A Ubisoft é conhecida por fazer sandboxes monstruosamente grandes, mas e se eu te falasse que Tom Clancy’s Ghost Recon: Wildlands é o maior que eu já vi na minha vida? Se você jogou o beta do jogo, você ficou confinado a apenas uma das mais de 20 províncias do jogo, mas você também provavelmente já teve uma boa ideia do que o jogo tinha a oferecer. O que resta responder agora é: todo esse tamanho se traduz em documento?

Em Ghost Recon: Wildlands, você faz parte de um esquadrão fantasma dos Estados Unidos que foi para a Bolívia, após um agente do DEA, Ricky Sandoval, que estava infiltrado no cartel de drogas que domina o governo local, ser morto. A ideia do jogo é, basicamente, acabar com o tráfico do país e com a quadrilha que toma conta dele, uma missão após a outra e, acredite, você vai ter bastante trabalho fazendo isso.

Quando eu digo bastante trabalho, eu quero dizer que você vai ter MUITO trabalho mesmo. A ideia do jogo é que você vai derrubar o cartel cabeça por cabeça, até chegar a el Sueño, o cabeça dos Santa Blanca, um Cartel Mexicano que infiltrou-se no país após a queda das FARC e que foi crescendo até transformar o país inteiro num narco-estado.

E quando eu digo cabeça por cabeça, eu quero dizer literalmente. A ideia do jogo é a seguinte: para derrubar el Suenõ, você tem que derrubar os sub-comandantes dele, que são 5 ou 6. Para derrubar cada um desses subcomandantes, você precisa derrubar cada um dos capangas dele, que são mais 5 ou 6 também. Finalmente, para derrubar cada um desses capangas, você precisa cumprir mais 6 missões. Fazendo a matemática rapidamente, temos mais de 150 missões nos esperando, e a maioria delas é bem parecida uma com a outra.

Cada um dos capangas dos sub-comandantes de el Suenõ tem o seu próprio território, que tem mais ou menos o tamanho do beta do jogo, ou seja, um mapinha de tamanho considerável. Cada um desses mapinhas conta com todas essas 6 missões para derrubar o capanga e mais uma série de missões extras, como pontos de upgrade, armas e acessórios para as armas que você vai desbloqueando e ainda missões para ajudar o grupo rebelde que está enfrentando a Santa Blanca e tentando retomar a Bolívia para o caminho certo, que seria o livre comércio (o jogo faz propaganda do capitalismo repetidas vezes no rádio).

Dá para gastar facilmente umas 4 ou 5 horas por capanga, o que dá para fazer você levar mais de 100 horas facilmente até concluir o jogo. Se formos usar a razão “dinheiro dividido por horas de gameplay”, poucos jogos vencem Ghost Recon Wildlands nesse quesito, mas o quão bem essas horas são aproveitadas? Eu diria que mais ou menos bem. As missões são interessantes e divertidas de serem executadas, afinal, o jogo te dá uma série de abordagens diferentes possíveis. Você pode usar um rifle de precisão e fazer tudo de longe, pode chegar metendo bala em todo mundo como se fosse o Rambo, pode combinar os dois, pode mandar os rebeldes fazerem o trabalho sujo e assim por diante. O principal problema é: são mais de 100 missões muito parecidas uma com a outra. Quase não há nenhuma variação de gameplay.

ghost-recon-wildlands-01

Não apenas esse, outro defeito do jogo é que a história dele basicamente resume-se a “existe um governo traficante na Bolívia e nós temos que derrubá-lo. Quem somos nós? Não interessa. O que fazemos aqui além de matar traficantes e bandidos? Não interessa. Pra que time nós torcemos? Não interessa. O que fazemos no nosso tempo livre aqui? Interessa menos ainda”. A ideia do jogo é resumida a basicamente: vá do ponto A ao B, mate tudo o que você encontra pela frente. Aperte um botão. Veja uma barra de progresso subir. Vá até outro ponto do mapa e repita. Não há nenhum senso de progressão dentro do jogo. Parece que você está numa areia movediça, quanto mais você se mexe, menos parece que você sai de lá.

Isso quer dizer que o jogo não tem história? Mais ou menos. A história toda de Ghost Recon Wildlands é sobre el Suenõ e os capangas dele. Você vai conhecendo mais sobre o que aconteceu com a Bolívia e com quem manda nela por meio de textos e de vídeos que você vai desbloqueando conforme avança no jogo, mas é meio difícil criar qualquer tipo de vínculo com um personagem cuja única interação que você vai ter é tentar puxar o gatilho e encher a cara dele de furos antes que ele faça o mesmo com você. No fim das contas, a única sensação que eu tenho jogando Ghost Recon: Wildlands é que eu estou cumprindo uma lista de tarefas imensa, sem nenhum senso de conquista.

