Certos jogos buscam oferecer ao jogador uma experiência diferenciada, fazê-lo sair um pouco da sua zona de conforto formada por shooters e AAA cinematográficos e viver uma história mais simples, que o proporcione uma experiência que mostre as possibilidades que oferecem os videogames. O indie Event[0] é um desses jogos, nele você deve se relacionar com uma IA para fugir de uma nave abandonada tomando cuidado para não magoar os sentimentos dela; Perception também oferece uma experiência diferente, mas no visual, te colocando na pele de uma garota cega.

Seria impossível imaginar como um jogo colocaria o jogador para controlar um personagem cego antes de Perception, e a desenvolvedora Deep End tornou o impossível possível com uma ideia simples e genial: geolocalização. A única forma de “ver” no jogo é através do som, que ecoa em objetos próximos e projeta uma imagem na mente de Cassie, protagonista em Perception, assim possibilitando que ela possa andar sem a companhia de ninguém.

Cassie é quem projeta o som com sua bengala, batendo-a no chão e assim iluminando todo o ambiente ao seu redor por um segundo. Essa mecânica funciona de forma espetacular, é linda de se ver e deixa o jogador atento para tudo o que acontece e vê, além de fazê-lo ter que decorar o posicionamento de objetos durante esse segundo em que o ambiente é iluminado. É claro,é  possível bater a bengala infinitamente no chão, mas isso traria a sua ruína.

Cassie parte sozinha em busca de respostas sobre seu passado e acaba numa mansão, é claro, abandonada e assombrada que aparentemente tem alguma coisa relacionada com ela. O espírito que assombra a mansão é chamado apenas de Presença, e ele não gosta muito de ver Cassie fuçando os cômodos e o passado de seu lar.

Apesar do cenário “mansão assombrada” ser um clássico clichê de jogos de terror, ele é driblado bem pelos desenvolvedores que ao invés de fazerem portas rangerem e encherem os corredores de jump scares, optaram por utilizar pequenos detalhes que aumentam a tensão do jogador sem dar sustos covardes. Coisas como um caminho que você acabou de passar mudar completamente e objetos mudarem de lugar repentinamente, isso, infelizmente, não é o suficiente para fazer Perception ser um jogo bom.

Perception-review

O grande problema do jogo é que ele quase não oferece desafio ao jogador. A Presença não te persegue, ela ouve o som que você faz com a bengala de Cassie e vai atrás de você, mas só se você bater a bengala no chão descontroladamente. Nas minhas 4 horas de jogo foram pouquíssimas as vezes que eu me encontrei com a entidade e morri, algumas delas sendo por ter ficado muito tempo parado em um local. Você não vai ver o espirito se usar a bengala para ver a cada 7 ou 10 segundos, tempo suficiente para andar por uma sala inteira apenas com a imagem que você gravou da última vez que usou a bengala.

E somado à falta de desafio vem o segundo maior problema de Perception: checkpoints. Se você costuma bater muito a bengala de Cassie a ponto da Presença te pegar, prepare-se pra voltar pelo menos 15 minutos no jogo, pois os checkpoints de Perception ficam extremamente longe um do outro. Isso não é ruim porque você deve percorrer todo o caminho de novo, mas sim as coisas que você tem de fazer nesse caminho, como ouvir gravações demoradas, assistir flashbacks e ver o jogo tentar fazer as mesmas pegadinhas mais uma vez. Assumindo que você vai morrer pouco e terminar o jogo rápido, a distância entre checkpoints acaba sendo um estresse desnecessário.

Perception-review

Fora isso, há coisas muito bem feitas em Perception, como a história da mansão que é explorada por Cassie em diferentes períodos de tempo. Isso ajuda o jogador a não se perder e entender tudo o que ele precisa sobre a mansão e o que aconteceu ali, além de dar um ritmo bom ao jogo e não criar a expectativa de um climax em nenhuma das “timelines”, afinal, Cassie só explora alguns pontos de cada uma, não há muito para acontecer.

A dublagem em inglês da personagem é muito boa e o game é completamente legendado em português, uma grande ajuda para os fãs de terror que enfrentam problemas com a língua americana. A falta de trilha sonora é um ponto positivo, já que isso dá maior destaque aos demais efeitos sonoros, algo imprescindível para aumentar a imersão do jogador que está controlando uma personagem cega.

A forma como os cenários se iluminam com uma simples batida de bengala no chão é muito bonita e é o que há de realmente memorável em Perception. Os cenários em geral são iluminados pelo som de azul e itens ou objetos especiais são iluminados por uma cor esverdeada que os destaca no meio de todo o azul e ajuda a memorizarmos sua localização durante o segundo que Cassie ilumina o ambiente.

Perception não é um bom jogo de terror e se você quiser jogá-lo com isso em mente, é melhor escolher outro jogo e evitar uma decepção. Até os desenvolvedores sabem que o jogo falha nesse quesito e o classificam como uma “experiência de narrativa psicologicamente tensa”. Eu diria que isso resume bem o que Perception é, uma experiência diferente que foca na narrativa e deixa o jogador psicologicamente tenso por seu sistema único de geolocalização, mas não chega a ser algo inesquecível ou que te deixe feliz por ter jogado, é só uma experiência diferente (talvez essa seja a descrição que eu mais repeti em um review).

Rafael Oliveira faz análise de jogos, filmes e séries regularmente para o Critical Hits, além de postar notícias e artigos esporadicamente. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito, é fanboy de Steins;Gate e tem um lugar especial no coração para Platformers, RPGs e Metroidvanias.

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