A série Tales da Bandai Namco ganha mais um capítulo em 2017 com Tales of Berseria, título lançado para PC, PS3 e PS4 que tem uma pegada diferente de seus antecessores e que leva o jogador para explorar um universo rico através de uma história muito bem feita entrando na pele de personagens nada convencionais. É o segundo melhor jogo que joguei este ano, descubra o porquê a seguir.

Berseria possui uma história com tom diferente de todos os outros títulos da série. Aqui, ao invés de heróis animados que fazem tudo ao seu redor brilhar e que têm como principal objetivo salvar o mundo, acompanhamos a história de Velvet e sua equipe, um grupo de desajustados e excluídos que estão do lado errado da história,  podendo ser vistos até como vilões (ou talvez anti-heróis), e que possuem metas que passam longe do tradicional “salvar o mundo”. O principal objetivo de Velvet é a vingança sobre aqueles que lhe tiraram tudo o que amava, e esse desejo de vingança era tão grande que acabou transformando-a em um demônio que possui uma mão bizarra que serve basicamente para devorar outros seres vivos.

Um dos pontos mais fortes de Tales of Berseria está nesta história, que se desenvolve muito bem e tem um ritmo ótimo, não deixando nenhuma informação sobre qualquer coisa do enorme universo do jogo pelo caminho. É uma história tocante, num estilo que só JRPGs de altíssima qualidade podem proporcionar, épica e eu diria que até inesquecível.

Ao lado de Velvet temos um elenco de personagens bem diversificado, mas muito bem concebido, sendo que cada um tem uma personalidade única e marcante de alguma forma. Algo que chama atenção é que esse grupo não é completamente formado de amigos, como tornou-se costumeiro vermos em RPGs, em Berseria alguns são inimigos que têm objetivos em comum, outros precisam de um personagem para algo e por isso o seguem em sua aventura, outros simplesmente não têm nada melhor para fazer e decidem ficar por ali. Rokurou, Eizen, Magilou, Laphi e Elenor, cada um deles possui uma história própria que acaba se entrelaçando de alguma forma com a de Velvet e acaba deixando-os cada vez mais próximos.

Não só o grupo de protagonistas, mas os personagens secundários também foram muito bem pensados para terem alguma relevância para o jogador, já que todos eles estão envolvidos em algum evento importante do jogo. Tenho certeza que me lembrarei das características dos personagens de Berseria por muito tempo, mais do que qualquer outro personagem de qualquer outro jogo da série Tales.

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É claro que nem só de história se faz um RPG e, se tratando do combate, Tales of Berseria também é o melhor da série. O sistema é basicamente o mesmo, você anda pelos mapas livremente e quando topa com um inimigo é deixado em uma área limitada própria para o combate. Berseria conta com tudo o que você poderia esperar de um RPG deste tamanho, personagens com técnicas distintas, golpes especiais, batalhas em equipe com a possibilidade de trocar de personagem rapidamente, personagens suporte que podem entrar na luta a qualquer momento, upgrade de armas e habilidades e muitas outras coisas, mas ele vai muito além disso e entrega tanto conteúdo apenas nas batalhas que é difícil não se perder em meio a tantas possibilidades.

Berseria tem uma vertente estratégica muito maior do que qualquer outro “Tales”, te permitindo definir as habilidades que seu personagem usará em combos com cada botão (podendo criar um combo específico que seja forte contra um certo tipo de inimigo); você também pode definir o que os outros personagens farão quando não estiverem sendo controlados por você, fazendo-os priorizar a defesa ou o ataque e até ignorar completamente a ameaça e não fazer nada. O combate possui regras muito bem feitas que são de fácil entendimento (mesmo que não seja tão fácil assim segui-las nas lutas) e te faz abraçar essa parte estratégica do game.

É claro, se você não é tão bom em planejamento, pode também utilizar o bom e velho estilo button smashing e vencer seus inimigos em questão de segundos ou ser obliterado por eles nestes segundos. Berseria conta com um contador de almas que é o que permite que seu personagem realize combos e ataques especiais, tendo poucas almas (menos de três) os inimigos defenderão todos os seus ataques, tendo muitas seus combos durarão muito mais e será bem mais fácil emendar especiais na sequência destes combos. Diversos fatores interferem no número de almas que você possui no início das batalhas e como você as recarregará ou as perderá, mas não me atentarei aos mínimos detalhes da jogabilidade.

