Os jogos têm se tornado cada vez mais uma fonte de informação e conhecimento, além da casual diversão que procuramos quando escolhemos um título qualquer para jogar. Steins;Gate sempre foi um exemplo claríssimo disso, sendo que a não só seus personagens e narrativa o tornaram um sucesso absoluto, mas a forma como ele mescla com tudo isso e explica um tema complexo como viagem no tempo. Qualquer um que o jogou tem uma noção de como viagens no tempo funcionam – ou funcionariam, caso isso fosse possível – o que são buracos negros, singularidade, paradoxo temporal, certamente conhece uma ou outra teoria e, é claro, sabe o que são linhas do tempo.

Steins;Gate 0, (que é uma midquel do jogo original, não uma sequência direta) prometeu ir além e nos trouxe uma história que além de viagem no tempo aborda inteligência artificial, e mescla os dois temas com uma maestria que só Steins;Gate conseguiria. Ele não só aborda os dois temas em conjunto como vai mais fundo na viagem temporal, levando em conta que você, jogador, jogou o game original e já sabe o básico do tema. Ele também traz uma história muito mais madura e obscura do que o anterior nos proporcionou, o que combina muito mais com a temática geral do jogo.

O review a seguir contém spoilers do Steins;Gate original. É recomendado jogá-lo ou assistir o anime antes de ler.

Como dito ,Steins;Gate 0 é uma midquel de Steins;Gate, o que significa que ele não continua após o True Ending de seu antecessor, onde Okabe finalmente alcança a linha do tempo Steins Gate. Zero tem inicio um pouco antes, logo após Okabe falhar em salvar a vida de Kurisu e acabar mantando-a com suas próprias mãos.

Aqui Okabe não vê o vídeo de seu eu do futuro e muito menos é encorajado por Mayuri para tentar uma outra vez, ele então desiste de salvar sua amada e segue na linha do tempo beta, destrói o “Phonewave (name subject to change)”, abandona sua pesquisa, volta para a universidade e para de frequentar o laboratório. A personalidade Hououin Kyouma também é abandonada e tudo o que sobra é um Okabe Rintaro traumatizado e depressivo.

Meses depois de tudo isso, Okabe conhece Maho Hiyajo, uma cientista americana e amiga de Kurisu. As duas trabalhavam juntas em um programa chamado Amadeus, onde são armazenadas as memórias de uma pessoa e é possível criar uma inteligência artificial que se assemelha ao ser humano que é capaz de mentir, esconder segredos e sentir vergonha. Maho descobre sobre a amizade entre Okabe e Kurisu e o convida a ser um usuário teste do Amadeus, conversando com a versão digital da própria Makise Kurisu.

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Amadeus é o ponto central de Steins;Gate 0, ou pelo menos é dela que parte toda a relação do jogo com inteligência artificial. Ela muda também o modelo de jogo de Zero, sendo que é a partir da interação de Okabe com a Amadeus Kurisu que podemosterminar vendo um ou outro final. Se no jogo original era necessário responder mensagens de texto com respostas específicas para desbloquear o final, aqui basta atender ou ignorar uma ou outra ligação de Amadeus Kurisu para chegar a um dos 6 finais que compõem Zero.

Outro detalhe importante é que cada um dos finais tem alguma ligação com o True Ending. Cada um deles termina em um ponto onde é possível que Okabe alcance seus objetivos (sendo apenas o Bad Ending a exceção) e a grande diferença entre eles é o desenvolvimento de personagens chave que vai muito além daquilo que poderíamos esperar. Zero torna muito mais recompensador desbloquear cada um dos finais com histórias divertidas e emocionantes envolvendo vários personagens de uma só vez.

Outra diferença facilmente perceptível em Steins;Gate 0 é a troca do celular de Okabe por um smartphone, o que não só o possibilita conversar com Amadeus Kurisu, mas adiciona o RINE ao jogo. RINE é um aplicativo similar ao Telegram/Snapchat desenvolvido por Daru e compartilhado com os personagens principais do jogo, o que permite que eles conversem entre si desta forma. A simples presença do smartphone dá as boas vindas ao tema inteligência artificial, já que isso faz com que o jogo pareça ser muito mais atual do que o anterior.

