A série Souls ficou conhecida por “não ser feita pra qualquer um” devido à sua extrema dificuldade e foco maior na defesa e timing, ela inovou e evoluiu a cada sequência, sempre mantendo sua atmosfera e suas principais características, aumentando cada vez mais sua base de fãs. E sempre ouvimos falar de como um jogo tão complicado seria se fosse feito em 2D, talvez mais difícil e limitado, ou quem sabe não tão bom já que perderia a essência. Devo dizer que só a primeira opção está certa e quem me ensinou isso foi Salt and Sanctuary.

Salt and Sanctuary é um RPG de ação completamente em 2D que em muitos aspectos lembra jogos da série Souls, da From Software. O game indie carrega consigo diversas características que fazem os fãs da franquia se sentirem em casa e as complementa com características próprias que deixam claro que ele não é mais uma cópia de Dark Souls, mas sim um jogo difícil que lhe fará chorar sangue e que será lembrado pelo próprio nome.

Começamos o jogo já sendo apresentados a oito classes diferentes e devemos escolher uma para fazer seja lá o que o jogo nos pedir. Cada uma delas tem características únicas que mudam completamente a forma de jogarmos. Além disso, elas possuem árvores de habilidades bem complexas que podem fazer o seu Mago causar espetáculos de pirotecnia já na segunda hora de jogo ou o seu Chef atirar batatas envenenadas e acabar com os chefes em poucos golpes. Não temos uma explicação muito profunda de como cada uma será importante no jogo, então é bom que você escolha com cuidado.

Criado o seu personagem é hora de adentrar no mundo do jogo que começa bem diferente do que esperávamos. O tempo que vivemos é difícil e repleto de guerras, o casamento de nossa princesa poderia enfim nos trazer paz, mas nosso navio sofre um ataque e se torna nosso dever salvar a pobre coitada das mãos dos assassinos… Ou pelo menos seria se um monstro gigante vindo do sétimo inferno não nos confrontasse e nos derrubasse. Quando acordamos, nosso personagem está numa terra estranha e o único objetivo que temos é encontrar a princesa.

Esse objetivo, porém, é esquecido a partir do primeiro inimigo que enfrentamos que já nos apresenta um gameplay desafiador que exigirá toda nossa atenção. Lembro de ter morrido pelo menos três vezes na primeira área do jogo e empacado no primeiro chefe, o Sodden Knight, até entender que o jogo não era um hack and slash e que eu precisaria me defender, manter distância e dar muitas cambalhotas para sobreviver aos inimigos que pareciam nunca dar trégua.

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Reiniciei o jogo com uma classe que me desse uma maior liberdade e velocidade (odeio escudos) e segui a jogatina com mais prosperidade. Com o passar do tempo comecei a decorar o padrão de ataque de certos tipos de inimigos e o jogo consegue acompanhar muito bem essa evolução do jogador introduzindo inimigos mais rápidos e resistentes com padrões completamente diferentes, portanto não espere que seu personagem saia matando desenfreadamente sem nenhuma complicação porque isso não vai acontecer, você vai morrer e não vai ser pouco.

Sempre que morremos retornamos ao último santuário que visitamos que pode ou não pertencer ao deus que adoramos. O jogo apresenta algumas opções e cada uma que você escolher te proporcionará itens diferentes que podem ser bons ou não fazer diferença alguma dependendo do seu estilo de jogo. O clérigo que te leva até o santuário fica com um pouco de seu sal, que são as souls de Salt and Sanctuary, e cobrará mais caso você não adore o mesmo deus que ele.

É importante frisar que o sal é tão importante quanto o dinheiro no jogo e que, felizmente, seu uso é mais simples do que na série Souls. Você vai coletando sal derrotando inimigos e quebrando itens pelo caminho e toda vez que morre aquele que te matou retém parte dele, além de um pouco ir para o clérigo, como já dito. Matar seu assassino te ajuda a recuperar quase tudo que ele pegou, exceto caso você tenha morrido muitas vezes, aí o sal será dele para sempre. O sal é importante para dar level up em seu personagem e você não será nada tendo nível baixo, ou seja, você não será nada sem sal.

