Rain World é um dos primeiros jogos que joguei que poderia receber um 9 e um 4 em dois reviews diferentes sendo estas duas notas completamente justas. Reviews geralmente retratam a opinião pessoal do autor, onde ele leva em consideração seus gostos, preferências e estilo de jogar, o que influencia diretamente na nota final. Um jogo que ele considera ruim pode ser bom para outra pessoa e vice-versa, e no caso de Rain World, isso é uma máxima.

Rain World é um jogo de plataforma e sobrevivência que te coloca na pele de um Lesgato, isso mesmo, um personagem metade lesma e metade gato. Ele vive em um mundo pós-apocalíptico destruído pela chuva e vive dia após dia fugindo de predadores e tentando encontrar um abrigo antes que a próxima tempestade chegue.

Seu objetivo é basicamente esse: sobreviver aos predadores, encontrar comida suficiente para hibernar e se esconder num bunker antes que a chuva chegue. Mas não pense que isso é tarefa fácil.

Dificuldade única e incomparável

Seu personagem só não é o mais fraco de todo o jogo porque existem os morcegos que devemos comer para ter energia suficiente para a hibernação. Se eliminá-los da conta, considere que você é o ser mais inútil de todo o mundo decrépito do game, está no ponto mais baixo da cadeia alimentar. Seus ataques só podem atrasar os inimigos, você é lento e não tem uma grande variedade de movimentos que pode fazer para sobreviver,contará apenas com seu raciocínio rápido, com muita sorte e, principalmente, com sua própria perseverança.

Rain World é um jogo difícil em um nível completamente diferente de qualquer Dark Souls, não o colocarei como mais ou menos difícil porque meu intuito aqui é mostrar o quão incomparável ele é em relação a qualquer outro jogo de qualquer gênero. A intenção da Adult Swim Games é te colocar na pele de um personagem impotente e fazer você desafiar a você mesmo na questão de tentar incansavelmente avançar em um cenário que muitas vezes te fará pensar que está regredindo – e na verdade você estará.

Um de seus objetivos, como dito, é encontrar câmaras de hibernação que te protegem da chuva. Elas não são tão comuns assim em Rain World e mesmo que você encontre uma, não basta entrar nela e ser feliz: O Lesgato precisa estar com a barriga cheia o suficiente para sobreviver à hibernação. Às vezes encontrar comida é mais difícil do que encontrar um bunker; às vezes você encontrará ambos e verá seu caminho bloqueado por um inimigo; às vezes você ficará perdido e não encontrará nem um nem outro.

É bom que você jogue já ciente de que algumas vezes você simplesmente não terá sorte, que o jogo apenas decidiu que você deve morrer. Isso faz parte da essência de Rain World, um jogo em que os mapas não são gerados proceduralmente, mas os inimigos e o comportamento deles sim.

Isso significa que cada vez que você pisar numa área, os inimigos que antes estavam ali estão fazendo outra coisa em outro lugar. Imagine que eles continuaram suas vidas normalmente no tempo que você estava morto e deu respawn na câmara de hibernação, assim como qualquer predador faria.

Pelos encanamentos e além

Os inimigos transitam entre um cenário e outro da mesma forma que você: rastejando pelos encanamentos que interligam tudo no jogo. Você encontrará diversos usos para eles e saber usá-los bem é essencial para sobreviver em Rain World. É bem comum acessar uma nova área e dar de cara com um lagarto que estava prestes a entrar no cano por onde você saiu; neste caso, a velocidade do seu raciocínio definirá se ele vai te devorar ali mesmo ou se o Lesgato vai conseguir voltar para a área anterior.

Além dessa forma de transitar, você ainda poderá nadar e mergulhar, utilizar inimigos para acessar áreas antes inacessíveis e, principalmente, escalar. A escalada será sua melhor e pior amiga em Rain World, pois é por ela que você fugirá e é graças a ela que você ficará exposto a inimigos que não ficam no chão – ou que também escalam! -, como dito, às vezes você está sem sorte ou o jogo simplesmente decide que você deve morrer.