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Steins;Gate 0 também nos oferece a mesma história através da perspectiva de outros personagens. Por exemplo, pelo ponto de vista de Suzuha, descobrimos como ela se sente em relação a Okabe (que desistiu de mudar o passado) e sua própria falha em sua missão principal, além de descobrirmos que ela não veio sozinha em sua viagem ao passado e que anda à procura de uma personagem importante para Zero. Por Daru vemos um pouco do início do relacionamento entre ele e Amane Yuki, personagem que será mãe de Suzuha no futuro.

Maho tem um papel importante na história e, depois de Okabe, é a personagem mais explorada no jogo. Pela perspectiva dela aprendemos mais sobre inteligência artificial e conhecemos a Kurisu da linha do tempo beta. Descobrimos que Maho se vê como Salieri em relação à Kurisu, que seria Mozart, e sua luta diária em tentar ser melhor do que o gênio inalcançável que fora sua melhor amiga.

Zero conta com um número muito maior de personagens do que o jogo original, e todos eles vêm pra somar. Cada um dos novos integrantes do elenco possui algum papel minimamente importante em um dos finais do jogo e os personagens que já conhecemos têm muito mais a oferecer além de tudo aquilo que nos entregaram em Steins;Gate. Mayuri mostra mais uma vez porque é a melhor personagem já feita e emociona em diversos momentos, em mais de um final.

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A arte de Steins;Gate 0 está muito mais detalhada do que a do jogo anterior, isso é visível. Como resultado, temos um jogo que é muito mais imersivo e que somado à sua trilha sonora que continua sensacional, é divertido, tenso, engraçado e emocionante. As CGs também estão muito mais variadas no estilo artístico, eu sinceramente não faço ideia se o número de artistas envolvidos com Zero é maior, mas a diferença entre as CGs é muito bem vinda.

Contudo, Steins;Gate 0 não é perfeito e, embora seja uma história sensacional, é capaz de deixar muitos jogadores confusos. Como dito, todos os finais contribuem de alguma forma com o True Ending, e enquanto alguns eventos podem ser ligados diretamente a este final, outros acabam por tornar o entendimento dele numa grande dor de cabeça. Alguns detalhes que são colocados diante de nós em algumas das linhas do tempo também não parecem ter propósito que não seja confundir o jogador sendo apenas “coincidências” e outros detalhes são bem mal explicados. Se o jogo original deixava todos os is com seus devidos pontos, Steins;Gate 0 acaba por deixar o jogador com uma série de pontos de interrogação na cabeça. Após uma breve pesquisa, eu encontrei esse thread no Reddit (e contribuí com mais algumas informações) que tirou todas as minhas dúvidas e possivelmente tirará as suas.

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Apesar disso, Steins;Gate 0 ainda conta com uma narrativa extraordinária, com personagens espetaculares que te marcarão para sempre. É necessário levar em consideração que Zero é uma história que mostra, principalmente, o esforço que Okabe teve para abrir a porta para o Steins Gate. O jogo original nos dá a sensação que Okabe teve instantaneamente a ideia de enganar o universo e a ele mesmo, mas é muito mais que isso. Okabe teve que sofrer em diversas linhas do tempo mais uma vez e aprender muito para construir, passo a passo, o caminho que o guiaria a abrir a porta para o Steins Gate.

Eu não colocaria Zero acima ou abaixo de Steins;Gate, até por isso não poderia dar notas diferentes para eles. Ele é uma extensão da mesma história em uma linha do tempo diferente e conta detalhadamente tudo o que aconteceu para que o sensacional final do primeiro jogo fosse possível. É uma história muito mais sombria e marcante, que será muito bem adaptada pelo anime, e que marca qualquer jogador que se deixe imergir por ela.

Steins;Gate 0 é mais um jogo para jogar antes de morrer. O preço de lançamento (R$229,00) é capaz de fazer qualquer pai de família chorar, mas por tudo o que ele oferece e as horas de diversão e conhecimento que gastei jogando, tenho que dizer: vale a pena.

Review elaborado utilizando uma cópia do jogo para PS4 fornecida pela Publisher.

Rafael Oliveira escreve no Critical Hits sobre quadrinhos, cinema e séries de TV, além de games. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito e tem um lugar especial no coração para Platformers, Musou e Metroidvanias.

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