Basta a você saber que a jogabilidade é muito prazerosa e divertida, funciona muito bem independente do seu estilo favorito de jogo e possui tantas regras e detalhes que mesmo após a décima hora de jogo você ainda estará aprendendo coisas novas e como conciliá-las com o que você já sabia.

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Há uma enorme variedade de inimigos que vagam pelas várias dungeons do jogo e que são divididos em diferentes classes, tendo cada uma suas fraquezas e resistências e golpes de cada um dos personagens que causam mais dano nelas. Salvas algumas exceções de inimigos mais overpower e as boss battles, a dificuldade geral de Tales of Berseria é bem baixa, o que é um ponto negativo. Mesmo em batalhas com muitos inimigos, é bem difícil perder um personagem nelas, e o desafio real fica geralmente guardado para demônios específicos, sendo o grind no jogo uma escolha opcional.

O jogo é gigantesco e seus mapas tem um tamanho aceitável, não muito longos a ponto de fazer você se cansar de explorá-los, nem muito curtos a ponto de te deixar entediado por ter que ficar trocando de área toda hora. Eles possuem diversos baús e itens escondidos e alguns obstáculos que dão acesso à outras áreas do mapa (mas que parecem estar ali só pra encher linguiça mesmo). A quantidade de inimigos neles também é aceitável e conforme avançamos no jogo podemos obter itens que nos ajudam a atravessar estes mapas mais facilmente.

Você ainda encontrará diversos minigames de quebra de gameplay típicos de RPGs japoneses e algumas opções de evolução de personagens e busca de itens bem bacanas como as explorações que podem ser programadas para serem feitas enquanto você joga (e que dão itens sem você precisar fazer nada) e a opção de cozinhar, que melhora atributos dos seus personagens criando receitas que utilizam ingredientes encontrados nas expedições e espalhados pelos mapas.

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Tratando-se de gráficos, Tales of Berseria é muito bonito, o visual dos personagens é muito bem produzido e todos os principais pontos do universo do jogo são cenários muito bem pensados. Os mapas, no geral, não são grande coisa, são bonitos mas como o destaque deles são os inimigos, o apreço aos detalhes muitas vezes são deixados de lado. No PC o jogo roda maravilhosamente, sem bugs, serrilhados nem quaisquer problemas que foram relatados por jogadores do Playstation 4.

O jogo possui cutscenes que utilizam os gráficos do gameplay na maioria do tempo, mas em momentos-chave da narrativa aprensenta cutscenes em anime que são de encher os olhos. O game não só tem grandes influências em mangá/anime como também é um pre-prequel de Tales of Zestitia the X, sendo que muitos de seus personagens fazem aparições nele (recomendo a sessão).

Outro ponto positivo é que o game conta com a opção de escolher a dublagem original em japonês ou em inglês e possui interface completamente traduzida para português do Brasil. Não só as cutscenes são legendadas, mas os golpes durante as lutas, os itens e descrições e todo o resto é muito bem traduzido, inclusive utilizando expressões bem brasileiras que me fizeram querer dar um abraço na equipe de tradução.

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No total, o jogo tem aproximadamente 45 horas de campanha, podendo ser estendido caso você se dedique à coleta de itens e a cumprir missões secundárias. Tales of Berseria é um jogo muito rico e uma ótima experiência para quem procura um RPG repleto de conteúdo. Se você se arriscar a pagar o preço cheio, saiba que a Bandai Namco se esforçou para fazer o seu dinheiro valer a pena aqui.

Tales of Berseria é um RPG que há muito eu não via, que te prende por horas a fio e que dá gosto de jogar e gastar tempo explorando todas as possibilidades que ele oferece.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pela Bandai Namco do Brasil.

Rafael Oliveira escreve no Critical Hits sobre quadrinhos, cinema e séries de TV, além de games. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito e tem um lugar especial no coração para Platformers, Musou e Metroidvanias.

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