve ir, dizendo para onde você não deve ir, dando dicas certas e erradas, dizendo como você deve lutar, te encorajando e te dizendo para você desistir. Tudo isso ao mesmo tempo, de maneira muito semelhante a com a cabeça de alguém com esse tipo de distúrbio funciona, ajudando a criar uma das melhores experiências de imersão que eu já senti desde que eu jogo e avalio jogos. Você realmente se sente dentro da cabeça de Senua, já que ela mistura os próprios pensamentos com o das vozes.

Por falar em vozes, esse é um jogo carregado nelas, seja nas que Senua ouve, seja na forma como o game usa para te contar a história de Senua e do mundo em que ela vive. Boa parte da experiência que você vai ter no jogo é por meio dos diálogos de Senua, seja com ela mesma, seja com o guia dela, seja contra os adversários dela, e esse é tanto um ponto positivo quanto um ponto negativo do jogo.

O ponto positivo é que a narrativa de Hellblade: Senua’s Sacrifice é excelente. Poucos jogos contam uma história tão bem pensada e elaborada como o jogo. O ponto negativo é que há momentos em que o jogo prioriza a narrativa e torna o gameplay extremamente arrastado. Eu ainda não toquei nesse quesito, aliás, porque esse meio que é o ponto fraco do jogo, e é dele que vamos falar agora.

Para salvar Dilion, Senua deve entrar em Hellheim, o inferno, só que, para isso, ela precisa antes enfrentar Valravyn e Surtr, um adversário mestre das chamas e outro das ilusões. Até você realmente enfrentar alguém, o jogo vai se arrastar pra caramba, com você passando por puzzles e mais puzzles que envolvem usar os objetos do cenário para encontrar a perspectiva certa e assim por diante. Depois de passar por esses primeiros puzzles, você finalmente enfrenta seus primeiros adversários, em combates de duração extremamente rápida, para depois encontrar mais puzzles e repetir.

Essa estrutura do jogo se repete durante ele todo, você vai passar um bom tempo resolvendo puzzles e bem menos tempo no combate. O sistema de combate do jogo é bem interessante, ainda mais quando o game começa a colocar mais inimigos na tela e você vai aprendendo a usar o sistema de combos de Senua. O problema mesmo é o que você faz entre eles. Senua é bem lenta para se locomover e certos lugares do jogo não têm uma navegação tão intuitiva assim. Às vezes, você girou tanto durante uma batalha que você se perde e não sabe se está avançando ou recuando, e  depois, para voltar para o caminho certo, você demora uma eternidade.

Eu não faço ideia de como a Ninja Theory poderia corrigir isso, mas infelizmente esse é um ponto fraco do jogo: a progressão em muitos momentos é extremamente arrastada, e alguns puzzles do jogo realmente não são tão divertidos assim de se jogar, ainda mais quando você tem que vencer esses desafios em sucessão sem ver nenhum inimigo nem nada do tipo por bons 30 ou 40 minutos de jogo, fazendo assim o “gameplay ruim” de Hellblade estar presente numa proporção de cerca de 2/3 do jogo.

Esse detalhe melhora consideravelmente da metade pro final do jogo em vários momentos, mas infelizmente ainda há áreas onde parece que você está tentando só resolver mais um puzzle para que a “parte boa” do jogo volte, e na verdade você acaba descobrindo que são só mais 3 ou 4 puzzles antes da parte boa voltar. Como eu disse anteriormente, por isso, há momentos em que o jogo se arrasta demais, passando do limite do aceitável, e é por isso que eu ressalto aqui: Hellblade não é para todo mundo, e eu provavelmente não teria terminado Hellblade não fosse a história do jogo e a curiosidade para ver como ele ia se encerrar.

O jogo é uma experiência sensacional, realmente muito boa mesmo, é um espetáculo tanto visual (o jogo é um dos mais lindos do PlayStation 4) quanto sonoro (tanto a trilha sonora quando o ambiente de som foi muito bem construído), mas tem esses problemas de gameplay que acabam fazendo você querer “passar logo as partes ruins” só para saber o que acontece. No fim das contas, Hellblade é uma ótima experiência, apesar do gameplay.

Ao todo, são cerca de 10 horas de jogo para você chegar a um final surpreendente, que vai fazer tudo o que você passou no game ter valido a pena. Depois do jogo, ainda é possível ver um documentário sobre doenças mentais e sobre o próprio desenvolvimento de Hellblade, algo que eu gostaria de ver mais as desenvolvedoras fazendo. Nesse documentário, os diretores do jogo explicam um pouco sobre a pesquisa que eles fizeram e o trabalho que eles colocaram para fazer Hellblade ser a experiência única que ele é, e eu realmente recomendo que você veja o vídeo em questão.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PS4 fornecida pela publisher.

Eric Arraché Gonçalves é o Fundador e Editor do Critical Hits. Desde pequeno sempre quis trabalhar numa revista sobre videogames. Conforme o tempo foi passando, resolveu atualizar esse sonho para um website e, após vencer alguns medos interiores, finalmente correu atrás do sonho.

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