A Deck 13 ficou conhecida mundialmente ao lançar Lords of the Fallen, o primeiro “Dark Souls que não havia sido lançado pela From Software”. Após esse lançamento, um monte de gente tentou capitalizar em cima da fórmula da  From Software, e a companhia está aqui, mais uma vez com esse objetivo. Para distanciar-se da comparação óbvia, ao invés de castelos medievais, temos um jogo situado num futuro cheio de robôs e exoesqueletos. Será que The Surge tem o que é necessário para brilhar sozinho?

The Surge começa de uma maneira bem interessante: você está num trem ouvindo um CEO de uma empresa falando sobre como ela é revolucionária e tudo mais. Do nada, a câmera vira para você e… você é um cadeirante. Eu não lembro quando foi a última vez que eu controlei um cadeirante num jogo. Provavelmente essa foi a primeira. Após isso, Warren, o seu personagem, dirige-se para uma sala de cirurgia onde você vai ter implantado o seu exoesqueleto, mas algo dá muito errado e o equipamento acaba sendo acoplado ao seu corpo de uma maneira bem feia, as cenas são fortes. Warren finalmente acorda e… o mundo ficou completamente maluco, as máquinas se voltaram contra os humanos, atacando eles ou assumindo o controle de vários que estavam usando exoesqueletos como o seu. Cabe a você descobrir o que está acontecendo e tentar sobreviver a isso.

Logo após esse começo um pouco lento, The Surge mostra ao que veio. O jogo basicamente funciona como, adivinhe quem, Dark Souls, mas conta com algumas mudanças que são bem interessantes: você pode mirar em qual parte do corpo do adversário quer acertar, e essa mecânica é fundamental dentro do jogo, pois você pode optar entre atacar uma parte desprotegida e causar mais dano, ou uma parte com armadura ou arma e tentar obter esse equipamento do seu inimigo. Após uma certa quantidade de energia do adversário ser removida, você ganha a opção de executá-lo, segurando o botão A ou X, dependendo de onde você estiver jogando o game, e vendo a animação de execução.

Para melhorar o seu personagem, você tem que obter esses equipamentos dos seus inimigos, e é aqui que a melhor novidade de The Surge acaba voltando-se contra o próprio jogo: você não tem a opção de melhorar os seus equipamentos se você quiser. Você tem que melhorá-los para ter alguma chance de sair vivo de onde você está. O jogo logo transforma sua melhor característica e novidade num trabalho repetitivo, onde você vai ser forçado a repetir o mesmo trajeto algumas vezes até conseguir um novo braço para a sua armadura, ou uma nova arma, ou conseguir os componentes necessários para melhorar a sua arma e assim tirar mais dano. E tudo isso vai depender da sua sorte.

Esse detalhe de The Surge acaba piorando um pouco a experiência pelo seguinte: ele não é um jogo que premia um jogador habilidoso, ele é um jogo que premia o jogador insistente. Ao invés de vencer o jogo pela inteligência, você é forçado a fazer isso pela força bruta mesmo, pois os inimigos logo vão ficar extremamente fortes para você, e um ataque ou dois vai te fazer beijar a lona e voltar para a Central Médica (os bonfires do jogo).

Dar level up no jogo praticamente não muda em nada  o seu personagem. A cada nível (que necessita de sucata para ser alcançado), você ganha mais um ponto na sua capacidade de sobrecarregar circuitos, e conforme você vai ganhando níveis, você desbloqueia a capacidade de equipar novos implantes, que podem aumentar a sua vida, a sua stamina e a sua carga (uma barra que sobe conforme você ataca inimigos e que pode ser usada para habilidades especiais, como causar mais dano, curar-se e assim por diante), mas esses upgrades são tão tênues que mal você vai ver 20% da sua vida inicial subindo mesmo tendo subido mais de 30 níveis. Dessa forma, você realmente fica forçado a ficar repetindo o mesmo cenário algumas vezes, a cada cenário novo, para farmar os itens dos seus adversários e assim ter uma chance de conseguir avançar por onde você se encontra de maneira mais tranquila.