Além dos traficantes que você enfrenta, Ghost Recon: Wildlands ainda conta com uma espécie de “polícia” que o jogo usa para te combater também. Ela se chama Unidad, e funciona como as polícias de jogos como GTA, ou seja, cause distúrbio na vizinhança (mesmo que seja matando traficantes, se eles conseguirem chamar a polícia, porque, sim, eles podem fazer isso) e eles aparecem. Se você ficar matando eles, cada vez mais agentes da Unidad vão aparecendo, e cada vez mais bem armados e sendo uma dor de cabeça cada vez maior.

ghost-recon-wildlands-beta-4k-screenshots-7

Ok, essa lista de tarefas é divertida de se cumprir, até certo ponto, e jogando com amigos ou com desconhecidos ela fica melhor ainda de ser cumprida, mas é uma lista tão, mas tão extensa, que você provavelmente vai cansar antes de chegar na metade dela, ou, se chegar a concluir, a chance disso ter sido feito por inércia, mais do que por qualquer outra coisa, é muito grande. Quase não há uma cutscene nem nada do tipo. O máximo que acontece é um diálogo aqui e outro lá pelo rádio do jogo. E só. É como se fôssemos fazer aquela analogia do cavalo e da cenoura. Quando a cenoura fica muito perto, o cavalo come. Quando ela fica longe demais, o cavalo não anda, afinal de contas, por que correr atrás de algo que você nunca vai alcançar, não é mesmo? A ideia é que a cenoura esteja num ponto atingível, mas que fuja sempre que você chegue perto dele, e Ghost Recon: Wildlands colocou a cenoura dele lá na China, de tão longe que ela está.

Outro problema do jogo é o deslocamento dentro dele. Ok, você tem diversas opções de transporte, indo de carros a motos, passando por helicópteros e até barcos, mas na maioria das vezes você vai usar um carro e descobrir que os objetivos são longes pra caramba um do outro. E mais, quando você matar um capanga, você precisa mudar de território, o que significa que mais uma viagem daquelas vem pela frente. Uma parte considerável do seu tempo em Ghost Recon: Wildlands vai ser gasto viajando e tendo suas viagens interrompidas pelos inimigos no meio do caminho, vale a pena lembrar disso.

Como eu havia dito anteriormente, as missões em si são divertidas, e esse é o tipo de jogo que você pode jogar por um ano inteiro, fazendo uma missão aqui e outra acolá e ir jogando-o aos poucos, para que ele não te mate pelo cansaço. Nas missões, uma das coisas mais legais que o jogo oferece é um Drone que o seu personagem carrega. Ele pode ser usado para marcar inimigos e facilitar a sua vida no reconhecimento e, conforme você avança no jogo, ele vai ficando cada vez mais útil, podendo até carregar uma arminha mais pro fim do jogo.

ghost-recon-wildlands-beta-4k-screenshots-3

Mas enfim, o jogo vale a pena? Olha, sim e não, eu diria. Esse é aquele tipo de jogo que fica melhor com amigos, mas pior sem eles e, apesar da conclusão dessa frase ser uma obviedade, essa segunda parte dela fica mais evidente conforme você mais joga o jogo. Como eu disse acima, ele parece uma lista imensa de tarefas que você vai penar, mas vai chegar no fim. Mas qual o senso de conquista que você vai ter disso? Quase nenhum. No fim das contas, Ghost Recon: Wildlands cai naquele bom e velho “compre numa promoção, pois daí o jogo passa a valer a pena”.

Graficamente, Ghost Recon: Wildlands é um jogo muito bonito. Aqui, vale falar um pouco sobre os cenários do jogo. Eu não lembro de ter jogado um jogo com visuais que mudassem tanto conforme eu navego pelo sandbox. Além das regiões montanhosas da Bolívia estarem muito bem representadas dentro do jogo, o game ainda cria muito bem as favelas e aquelas vielas que a gente costuma ver nos filmes como Tropa de Elite, e na série Narcos. Pode não ser fiel com a Bolívia de verdade (e eu nunca estive lá para constatar isso) mas tem toda a cara de “país pobre de Terceiro Mundo”. A trilha sonora do jogo é esquecível. Há poucas músicas e nenhuma delas é marcante, mas pelo menos a dublagem faz um bom trabalho e o jogo conta com textos e menus em português.

Review elaborado com uma cópia do jogo para Xbox One fornecida pela Ubisoft do Brasil.

Eric Arraché Gonçalves é o Fundador e Editor do Critical Hits. Desde pequeno sempre quis trabalhar numa revista sobre videogames. Conforme o tempo foi passando, resolveu atualizar esse sonho para um website e, após vencer alguns medos interiores, finalmente correu atrás do sonho.

Compartilhe