Eu gosto muito de jogos que me desafiem. Não tenho tanta preferência por gêneros específicos, mas gosto de quando me permitem avançar de maneiras diferentes, com ferramentas diferentes.

Prey tem muito disso. É um jogo que mistura momentos de terror e tensão e que exige criatividade para se manter vivo na maioria das vezes. Entretanto, o jogo não é muito intuitivo e exige uma certa prática do jogador para entender o que cada coisa faz e por que.

Antes de falar do jogo em si, preciso comentar algo que me incomodou demais durante o gameplay: bugs! Sim, todo mundo sabe que os jogos da Bethesda sempre vêm acompanhado de uma bugzinho maroto aqui ou ali, mas Prey supera todas as expectativas. Eu não tenho palavras para descrever o tamanho da minha frustração em alguns momentos e ouso até mesmo dizer que de todos os jogos que já joguei até hoje, minha experiência com Prey foi a mais comprometida devido as estes pequenos problemas.

Tive problemas com o áudio, com o carregamento de texturas e até mesmo de continuidade. Geralmente eu deixo passar e sigo em frente, mas dessa vez não teve como. Perdi as contas de quantas vezes o jogo simplesmente travou – muitas vezes no meio do combate – por 30~60 segundos e do nada, voltou como se nada tivesse acontecido. Fiz tudo que podia. Atualizei placa de vídeo, desabilitei algumas opções gráficas e nada resolveu. Erro da Bethesda, e feio dessa vez!

Mesmo assim, gostei bastante do que vi. Reavivar a franquia deixando que o novo jogo fique totalmente independente daquele que foi lançado lá em 2006 deu muito certo. Tão certo, que eu nem senti falta dele. A nova história tem mistério, tensão, escolhas difíceis e muita ação. Tudo que você precisa para se divertir por algumas horas a fio.

Por ter sido desenvolvido pela Arkane, esperava algo mais parecido com Dishonored. Mas não. Prey é algo totalmente diferente de Corvo e sua turma, e isso deve ser levado em consideração tanto para bem, quanto para mal. A parte boa é a experiência totalmente nova baseada numa mecânica diferente do que estamos acostumados que permite uma sinergia entre as habilidades dependendo da forma como o jogador avança, livre de experiência e subida de níveis. A parte ruim é que o sistema de habilidades acaba se tornando meio esquisito e o stealth, nem se fala.

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Eu gosto demais de passar desapercebido pelos inimigos e até costumo investir o máximo que posso nisso. Gosto de evitar o combate e utilizar o cenário à meu favor para chegar onde preciso. Sempre cito Dishonored como um grande exemplo de jogo que me permite fazer isso.

Prey até tem alguns momentos onde isso fica evidente, mas não espere algo tão elaborado. O jogo parece te obrigar a utilizar ferramentas para se manter desapercebido, o que torna o jogo muito mais dependendo do que você tem ao invés do comportamento dos NPC’s. Mas pelo menos o combate é muito mais divertido.

Todo o ambiente de Prey te faz ficar vigilante o tempo todo. A tensão durante as suas andanças é diretamente proporcional à quantidade de materiais, munição e armas que você possui no seu inventário, bem como o nível de dificuldade em que você está jogando. O combate não é muito intuitivo e o jogador deve descobrir por si só o que é mais efetivo para derrubar os inimigos do jeito que dá. As vezes basta jogar cola em cima de tudo e sair distribuindo tiros. Noutras, jogar tudo que você encontra pelo caminho e torcer pra causar dano. Se tudo der errado, só resta correr mesmo.

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Durante boa parte do caminho eu me senti como se estivesse jogando uma mistura entre Metroid Fusion e Alien Isolation. Tudo ficou ainda melhor quando eu descobri o que julgo ser a mecânica mais genial do jogo todo: a reciclagem.

Durante as suas andanças você vai encontrar de tudo pelo chão: armas, comida, lixo e etc. Tudo pode ser “reciclado” em matérias de construção no equipamento específico para isso e usado na construção de outros itens que podem ser mais úteis para você naquele momento. É possível transformar comida em munição, caso você tenha todos os ingredientes necessários.

Pode parecer meio besta, mas logo você se pega dando mais atenção à reciclagem de matérias do que à própria missão principal. Não é só essencial, é divertido também! A estação de Talos-I é repleta de perigos e inimigos dos mais variados tipos que exigirão abordagens diferentes para serem vencidos. As vezes, basta andar com a shotgun carregada que tudo se resolve. As vezes, não.