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Infelizmente o jogo não explica sobre o uso ou a função do sal até você já tê-lo perdido, assim como também não explica como funcionam inventário, árvore de habilidades e nem as diferenças entre os personagens e as funcionalidades de cada item. Caso você seja familiarizado com RPGs terá uma noção básica e ficará só meio perdido, mas caso você seja meio afastado do gênero e não tenha jogado nenhum Dark Souls, prepare-se para chorar.

Também não ficamos presos à história e sequer lembramos de que há uma princesa que precisa ser salva, tudo o que queremos é recuperar o sal perdido para aquele cachorrão ou matar aquele chefe impossível e sobreviver a tudo isso, e, sinceramente, a história não faz falta alguma pois a SKA Studios consegue suprir isso com um gameplay extremamente desafiador e brutal e obstáculos que fazem o jogador exigir mais de si mesmo. O game é cheio de armadilhas e inimigos que brotam do chão, além de cenários com pouca ou nenhuma luz que não permitem que fiquemos desatentos em nenhum momento.

Apesar de não apresentar um mapa, Salt and Sanctuary é bem fácil de se situar. O jogo é um grande metroidvania que sempre liga os caminhos nos recompensando com áreas secretas e atalhos inesperados que servem para o bem e para o mal. Como dito, os inimigos comuns já são um desafio e tanto, o que significa que você usará suas poções de cura muitas vezes, agora imagine usar a última delas e após dez passos dar de cara com um chefe? Isso acontece bastante. Não espere encontrar portas que só se abrem depois de certo nível ou áreas que só podem ser acessadas com tal arma, os chefes estarão te esperando você estando preparado ou não e cagarão pro fato de você ter salvo o jogo pela última vez há 20 minutos atrás.

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O jogo é repleto de chefes que são sempre uma lição de perseverança e que apesar de serem maiores, mais resistentes e muito mais difíceis de se vencer do que os outros inimigos, também possuem seu próprio padrão de luta que muda conforme tiramos vida deles. O desafio de vencê-los pode ser visto por alguns como um sistema de tentativa e erro, mas caso você dê atenção total aos diversos sinais que o jogo dá essas lutas ficarão cada vez menos difíceis e mais divertidas.

Salt and Sanctuary exala brutalidade e morte com gráficos simples, mas detalhados de forma sensacional. Os cenários são cheios de corpos enforcados ou cabeças em estacas, além de ruínas destruídas, vilas mortas, matadouros esquecidos e criaturas escondidas que farão seu coração dar uma leve parada. Os chefes são únicos e o visual de cada um deles já deixa explícito seu estilo de luta e, algumas vezes, como vencê-los.

A atmosfera criada aqui é super pesada e passa a sensação de que algo vai te matar assim que você cruzar a próxima porta. A trilha sonora ajuda na criação dessa atmosfera, sendo que eu saí correndo de algumas áreas várias vezes só por causa da troca das músicas. Apesar disso o jogo não se leva a sério o tempo todo e nem sua própria dificuldade, sempre focando em poses engraçadas do personagem e colocando alguns NPCs para bater um papo no meio do caminho e dar algumas dicas que geralmente não servem pra nada.

A escolha de nomes de Salt and Sanctuary foi muito bem feita com a finalidade de tornar o jogo memorável. Assim como Salt representa as lutas e a recompensa por vencê-las e Sanctuary representa o descanso entre elas e onde se localiza o elemento RPG do jogo, as áreas e os inimigos também carregam nomes memoráveis que ficarão na sua cabeça por muito tempo, principalmente se não conseguir vencê-los.

Salt and Sanctuary é um belíssimo jogo, um dos melhores que joguei este ano e mesmo não sendo o público certo e estar nutrindo um ódio nada sadio por ele, não há como não recomendá-lo. O jogo é um must play para qualquer fã da série Souls, fãs de RPG ou qualquer um que goste de um bom desafio. Sendo um metroidvania, você pode terminá-lo sem passar por todas as áreas, o que faz o fator replay dele ser bem alto.

Eu sigo morrendo feito um condenado e estou quase pedindo arrego, talvez até recorra ao co-op local que o jogo oferece que seria uma mão na roda nos chefes.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pela SKA Studios.

Rafael Oliveira faz análise de jogos, filmes e séries regularmente para o Critical Hits, além de postar notícias e artigos esporadicamente. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito e tem um lugar especial no coração para Platformers, RPGs e Metroidvanias.

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