Após quase uma década em desenvolvimento, Owlboy, o platformer metroidvania da D-pad Studio finalmente foi lançado, para a alegria de uma legião de fãs que viu o projeto crescer e que chegou a perder as esperanças de que um dia ele veria a luz do dia. As expectativas, porém, voltaram a subir com o anúncio do lançamento e Owlboy conseguiu fazer o que poucos jogos “hypados” conseguem: superar estas expectativas.

Em Owlboy você controla Otus, uma coruja muda que é considerado por todos os moradores da pequena cidade de Vellie como um completo idiota, principalmente por seu professor. Salvas algumas exceções, Otus é amado apenas por Geddy, seu fiel amigo que está sempre ao seu lado e o acompanha em suas aventuras. Otus e Geedy acabam se envolvendo em problemas quando sua cidade é ameaçada por piratas e, a partir daí, conhecemos a essência da história de Owlboy.

Owlboy é um jogo sobre falhas, aquelas que reconhecemos e aquelas que só os outros enxergam. Otus batalha duramente, enfrenta hordas de inimigos, chefes gigantescos e é preso em abismos, sempre consegue fugir e mesmo que para nós ele tenha se saído vitorioso, para o andar da história – e para todos os demais personagens – ele tem sido inútil e tem falhado continuamente.

É uma mensagem sobre esforço, falhas e acertos e, principalmente, reconhecimento, que eu não esperava encontrar em um título que aparentava ser tão simples. Owlboy não é de fazer estrondo, ele é sutil em quase todos seus aspectos, o desenvolvimento dos personagens é feito de maneira simples e muito eficaz. Otus é o mais fácil de se gostar certamente devido a sua vulnerabilidade às palavras e a incapacidade de responder qualquer coisa, é aquele personagem injustiçado que nos dá vontade de gritar com todos os outros NPCs.

Conforme avançava na campanha, que possui de 8 a 10 horas de duração, pude ter cada vez mais certeza que o roteiro de Owlboy foi completamente produzido para imergir o jogador na história e fazê-lo rapidamente se apaixonar por seus personagens e suas expressões. Expressões estas, aliás, que são retratadas com uma quantidade de detalhes absurda e que provocam uma empatia quase que instantânea com o recheado elenco do mundo do jogo.

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Voltando à aventura de nossa pequena coruja, Otus conta apenas com suas asas para ultrapassar os obstáculos que encontra e enfrentar os piratas que pretendem destruir sua cidade. Sua capacidade de voo é ilimitada, apesar de incluir uma série de limitações que fazem com que a jogabilidade fique muito mais variada e que usemos outras habilidades em conjunto. Estas habilidades são fornecidas pelos amigos que Otus carrega enquanto batalha, cada uma com características distintas e funcionalidade diferentes que podem servir para acessar plataformas, resolver puzzles e combater inimigos. Com Geedy, por exemplo, somos capazes de atirar rajadas de balas em inimigos ou destruir obstáculos de madeira, carregando outro personagem podemos atrasar inimigos ou destruir obstáculos de pedra. O design das fases, sobre o qual falaremos mais pra frente, é sempre muito claro neste quesito, é sempre fácil saber que personagem devemos usar e como deveremos utilizar sua habilidade.

A jogabilidade é bem acertada, é muito simples mudar de personagem utilizando os botões de ombro do controle e mirar seus respectivos ataques usando o analógico, assim como utilizar os movimentos próprios de Otus. Isso, porém, parece fugir do controle em diversas áreas do game onde mudamos de um cenário de puzzles para áreas apertadas onde inimigos lançam sobre nós uma verdadeira chuva de balas. Owlboy não é um platformer de raciocínio e movimentos rápidos como Ori and the Blind Forest, isso é óbvio, e essas áreas são capazes de tornar o jogo bem decepcionante, para não dizer irritante.

Excluindo esses momentos, Owlboy é realmente muito divertido. Ele oferece uma infinidade de desafios que não são difíceis, mas que volta e meia nos fazem empacar em uma área. A grande maioria de seus puzzles são fáceis de se decifrar, mas também divertidos de se resolver; seus chefes são um desafio justo e geralmente rápido que testam nosso domínio sobre as habilidades da equipe Otus e nossa capacidade de compreender as dicas visuais que são dadas; até inimigos comuns oferecem um combate bacana introduzindo elementos que geralmente necessitam de um ou outro personagem para serem vencidos.

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No quesito metroidvania está um dos maiores pecados de Owlboy – e de qualquer jogo do gênero: a falta de um mapa. Metroidvanias, mesmo os do estilo story driven de Owlboy, sempre oferecem opções de exploração e atividades extras que você pode fazer explorando suas diversas áreas, o que é desestimulado pela falta de um mapa no game. Não que as áreas sejam muito compridas ou algo assim, mas algumas delas possuem características específicas que podem matar a sua exploração em pouquíssimo tempo, o que diminui bastante o fator replay de Owlboy.

E já que falamos do ponto mais baixo de Owlboy, é hora de falar sobre sua belíssima arte, o ponto mais alto. A D-pad Studio utilizou para descrever seu jogo o termo “hi-bit” (que já esta em meu vocabulário), um estilo que pode ser usado para definir os jogos pixelados atuais que possuem uma beleza exuberante. No caso de Owlboy, exuberante é pouco para definir sua arte 16-bit que é uma das coisas mais maravilhosas que eu já vi na vida. É mais um daqueles jogos que te faz parar diversas vezes durante a jogatina apenas para admirar o cenário e a riqueza de detalhes.

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Owlboy é uma verdadeira aula de design, level design, design de personagens, design de história, design de jogabilidade e qualquer outro detalhe que você quiser colocar após “design de”. Ele oferece uma aventura única que não fica entediante, sempre tem novidades para o jogador e desperta diferentes sentimentos através de seus cenários, personagens hilários ou história sentimental. Você dificilmente vai se pegar fazendo algo repetidas vezes, ou realizando uma tarefa por muito tempo a ponto de ficar enjoado de fazê-la, o balanceamento no gameplay é incrível e é mais um detalhe que faz este jogo ser incrível.

Já a trilha sonora, rapaz, que trilha sonora. Mesmo eu que não entendo absolutamente nada de música tive que me curvar à trilha sonora deste jogo que é capaz de mudar a atmosfera de amigável para sombria em questão de segundos, tudo com melodias feitas em 16-bit que ficarão em sua cabeça por muito tempo após terminar o jogo.

Owlboy é um jogo especial, quase uma obra prima. É um daqueles jogos que faz você se sentir feliz e satisfeito por ter jogado, por ter vivido sua história e conhecido seus personagens sensacionais. Dono de uma arte e trilha sonora invejáveis, ele será certamente um ícone para os jogos 16-bit que venham a ser lançados no futuro e o marco zero do gênero hi-bit.

Review elaborado utilizando uma cópia do jogo para PC fornecida pela desenvolvedora.

Rafael Oliveira escreve no Critical Hits sobre quadrinhos, cinema e séries de TV, além de games. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito e tem um lugar especial no coração para Platformers, Musou e Metroidvanias.

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