Outro ponto que é positivo e negativo ao mesmo tempo, mas mais positivo do que negativo, são os cenários do game. O jogo conta com mapas gigantescos em cada área nova, mas toda área nova conta com apenas uma Med Bay, ou seja, você abre uns 5 ou 6 atalhos em novas áreas e acaba sempre voltando para o mesmo lugar inicial, mas nem sempre esse trajeto é tão curto assim. Bobeou? Pena, você perdeu 20 mil de sucata e agora tem que sair correndo atrás dela (esse é outro detalhe interessante do jogo, ele te dá uma contagem regressiva para recuperar os pontos perdidos, senão eles somem para sempre), e se você deu o azar de não ter desbloqueado um atalho antes disso, aí a vida complica bastante.

Além de gigantescos, os cenários do jogo às vezes parecem mal planejados, com inimigos grandes demais (e que exigiriam que você estivesse numa área aberta para enfrentá-los de maneira adequada) para certos lugares, ou áreas com inimigos demais para espaço de menos. A impressão que deu é que a Deck 13 decidiu fazer um Hub inicial para cada área, e foi construindo os mapas em volta deles e colocando os inimigos aleatoriamente por eles, mas nem sempre revisando para ver se esses locais ficaram certos. Num momento do jogo, por exemplo, eu literalmente fiquei encurralado num canto por um robô e sem poder sair dele porque o adversário havia me prendido nele. E não, eu não havia atraído o inimigo até ali, ele estava anteriormente a 5 passos daquele lugar, então eu acabei caindo numa armadilha, intencional ou não, que obviamente me mandou de volta pro Med Bay em 2 ataques.

Outro problema de The Surge são os bugs. Novamente, aqui parece que a Deck 13 involuiu em relação a Lords of the Fallen. Durante a elaboração do review, encontramos inimigos que travavam o jogo, cantos do mapa que matavam automaticamente o jogador e também animações de execução que faziam o jogador se arremessar para fora do cenário, além de um local onde o chão sumia e o personagem caía do cenário direto pra morte. Lords of the Fallen foi lançado redondinho e esse cuidado não foi tomado com The Surge, infelizmente.

Para completar, os chefes do jogo não são grandes coisas. Nenhum deles vai ficar na sua cabeça por muito tempo, e a maioria deles são robôs grandes que dão porradas muito fortes e que são lentos, mas que, volta e meia dão aquele ataque apelão que pega metade do cenário onde você está.

Graficamente, The Surge é interessante nos personagens, mas os cenários são bem repetitivos. O jogo lembra um pouco Dead Space nos cenários, mas uma versão menos inspirada do jogo da EA, já que parece que estamos sempre na mesma sequência de salas, e isso até atrapalha um pouco na hora da navegação e de você saber exatamente onde está e para onde quer ir. A trilha sonora do jogo também não é nada demais, mas a dublagem faz um papel competente. Vale ressaltar que o jogo conta com legendas em português.

Mas e o jogo vale a pena ou não? Olha, sinceramente? The Surge poderia ser muito melhor por uma série de fatores, mas mesmo com patches pós-lançamento, ele ainda vai ter os problemas de design que não se consertam com patches, já que o jogo foi pensado dessa forma. Fãs do gênero podem até gostar e terminar o jogo, mas ele está longe de ser imperdível para quem já terminou os Soulsborne e NiOh.

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Review elaborado com cópias do jogo para Xbox One e PS4 fornecidas pela publisher.

Eric Arraché Gonçalves é o Fundador e Editor do Critical Hits. Desde pequeno sempre quis trabalhar numa revista sobre videogames. Conforme o tempo foi passando, resolveu atualizar esse sonho para um website e, após vencer alguns medos interiores, finalmente correu atrás do sonho.

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