Karate Kid é um dos maiores clássicos do cinema dos anos 1980, e se você nunca assistiu ainda está em tempo de fazê-lo e de adicionar dignidade à sua vida. Lançado em 1984, o filme imortalizou personagens como Daniel Larusso, Senhor Myiagi, e os infames Johnny Lawrence, John Kreese e o dojo Cobra Kai.

Com duas sequências nos cinco anos seguintes, Karate Kid teve uma queda de qualidade em suas histórias, principalmente porque os filmes seguintes foram amontoados de clichês que já haviam sido exibidos de alguma forma no primeiro filme. Além disso, a ausência de antagonistas com o peso de Kreese e Lawrence também influenciaram para esta queda de qualidade.

Décadas mais tarde, em 2010, Karete Kid recebeu um reboot dos mais abomináveis da história do cinema. No lugar do karatê, entrou o kung fu, e o filme contou com Jackie Chan e Jaden Smith nos papéis dos protagonistas, fazendo as vezes de Miyagi e Larusso. Esse filme foi um enorme desserviço à franquia e uma afronta ao clássico de 1984, tanto é que recebeu diversas críticas e logo caiu no esquecimento, felizmente.

Quando ninguém mais acreditava que qualquer coisa relacionada a Karate Kid pudesse surgir no mundo da cultura pop, eis que o YouTube Red anuncia uma websérie com o pesado nome de Cobra Kai.

Como o nome sugere, desta vez o foco não seria o “mocinho” Daniel Larusso, mas sim o infame dojo que foi sinônimo de antagonismo durante a trilogia original. E para completar, a pessoa que estaria no comando do Cobra Kai seria ninguém menos que Johnny Lawrence, o maior inimigo de Larusso. Surgia aí, uma receita que tinha um potencial enorme, mas que também carregava um grande perigo de manchar o legado deixado pelo filme. Felizmente, o YT RED soube como levar esta produção.

Ataque primeiro

Vivendo à sombra de suas derrotas e erros no passado, Johnny Lawrence deixou de ser um promissor kareteca, e se tornou um adulto pobre, solitário, entregue ao álcool e com sérios problemas de relacionamento com todo e qualquer ser humano, inclusive o seu filho adolescente.

Morando em um cortiço, ele se recusa a ser simpático ou minimamente agradável com seus vizinhos – entre eles Miguel Diaz, um magricelo filho de imigrantes latinos que sofre bullying na escola. O ex-Cobra Kai vê sua vida entrar em um buraco ainda maior ao ser demitido e ver seu carro (seu único bem) ser batido por um outro veículo.

Mas a vida de Lawrence dá uma guinada quando, bêbado em uma loja de conveniência ele vê um grupo de adolescentes ricos zombando de Miguel Diaz. A princípio Johnny não liga para o ocorrido, mas quando Diaz começa a apanhar do grupo e acaba caindo em cima de seu carro, ele se enfurece e faz uso de suas velhas habilidades de karateca, espancando os adolescentes e de certa forma protegendo Diaz. O jovem vê então em Lawrence uma espécie de herói e insiste para que ele lhe ensine o que sabe para que possa se defender dos valentões na escola.

Apesar de se negar a ser o sensei de Diaz, Johnny acaba cedendo, afinal lutar karatê é a única coisa que ele sabe, e é a forma que ele pode se provar perante o seu padrasto e perante o seu próprio passado.

Na contra-mão de tudo isso, temos Daniel Larusso, o ex-pupilo do sr. Miyagi é um empresário de sucesso do ramo automotivo. Casado e vivendo com sua família digna de comercial da margarina, Larusso aparece constantemente na TV nos comerciais de sua loja, algo que martela ainda mais a já perturbada mente de Johnny Lawrence.

Para completar a penitência de Lawrence, ele ainda acaba tendo de confrontar Larusso em uma situação de seu cotidiano, e vê o seu eterno inimigo lhe ser caridoso, o que desperta nele um pouco do espírito adormecido do verdadeiro Cobra Kai.

Ataque com força

Ao aceitar ser o Sensei de Diaz, Lawrence tenta passar ao seu novo pupilo a filosofia do dojo Cobra Kai: ataque primeiro, ataque com força e sem piedade. As lições do Sensei acabam auxiliando Diaz a lidar com os problemas do seu dia-a-dia, especialmente na escola, onde ele finalmente consegue confrontar as pessoas que fazem bullying contra ele e contra os “nerds” e excluídos do colégio.

Tal situação é no mínimo irônica para Lawrence, já que no passado, eram ele e seu grupo que atacavam e zombavam dos diferentes do colégio. Agora, tutoriando Diaz, ele se vê do outro lado do jogo, e tal situação remonta em sua mente seu passado esquecido e que quase ninguém conhece.