É normal pensar que, se você não está aprendendo nada com suas mortes, o jogo é injusto, e sim, Rain World é BEM injusto. Você nunca morrerá sem saber o porquê, mas morrerá muitas vezes sabendo que a morte não foi culpa sua. Rain World exige do jogador uma quantidade imensa de paciência e perseverança – e se você não possui ou não tem a mínima vontade de trabalhar estes seus atributos, desista antes de começar.

Algumas vezes a imprecisão nos comandos também fará você morrer. É um problema que encarei diversas vezes e que simplesmente faz parte da injustiça do game. Você está controlando um personagem meio gato meio lesma, comandos precisos na hora de saltar e se pendurar é a última coisa que você deveria esperar. Não, não está certo, mas Rain World nos ensina a aceitar até mesmo isso.

 

Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come

Os predadores de Rain World não dão descanso e mesmo que você seja praticamente impotente perante eles – você pode atrasá-los atirando pedras ou bastões -, há alguns macetes para lidar com cada um, mas não irei adiantar nenhum deles. Geralmente, você terá que se esconder ou esperar que eles vão embora ou briguem pela sua carne suculenta, mas nem sempre essa é a melhor opção pois a contagem regressiva para a próxima chuva não para e ficar escondido durante ela ou se jogar na boca dos inimigos dá na mesma, o bunker é a única forma de sobreviver.

O game conta com uma grande variedade de predadores, desde lagartos que possuem diferentes “raças” e comportamentos dentro de sua espécie, até monstros voadores que te perseguem em qualquer campo aberto. Uma das coisas mais bacanas – ou mais frustrantes – do jogo é que às vezes o mais simples dos seres vivos pode te levar à morte em certas circunstâncias, assim como o mais ameaçador deles pode acabar salvando sua pele.

Alguns dos seres vivos que não tentam te comer também podem servir como obstáculos perante aqueles que te perseguem, e isso é só uma palhinha do que Rain World entrega. Os cenários são repletos de itens que causam efeitos diversos no Lesgato e no ambiente ao seu redor; você não saberá o que eles fazem até de fato testar, já que o jogo não te introduz nenhum deles nem fala nada do tipo “legal, você encontrou o item X, ele faz Y”. O máximo de ajuda que você terá virá do inseto amarelo que te segue por todo canto e indica pra que lado há comida, predadores e pra onde você deve ir.

Imenso e inesquecível

Seu visual 16-bits é maravilhoso ao retratar os cenários inóspitos do game e destacar os elementos que nos podem ser úteis. Os mapas são cheios de detalhes no background e bem intuitivos quanto à função de cada um dos encanamentos. Os inimigos são diferenciados de maneira perfeita através das cores e o visual de cada um deles torna a experiência ainda mais única e inesquecível nos fazendo lembrar de cada área simplesmente pelo terror que nos aguarda ali.

A trilha sonora é quase inexistente, o que reforça a ideia de um mundo abandonado. Em alguns momentos temos músicas mais enérgicas que servem bem para nos alertar quanto aos perigos que estão chegando ou nos aguardando – pelo menos dessa vez o jogo está do nosso lado – e os sons dos predadores e demais seres vivos são bem distinguíveis, de modo que sabemos o que encontraremos em um cenário antes mesmo de vê-los.

Rain World tem uma quantidade imensa de conteúdo e imagino que não seja possível estipular quantas horas demoraria para terminá-lo (você entenderá o porquê). É um jogo que requer raciocínio rápido e muita paciência por parte do jogador. É, inegavelmente, difícil e injusto e te fará muitas vezes se questionar sobre o porquê de estar jogando aquilo.

Rain World é um 9 para mim, mas pode ser um 4 para você. E tudo bem. Os pontos citados no review são fatos, mas a qualidade do jogo vai depender do seu gosto e do tipo de jogador que você é. Tive com pouquíssimos jogos uma relação de amor e ódio tão forte como tive com este e mesmo tendo certeza que minha paciência não durará muito, tenho a obrigação de recomendá-lo.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pela desenvolvedora.

Rafael Oliveira faz análise de jogos, filmes e séries regularmente para o Critical Hits, além de postar notícias e artigos esporadicamente. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito, é fanboy de Steins;Gate e tem um lugar especial no coração para Platformers, RPGs e Metroidvanias.

Compartilhe