O sistema de habilidade é bastante positivo nesse ponto, pois possibilita que você possa jogar o jogo mais de uma vez com abordagens totalmente diferentes. Ele se divide de duas classes: o que eu chamo de habilidades normais, e as habilidades psiônicas que eu chamo carinhosamente de poderzinhos mesmo.

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O jogador que decide focar nas habilidades normais vai ser ótimo em hackear portas, levantar peso e utilizar armas. Mas pode ter sérios problemas para passar por certos lugares sem o cartão de acesso específico. Já o jogador que foca nos poderes alienígenas pode não ter tanta mobilidade assim, mas na falta de um cartão de acesso, uma cadeirada na janela seguida de uma transformação em caneca pode ser o que você precisa para entrar na sala de segurança mais próxima e encontrar o que precisa. Tudo vai depender do seu estilo.

O jogo responde ao seu estilo aumentando a hostilidade dos inimigos conforme você investe em poderes. Assim, se cria uma espécie de balanceamento entre as duas categorias.

Outra coisa que chama atenção no jogo são os “Pesadelos”, monstros enormes e muito mais fortes que vão aparecer de vez em quando para te arrebentar. Eles também vão aparecer mais vezes caso você tenha mais poderes, e o que eu mais gostei deles é a sensação de terror que causam. Na verdade, é a mesma sensação de quando o Alien aparece em Alien Isolation, mas a diferença aqui é que nesse caso, entrar nas tubulações é muito mais seguro.

Em contrapartida todos os monstros apresentam um comportamento muito mecânico e sem graça. As vezes eles ficam parados perto de você por muito tempo, te obrigando a usar uma granada de isca para tira-los dali e passar desapercebido. Se você não tiver, o único jeito é sair no braço mesmo. Como eu falei antes, você depende muito mais do seu inventário do que da inteligência artificial dos seus inimigos.

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E como todo jogo da Bethesda, não poderiam faltar também as quests secundárias. Apesar de não parecer o tipo de jogo que favorece esse tipo de coisa, realizar tarefas desse tipo é uma das melhores coisas de Prey, pois são através delas que você vai realmente explorar a estação espacial do início ao fim. São graças a elas também que você vai conhecer personagens interessantes e entender melhor o enredo e a vida das pessoas que viviam em Talos-I antes de todo o caos mostrado no jogo. Tem até tesouro secreto escondido por um grupo de RPG.

Existem outros aspectos ainda que eu poderia comentar aqui, mas resolvi não cita-los por que encaro-os como uma espécie de spoiler. A única coisa que preciso dizer é que Prey vai sempre te surpreender durante os seus avanços, e mesmo a arma mais inútil pode se mostrar essencial caso você descubra como usa-la da maneira correta.

Dito isso, posso dizer que Prey tinha tudo para ser uma experiência memorável. Mas infelizmente não foi assim para mim. Os bugs e os erros de continuidade me irritaram tanto que eu não consegui aproveitar o jogo como deveria. Além de me preocupar com os inimigos, vivia tenso por medo de que o game travasse no meio de um momento importante e eu acabasse morto mais uma vez. Tudo isso pode ser corrigido com um patch específico, mas é uma vergonha que a Bethesda não tenha arrumado tudo isso antes do lançamento. Shame on you, Bethesda!

Minha melhor recomendação no momento é: espere um pouco para gastar seu rico dinheirinho em Prey! Sim, isso mesmo. Aguarde a correção de todos estes problemas para que sua experiência não seja comprometida como a minha. Não acredito que vá demorar muito, mas não aconselho pagar quase trezentos reais em um jogo com tantos erros grotescos.

Com isso superado e resolvido, tenha certeza de uma ótima experiência que vai te deixar tenso e emocionado constantemente. Com ótimos personagens, excelente enredo e um clima de mistérios que te faz continuar em frente. Prey é o tipo de jogo que me faz querer consumir mais conteúdo relacionado a espaço, estações espaciais e terror fora do planeta terra, e se você também curte coisas do gênero, este é o jogo perfeito para você.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pela Bethesda

João Víctor Balestrin Sartor é colaborador e sex-symbol do Critical Hits. Admirador das boas histórias, almeja de verdade escrever um livro algum dia. Divide seu tempo entre à leitura, jogatina, trabalho, engenharia e quando sobra tempo, vive.

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