O sucesso de Diaz em lidar com os valentões acaba atraindo uma legião de novos alunos para Lawrence, mas seus métodos pouco ortodoxos fazem com que boa parte dos jovens desista de ser um Cobra Kai, uma espécie de pré-seleção de acordo com Lawrence, para que somente aqueles realmente fortes e capazes ficassem para aprender as lições que ele tem a ensinar.

A relação de Lawrence com Diaz é um dos pontos altos da série. O jovem, todo moldado no politicamente correto, acaba servindo como uma espécie de guia moral para Lawrence, que por sua vez mostra para Diaz que a vida é muito mais cruel com as pessoas do que ele imagina. A conexão que é criada entre ambos é fundamental para o equilíbrio dessas duas personalidades tão diferentes, e que acabam sendo de extrema importância um para o outro.

Atormentado com a volta do Cobra Kai, Larusso mostra que apesar de sua bem-sucedida vida, não deixou o passado para trás, e faz de tudo para que o dojo de Lawrence não prospere, tomando inclusive diversas atitudes de caráter extremamente duvidosas.

Ao mesmo tempo, Larusso acaba voltando a praticar o karatê que lhe fora ensinado por Miyagi, o que lhe ajuda a trazer um pouco de equilíbrio para a conturbada situação que ainda envolve problemas familiares e no trabalho.

Sem piedade

Os problemas de relacionamento de Lawrence com seu filho adolescente também tem importante foco. Pai ausente, ele vê seu filho rumando para um caminho ruim e tenta intervir sem muito sucesso. Além disso, ele é obrigado a confrontar a mais inusitada das situações envolvendo seu filho e seu antigo algoz, Larusso – e se vê em uma daquelas situações impossíveis onde mesmo vencendo ele acabaria perdendo.

Cobra Kai, apesar de contar com um roteiro bastante previsível, é uma ode ao clássico Karetê Kid e traz de volta toda sua essência: os confrontos internos dos protagonistas, situações envolvendo família, humor, relacionamentos e tudo mais que fez com que o filme fosse um dos maiores clássicos dos anos 1980.

A “jornada do herói” de Johnny Lawrence, como não poderia ser, não é a jornada do herói que estamos acostumados a ver, afinal de contas, Lawrence é a mais pura síntese do anti-herói. Suas escolhas, decisões e passado fazem com que o lado humano do personagem venham à tona, e mostram que por trás do adolescente valentão e que adora uma briga do primeiro filme, existia um jovem perturbado e com problemas bastante semelhantes aos do próprio Daniel Larusso.

A forma como os dois protagonistas guiaram suas vidas é um dos pontos importantes da série, que mostra as consequências – nem sempre justas, das decisões que ambos tomaram ou foram forçados a tomar em suas juventudes.

A série ajuda a desmitificar a aura maldosa do dojo Cobra Kai, e mostra que a filosofia “ataque primeiro, ataque com força e sem piedade” implementada por John Kreese pode, na verdade, ser de grande valia, bastando apenas ser conduzida por um sensei de melhor índole e mais capaz de lidar com seus alunos do que o seu desonrado fundador.

Sim, Sensei!

Como não poderia deixar de ser, todas as ações ocorridas durante a série levam para o torneio de karatê All Valley, onde Lawrence foi derrotado por Larusso há 30 anos. Buscando legitimação, o Cobra Kai entra com força no torneio, colocando à prova sua filosofia e também o ímpeto de seu Sensei.

Lawrence se vê obrigado a lidar com uma situação bastante semelhante à da sua participação no torneio de 1984, com o agravante de ter de lidar também com um drama pessoal, um teste final para sua mentalidade e também para seu caráter.

O final da série deixa inteiramente aberta a possibilidade de uma segunda temporada (sim, por favor!), além de trazer uma importante figura na última cena, alguém que com certeza não esperaríamos voltar a ver.

Cobra Kai é um prato cheio para os fãs de Karate Kid, seja você um trintão/quarentão que assistiu o filme nos anos 1980, seja você um dos muitos que cresceu assistindo ao filme e às suas continuações na Sessão da Tarde.

Tudo que permeia a alma de Karate Kid está ali, e pela primeira vez vemos o cerne da história sendo contado pelo vilão, que se mostra não tão vilão assim.

Os dois primeiros episódios estão disponíveis gratuitamente no YouTube RED, e os demais episódios custam R$ 3,90 cada. No total, são 10 episódios de cerca de 25 minutos cada, algo extremamente convidativo à uma maratona para assistir a série inteira de uma única vez e ficar com aquele gostinho de quero mais.

Por muitos anos Ceraldi foi um dos responsáveis pela maior comunidade de Resident Evil da América Latina. Hoje, além de trabalhar como UI/UX Designer, se dedica (menos do que gostaria) ao Critical Hits, tentar cumprir seu papel de homem de família em meio à video games, séries, futebol e NBA.

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